O impasse saudita no Oriente Médio - Le Monde Diplomatique

INTERVENÇÃO NA SÍRIA, PRESSÃO NO LÍBANO, GUERRA NO IÊMEN

O impasse saudita no Oriente Médio

por Gilbert Achcar
Março 2, 2018
Imagem por Reuters
compartilhar
visualização

A Arábia Saudita tenta impedir a eclosão de um movimento democrático na região e conter a influência de seu rival iraniano. O novo poder multiplica as iniciativas, mas a maioria fracassa. Incapaz de favorecer a derrota do regime de Bashar al-Assad, Riad afunda-se no conflito no Iêmen e não consegue enquadrar o Catar

A chave para a especificidade do Oriente Médio não é o islã, mas o petróleo. A riqueza da região do Golfo Pérsico levou o Império Britânico a criar ou consolidar no flanco árabe entidades artificiais em diferentes graus. Os Estados-membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) apresentam a particularidade de ter estrangeiros constituindo a maior parte da força de trabalho. Na maioria desses Estados (Arábia Saudita, Omã, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Catar), eles representam a maior parte da população. Chegam a 90% dela, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos!

A riqueza petrolífera da região do Golfo levou o Império Britânico a consolidar ou instaurar os sistemas monárquicos mais arcaicos do mundo contemporâneo. Explorando e revivendo sucessões tribais, transformou grupos de clãs em “famílias reinantes”, estabelecendo poderes absolutistas de tipo patrimonial, com a esperança de que elas se mantivessem como poder tutelar até seus recursos de hidrocarbonetos estarem esgotados. Essa riqueza levou os Estados Unidos a agir da mesma forma com seu mais antigo protetorado de fato na região: o reino saudita. O líder do “mundo livre” apoia o Estado mais antidemocrático, misógino e fundamentalista do planeta, o único em que o Corão e a Sunnah (tradição) assumem o lugar da Constituição.

A autonomia extrema do Estado, possibilitada pela renda obtida com o petróleo e o gás, permitiu que se perpetuassem esses sistemas arcaicos, encravados em instituições estatais e economias capitalistas contemporâneas. Ali, o poder obedece tanto menos à racionalidade socioeconômica habitual – a dos sistemas políticos em que os interesses de uma classe capitalista ou de uma camada burocrática delimitam as escolhas possíveis – quanto mais concentrado ele é: quanto mais restrito é o círculo dirigente, ao mesmo tempo dispondo de um tesouro natural para financiar um Estado que ele trata como sua propriedade privada, menos esse círculo obedece a restrições estruturais e mais sua margem de manobra se alarga. Em tais circunstâncias, suas decisões podem sofrer mudanças bruscas, que parecem erráticas e caprichosas. Lá onde as grandes máquinas estatais, como os navios, movem-se lentamente, os poderes estatais ultraconcentrados estão sujeitos a viradas abruptas, como um bote a motor.

Dois Estados da zona do Golfo escaparam da configuração sociopolítica compartilhada pelos outros, porque abrigavam civilizações urbanas muito antigas e herdaram populações mais numerosas e sociedades mais desenvolvidas: o Irã e o Iraque. Eles são os dois únicos países da região onde a monarquia foi derrubada. No Iraque, isso acabou levando à constituição de um regime patrimonial “republicano”, mantido com mão de ferro por uma família reinante que reproduzia os vícios das monarquias absolutistas – até sua derrubada, em 2003, após a invasão liderada pelos Estados Unidos.

No Irã, isso levou ao surgimento do único Estado estritamente teocrático (com exceção do Vaticano). Ao contrário de seus vizinhos do Golfo, o Irã é governado por instituições e leis, e não por uma família, embora o Líder Supremo goze de um poder exorbitante.1 Consequentemente, é o único Estado da região que atua com base em uma estratégia coerente, facilmente identificável: o expansionismo da Guarda Revolucionária e a exacerbação da tensão regional que o país produz reforçam a legitimidade de seu poder.2

O quadro da atual dinâmica geopolítica do Golfo foi determinado pelo advento da República Islâmica do Irã, em 1979. A revolução iraniana apavorou as monarquias árabes vizinhas, ainda mais com os Estados Unidos no ponto mais baixo de seu declínio pós-vietnamita e paralisados diante dos muitos desafios daquele ano: revolução na Nicarágua, invasão soviética no Afeganistão. A ofensiva do Iraque contra o Irã em 1980 permitiu que os Estados Unidos e seus aliados regionais se restabelecessem: eles facilitaram a destruição mútua dos dois Estados em luta.

A guerra terminou “empatada”, após oito anos de um massacre absurdo (quase 1 milhão de mortos, segundo a estimativa mais comum). Sem conseguir livrar-se das dívidas contraídas junto a seus financiadores monárquicos, Saddam Hussein decidiu resolver a situação invadindo e anexando o Kuwait, em agosto de 1990. Assim, proporcionou aos Estados Unidos uma excelente oportunidade de matar dois coelhos com uma cajadada só: retornar com força ao Golfo pela primeira vez desde 1962 – data da evacuação da base norte-americana em Dhahran, na região petrolífera do reino saudita, sob a pressão do Egito de Nasser – e confirmar para seus aliados, rivais e inimigos planetários a supremacia (“indispensável” ou inevitável) dos Estados Unidos na era pós-Guerra Fria, quando o bloco soviético desabava.

Ao destruir o Iraque baathista, seu grande inimigo, a intervenção de 1991 suscitou sentimentos mais dóceis entre os líderes iranianos. Mas esse golpe de força fortaleceu a família real saudita, que passou a sentir-se ao abrigo de uma ação iraniana em seu território. Riad fez da atitude em relação à guerra entre Estados Unidos e Iraque a pedra de toque de suas relações regionais. Ele puniu todos aqueles que saudaram a invasão do Kuwait e se declararam hostis à intervenção norte-americana: o Iêmen, expulsando quase 1 milhão de trabalhadores migrantes dali oriundos; a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat, cortando o abastecimento de suprimentos; e a Irmandade Muçulmana, rompendo os laços com o grupo.

Até aquele momento, o reino saudita era o principal apoio da Irmandade, desde sua fundação, no Egito, em 1928. Com os Estados Unidos, ela havia combatido o regime nacionalista de Gamal Abdel Nasser (1954-1970), apoiado pela Rússia, que a reprimiu duramente. Mas a organização não poderia alinhar-se com a Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo sem perder muitos de seus membros. Privando-a de apoio logístico e financeiro, a Arábia Saudita queria que a Irmandade, assim como a OLP, fosse obrigada a se dobrar.

A situação não demorou a mudar, com a tomada de poder, no Catar, de Hamad bin Khalifa al-Thani, que depôs seu próprio pai em 1995. O novo emir provavelmente não havia lido a fábula de La Fontaine “A rã que queria ser maior que o boi”. Querendo brincar junto com os grandes da política regional, ele decidiu financiar a Irmandade Muçulmana mais ou menos da mesma forma que outros magnatas compram equipes de futebol. E também adquiriu, pagando caro, um canal de televisão por satélite, a Al Jazeera, que tinha a Irmandade como base de sustentação e logo conseguiu uma audiência excepcional, dando voz às oposições do mundo árabe – com exceção daquelas do vizinho saudita e do próprio Catar, onde o crime de lesa-majestade pode ser punido com a prisão perpétua.

 

Duas opções contrarrevolucionárias

Armado com esses dois instrumentos políticos e confrontado com a ira do grande irmão saudita, o emir introduziu uma política rentista de “cobertura de risco”, “diversificando seus ativos”, ou seja, tecendo vínculos com toda a gama de forças importantes na região. Assim, realizou a façanha de construir, à sua própria custa, em segredo, uma base aérea para os Estados Unidos (Al Udeid, perto de Doha) e estabelecer relações comerciais com Israel, ao mesmo tempo exibindo boas relações com o Irã e apoiando o Hezbollah libanês e o Hamas palestino!

No entanto, a invasão do Iraque em 2003 mudou o jogo em toda a região. Do ponto de vista estratégico, ela foi certamente o fracasso mais grave na história da política imperialista dos Estados Unidos: eles tiveram de sair do Iraque em 2011, sem conseguir nenhum de seus objetivos centrais. Pior: deixaram o país já dominado por seu grande inimigo regional iraniano.

No mesmo ano, os Estados Unidos testemunharam a explosão de muitos dos Estados nos quais se baseava sua hegemonia regional. Diante da Primavera Árabe, surgiram duas opções contrarrevolucionárias concorrentes, ambas ancoradas no bastião reacionário do CCG:3 uma apoiada pelo reino saudita e a outra, pelo emirado do Catar.

Tradicionalmente ultraconservadores, os sauditas eram partidários da defesa dos regimes em vigor, fosse esmagando as revoltas – como ajudaram a fazer, em março de 2011, em Manama, capital do Bahrein –, fosse negociando acordos nos países onde mantinham boas relações com a oposição oficial, como no Iêmen. O Catar, por sua vez, erigiu-se em principal apoiador do levante regional, fazendo valer sua capacidade de influenciá-lo graças à sua ascendência decisiva sobre a Irmandade Muçulmana. Esta aproveitou as circunstâncias para assumir um papel de liderança, com o apoio financeiro e televisivo de seu patrocinador. A melhor ilustração do contraste entre as duas opções pode ser buscada no país onde tudo começou: a Tunísia. O emirado acompanhou o levante popular apoiando o parceiro tunisiano da Irmandade Muçulmana, o Ennahda, enquanto o reino wahabita ofereceu asilo ao ditador deposto, Zine al-Abidine ben Ali.

O governo de Barack Obama oscilou entre as duas opções. Ele concordou com a repressão do levante no Bahrein, mas apoiou o acordo no Iêmen. Nos países onde a revolta foi muito impetuosa, ele jogou a carta da recuperação, confiando na cooperação da Irmandade Muçulmana – como foi o caso no Egito, antes mesmo de esta vencer as eleições presidenciais de maio-junho de 2012.4 Na Líbia, os Estados Unidos se deixaram levar por seus aliados europeus – principalmente franceses e britânicos – para bombardear as forças de Muamar Kadafi. O Catar participou ativamente da intervenção, enquanto os sauditas se recusaram a se unir a ela. Sabemos o resultado: o caos líbio dissuadiu Obama de voltar a colaborar com a derrubada de um Estado na região. Na Síria, portanto, o presidente dos Estados Unidos negou à oposição os meios para neutralizar a grande vantagem militar do regime, que é a posse exclusiva de meios aéreos: ele não apenas se recusou a reiterar a “zona de exclusão aérea” imposta acima da Líbia, mas, sobretudo, impediu qualquer entrega de armas antiaéreas à oposição. Desse modo, o regime de Bashar al-Assad garantiu o controle do espaço aéreo, inclusive para o lançamento, com helicópteros, das mortais bombas de barril. Ao mesmo tempo, Obama delegou a seus aliados do Golfo e à Turquia a tarefa de patrocinar a oposição síria.

Os sauditas não podiam defender Al-Assad por causa de sua aliança com o Irã. Mas, como o Catar, não saberiam conviver com uma revolução democrática e laica em sua vizinhança. Então decidiram remodelar a oposição síria para torná-la compatível com a natureza reacionária de seu próprio regime. Assim, iniciaram uma feroz concorrência com o eixo Catar-Turquia para financiar grupos armados sírios com perfil fundamentalista islâmico (salafista-jihadista) e sunita. A revolução síria de 2011 virou pó, pega entre o martelo e a bigorna: de um lado, o regime, as milícias fundamentalistas xiitas controladas pelo Irã e, depois, a partir de 2015, a aviação e os mísseis da Rússia; do outro, grupos armados fundamentalistas apoiados pela Turquia, pelo Catar e pela Arábia Saudita.

Nem o surgimento da Organização do Estado Islâmico, a tomada de Mossul, no Iraque, e a proclamação do califado bastaram para levar Obama a apoiar-se em forças armadas árabes sunitas confiáveis nos dois países, como muitos o incitavam a fazer. O argumento era de que isso permitiria sufocar de maneira durável a Organização do Estado Islâmico, da mesma forma que a ocupação dos Estados Unidos só conseguiu vencer sua versão anterior, o Estado Islâmico no Iraque, armando e financiando milícias tribais árabes sunitas. Em vez disso, os Estados Unidos apoiaram-se, em sua intervenção no Iraque, nas forças armadas regulares e irregulares dominadas pelos xiitas e infiltradas no Irã, em graus diversos, para grande desgosto da Arábia Saudita. E na Síria, nas forças nacionalistas curdas, para grande desgosto da Turquia.

A atitude de Obama era coerente com sua política de apaziguamento em relação ao Irã, apostando na fração moderada, chamada de reformista, do regime iraniano – política da qual o acordo sobre a questão nuclear constituía uma pedra angular. O presidente dos Estados Unidos fez desse acordo sua prioridade, conseguindo fechá-lo em julho de 2015, após longas negociações envolvendo a Rússia, a China, a Alemanha e a França. Ele tomou essa via apesar da expansão regional do Irã, que, depois de se estabelecer firmemente no comando do Estado iraquiano, passou a intervir de maneira crescente na Síria, com seus contingentes regionais, a partir de 2013. A indiferença dos Estados Unidos irritou os dois principais inimigos do Irã na região: Israel e o reino saudita.

A apreensão dos sauditas atingiu seu clímax quando, em setembro de 2014, a capital iemenita, Sanaa, foi tomada pelos houthis, amigos do Irã, de cujas orientações ideológicas eles compartilham, e aliados do ex-presidente Ali Abdullah Saleh.5 Foi nesse contexto muito alarmante para os líderes sauditas que Salman bin Abdulaziz al-Saud sucedeu a seu meio-irmão, morto em 23 de janeiro de 2015.

Com 80 anos de idade no momento em que subiu ao trono, o rei Salman estabeleceu como objetivo prioritário preparar a sucessão de seu filho favorito, Mohammed, que ainda não tinha 30 anos. Começou confiando-lhe o Ministério da Defesa; dois anos depois, em junho de 2017, Mohammed bin Salman (MBS, como costumam designá-lo) tornou-se o príncipe herdeiro.6 O novo rei e seu jovem filho optaram por uma reação enérgica à ameaça iraniana: decidiram realizar uma intervenção direta no Iêmen, bem como adotar uma política de frente sunita regional única, que passava por melhorar as relações com o Catar e flexibilizar a atitude em relação à Irmandade Muçulmana.

A intervenção militar no Iêmen liderada pela Arábia Saudita em março de 2015, sob a supervisão de MBS, mobilizou uma coalizão que incluía o Catar. Ela apoiou um governo iemenita “legítimo”, que representava uma coalizão da qual participava a Irmandade Muçulmana local. Esta é um componente fundamental do partido Al-Islah, com o qual o novo reinado saudita restabeleceu relações, após o reinado anterior tê-lo excomungado. No entanto, a nova linha da Arábia Saudita criou tensões com o Egito do marechal Abdel Fatah al-Sissi, partidário da linha dura contra a Irmandade, que ele destruiu em seu país. Nessa posição inflexível, o Egito voltou-se para os Emirados Árabes Unidos, onde o príncipe herdeiro de Abu Dhabi e homem forte da federação, Mohammed bin Zayed (conhecido como MBZ), professa uma veemente hostilidade contra a Irmandade Muçulmana.7

YEMEN-SECURITY/

 

A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos veio bagunçar tudo outra vez. O novo presidente logo se cercou de conselheiros islamofóbicos que defendiam uma atitude dura contra a Irmandade Muçulmana, recomendando até classificá-la como organização “terrorista”. Eles foram encorajados nisso pelos Emirados e seu ativo embaixador em Washington, pedindo que se obrigasse o Catar a tirar o apoio à Irmandade.

Recebido com grande pompa pelo reino saudita em maio de 2017, em sua primeira visita presidencial no exterior, Trump pressionou seus anfitriões a forçar o Catar a romper com a Irmandade e não mais deixar a Al Jazeera à sua disposição. Menos de quinze dias após a visita, o reino saudita, os Emirados e o Bahrein, seguidos pelo Egito e alguns governos vassalos, romperam as relações diplomáticas com o Catar. Os três membros do CCG chegaram a interromper o transporte e o comércio com o colega. O caso, que fez muito barulho, foi um fiasco. Expulso da coalizão que intervinha no Iêmen, o Catar recusou-se a seguir as ordens. Ele usou seus enormes recursos financeiros para se adaptar à situação, com a ajuda comercial e militar da Turquia, aliada e copatrocinadora da Irmandade Muçulmana desde o início da Primavera Árabe.

Embora afirme o contrário, o governo Trump poderia conviver com a manutenção de Al-Assad no poder sob a tutela da Rússia, desde que esta ajude a expulsar as forças iranianas e suas aliadas do país. As duas orientações foram seguidas pela Arábia Saudita desde a visita do presidente norte-americano. No início de outubro de 2017, o rei Salman realizou a primeira visita de um soberano saudita à capital russa. A operação de sedução – a julgar pela delegação de alto escalão que acompanhou o monarca e pelos contratos negociados – tinha o objetivo de convencer o presidente Vladimir Putin a mudar sua atitude em relação ao Irã. Um mês depois, Trump e Putin, presentes na cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) em Da Nang, no Vietnã, assinaram uma declaração conjunta sobre a Síria: apoio ao processo internacional da Conferência de Genebra e aval implícito para a manutenção de Al-Assad no poder até a adoção de uma nova Constituição e a organização de eleições.

Nesse meio-tempo, a Arábia Saudita convocou o primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, de família estreitamente dependente dos sauditas,8 para obrigá-lo a fazer uma declaração de renúncia que, de maneira bastante absurda, ele foi forçado a ler no próprio reino saudita, em 4 de novembro de 2017. Atacando ferozmente o Irã e seu auxiliar libanês, o Hezbollah, com o qual Hariri havia, no entanto, formado um governo de unidade nacional em dezembro de 2016, a declaração pôs fim a qualquer cooperação com o partido xiita. A operação fez tanto sentido quanto as observações de Trump no gramado da Casa Branca, com Hariri a seu lado durante visita a Washington, em julho: o presidente dos Estados Unidos atacou longamente o Hezbollah, chamando-o de “ameaça para o Estado libanês, o povo libanês e toda a região” e colocando-o no mesmo saco que a Organização do Estado Islâmico e a Al-Qaeda, sem se importar com o fato de que o “partido de Deus” fazia parte do governo presidido por Hariri…

Toda essa operação foi novamente um fiasco: retirado da Arábia Saudita pelo presidente francês Emmanuel Macron, Hariri voltou atrás em sua renúncia. A coalizão do governo libanês, no entanto, continua muito frágil e exposta a crises recorrentes. Aliás, há sinais de tensão entre a Rússia e a Arábia Saudita sobre a Síria: depois de parecer apoiar os movimentos russos para promover um diálogo entre o regime e a oposição, a Arábia Saudita parece ter endurecido sua posição, a ponto de encorajar a oposição síria a recusar-se a jogar o jogo da Rússia. No fim das contas, o destino da Síria dependerá da evolução das relações entre norte-americanos e russos. Por enquanto, a atitude dos Estados Unidos em relação à Rússia endureceu consideravelmente: campanha contra o “Russiagate”, novas sanções, entrega de armas à Ucrânia etc. Tudo contra a vontade de um Donald Trump visivelmente irritado.

Diante do inédito caos da política norte-americana, os sauditas se veem em uma bela confusão, especialmente porque sua ofensiva no Iêmen atolou, provocando um dos piores desastres humanitários contemporâneos, até mais grave que a tragédia síria. Sua esperança de reverter a situação trazendo de volta Saleh – que já não estava mais ao alcance da mão – evaporou-se em dezembro, com seu assassinato pelos aliados que ele havia traído. A isso se soma, desde então, um conflito aberto entre as forças iemenitas da coalizão liderada pela Arábia Saudita, ainda mais incômodo pelo fato de que algumas facções passaram a ser apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos e outras pela Arábia Saudita. Catar, Líbano, Síria, Rússia: todas as manobras empreendidas pelos líderes sauditas instigados por Trump falharam. Para piorar as coisas, o reconhecimento, por parte deste último, de Jerusalém como capital do Estado de Israel os envergonhou, especialmente porque, de acordo com seu desejo, eles haviam começado a pressionar a Autoridade Palestina de Mahmoud Abbas para aceitar os termos israelenses – eles tiveram de voltar atrás. E o isolamento do presidente dos Estados Unidos na cena internacional sobre a questão iraniana só pode agravar sua amargura. A dança do sabre de Trump com seus convidados sauditas em maio passado já parece bem longe…

 

*Gilbert Achcar é professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos (Soas) da Universidade de Londres. Autor do livro Les Arabes et la Shoah. La guerre israélo-arabe des récits [Os árabes e o Holocausto. A guerra de narrativas entre árabes e israelenses], Sindbad-Actes Sud, 2009.



Artigos Relacionados