ENTREVISTA - LITERATURA ANGOLA

O mundo de Pepetela

Aos 75 anos, escritor angolano fala sobre as nuances de seu país,  política, literatura e egoísmo. Vencedor do Prêmio Camões em 1997, o autor de “Mayombe”, “Geração da Utopia” e ”Se o Passado não Tivesse Asas” faz duras críticas às relações entre Angola- Brasil – Portugal, países membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e afirma que o egoísmo é o grande mal dos nossos tempos.

por: Guilherme Henrique
14 de março de 2017

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“O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros”, diz as primeiras linhas do romance “Mayombe” publicado em 1980 e escolhido como o primeiro livro de um autor africano no vestibular da FUVEST.

Escrito por Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o codinome Pepetela é a junção do homem letrado com o guerrilheiro. Entre as armas e a literatura, o ex- combatente do MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola) ajudou a forjar o caminho cultural e político de um país que há 41 anos conquistaria sua independência e deixaria o histórico colonial português para trás.

O êxito, no entanto, foi rapidamente sufocado pela Guerra Civil iniciada em 1976, protagonizada por três organizações políticas – o MPLA, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) – perdurando até 2002, quando o governo do presidente José Eduardo dos Santos e líderes da UNITA assinaram um acordo de paz que pôs fim aos confrontos.

Vice-ministro da educação de Angola entre 1975 e 1982, Pepetela abdicou da política para dedicar-se somente a escrita. Vencedor do Prêmio Camões em 1997, o autor de “Mayombe”, “Geração da Utopia” e ”Se o Passado não Tivesse Asas” faz duras críticas às relações entre Angola- Brasil – Portugal, países membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e afirma que o egoísmo é o grande mal dos nossos tempos.

 

Le Monde Diplomatique:  A literatura jogou um papel essencial na luta pela independência de Angola, contribuindo na formação de uma identidade nacional. 41 anos depois, qual a força da literatura angolana na disseminação de ideias no país?

Pepetela – A literatura teve de facto o seu papel na difusão da ideia de uma luta pela independência. E hoje ainda vai questionando situações e comportamentos, fazendo perguntas. Muito mais isso do que propriamente apresentando soluções, que não é, decididamente, o seu objectivo. No entanto, isto é limitado pela fraca difusão das obras literárias, por pouca edição ou pela falta de capacidade financeira dos leitores para comprarem livros, que são demasiado caros.

Havia, no momento em que a União dos Escritores Angolanos foi criada, a preocupação de mostrar Angola e a África com um discurso próprio, sem a influência portuguesa. A literatura produzida atualmente em Angola dialoga com o público da maneira que você acha necessária para a mudança de pré-conceitos e estereótipos?
Suponho que sim. Os escritores de todas as gerações têm uma forte preocupação em ler a sociedade e em transmiti-la para o público de forma a que os preconceitos criados no tempo colonial sejam denunciados. Não só esses, obviamente. Também os que vão surgindo depois da independência. Como todas as outras, a sociedade angolana está cada vez mais complexa, sempre surgem novos problemas e contradições, o que serve de fonte permanente para a literatura.

Do ponto de vista literário, o projeto do MPLA na luta pela independência era promissor, com amplas campanhas de alfabetização, altas tiragens de livros, que eram subsidiados pelo Estado. É possível dizer que o campo literário, com essa democratização, foi a instância que chegou mais perto dos ideais socialistas?

Realmente, nos primeiros anos da independência, houve uma genuína vontade de aproximar a literatura (e a cultura em geral) de amplas camadas da população. Campanhas de alfabetização, prestígio dos homens de cultura, edições de grande tiragem, preços baratíssimos dos livros por causa do apoio estatal. Mas também houve um grande esforço e até talvez melhor realização no campo da música, a qual serviu de grande dinamizador e mobilizador da sociedade.

Em uma palestra recente na UFRJ o senhor diz que não há escrita branda, quando a realidade é cruel. Mas a literatura não pode ser usada como fuga dessa realidade? Ou só o leitor tem esse direito, ao fugir da sua própria realidade e viver a história do livro em questão?
Tudo depende dos contextos. Se pode haver fuga para o leitor, também pode para o escritor. Mas no nosso caso parece-me que isso não tem acontecido, pois a realidade se tem imposto aos escritores com muito peso e portanto também aos leitores. Nem eles compreenderiam que os escritores se ocultassem atrás de estórias cor-de-rosa.

Em Mayombe, há uma preocupação evidente dos principais líderes na formação de quadros políticos para o período pós-revolução. Embora estejamos na convenção da ficcionalidade, o fato de José Eduardo dos Santos ser o presidente desde 1979 prova que o projeto falhou nesse sentido?

Houve de facto um esforço de formação das camadas jovens para um dia serem os quadros do país. Parece-me que o facto de o Presidente ser o mesmo durante longo tempo não tem a ver com a falta de gente capaz de assumir tão  grandes responsabilidades.

Também em Mayombe, Comissário e Sem Medo discutem a necessidade dos combates internos para a formulação de verdadeiros quadros políticos, sobretudo nos partidos de esquerda. O MPLA tem vivido isso, com os embates entre Ambrósio Lukoki e José Eduardo dos Santos. Isso demonstra evolução política? De que maneira a situação contribui para a democracia no país?
Esse embate que refere foi apenas um mais recente que foi divulgado pela midia. Haverá provavelmente outros. Não conheço nenhum país, ou instituição, por mais insignificante que seja, como por exemplo uma família, onde não haja choques e confrontos de ideias. Isso mesmo é que é preciso. Só a discussão faz avançar.

Pierre-Joseph Proudhon defende a descentralização do poder e a atuação conjunta da sociedade como forma de organização política. Houve a tentativa de seguir esse caminho em Angola pós 1975?

Houve uma concentração exagerada de poder, por muitos motivos, internos e externos, alguns alheios à vontade dos próprios governantes. Embora exista um discurso no sentido da descentralização e haja promessas de aproximar os cidadãos dos centros de tomada das decisões, na prática esse discurso não se efectiva.

 

Por que você acredita que a igualdade social e a liberdade individual se mostraram tão incompatíveis nesse século? Onde essas duas ideias se chocam no nosso modelo de sociedade?
Desde o século XIX pelo menos que existe esse debate. Talvez a resposta esteja na extraordinária perseverança do 1% da população mundial que empobrece os 99% restantes. E que os manda para guerras com o fim de tomarem juízo e não sonharem com igualdade de oportunidades. Até hoje, houve sociedades que deram passos no sentido de equilibrarem a igualdade com a liberdade individual. Mas depois recuam. Temos casos muito recentes no mundo, até mesmo naqueles países que consideramos os mais avançados em termos de direitos.

Você já disse que seu livro A Geração da Utopia não representava sua desilusão com o movimento, porque na verdade você nunca esteve iludido. Qual o espaço, não para a ilusão, mas para o sonho na atual sociedade angolana? Qual seria a utopia dessa geração?

O sonho seria sempre o mesmo. Sermos nós capazes de inventar a sociedade em que gostaríamos de viver. Que nos dessem o tempo da reflexão, para podermos decidir, em conjunto, que tipo de poder, que tipo de economia, que tipo de direito, poderíamos obter. Mas isso não é possível. Haverá sempre donos do mundo que nos distraem dessas conversas, com imperativos e urgências que não são mais que distracções para não vermos o fundamental.

 

O senhor tem acompanhado os conflitos na República Democrática do Congo? Assim como em Angola, durante a guerra civil, uma grave instabilidade política prejudica o governo de Joseph Kabila. A oposição o acusa de não convocar as eleições presidenciais, marcadas para este ano. A quem interessa essa situação em alguns países africanos?
Acompanho cada vez menos situações particulares, mas não deixo de ter uma opinião. Há sempre umas mãos ligadas a interesses não confessáveis que desviam os povos dos problemas realmente importantes.

No livro a jangada de pedra Saramago propõe a separação física da península ibérica com o resto da Europa, algo que já acontecia em termos políticos. Espanha e Portugal vagam pelo oceano atlântico em direcção a uma América e África com as quais guardariam mais história e semelhanças. Como você vê, hoje, a conexão entre Portugal, Angola e Brasil?

Não existe conexão. A CPLP é uma organização irrelevante. Existem apenas interesses, que podem coincidir numa altura e a seguir deixam de coincidir.
Compreendo a metáfora de Saramago, ele era um grande sonhador, o que digo como um elogio, pois só os grandes homens têm a capacidade do sonho. Mas é apenas isso, um sonho. Acha que os grandes do mundo deixam realmente que esses pequenos se aproximem assim tanto? Criam logo um muro! Em sentido metafórico, claro!
O ensaísta português Eduardo Lourenço diz que não há razão para não sonhar a sério uma comunidade lusófona. Mas alerta que sonhá-la a sério significa não ser o único sonhador e saber que os outros não a sonharão como nós. Como você acha que é esse sonho para Angola? Faz sentido falar em uma comunidade lusófona?
Eu recuso a palavra lusófono, nem sei o que isso é. Pode haver uma associação (dificilmente uma comunidade) de países com uma língua comum, isso seria útil para muita coisa, particularmente para os escritores. Mas se nem se consegue fazer os outros povos ler os livros feitos num dos países, como falar em comunidade? Nas comunidades não é preciso visto para ir visitar o outro, bate-se à porta e entra-se.

 

Em uma entrevista à Visão, em Portugal, o senhor criticou o processo de impeachment de Dilma Rousseff, associando-o ao ocorrido com Fernando Lugo, no Paraguai e Zelaya, em Honduras. De que maneira a instabilidade política brasileira afeta Angola?

A instabilidade brasileira já afectou Angola, onde várias obras importantes estão paradas porque dependiam de créditos brasileiros. E a situação vai certamente piorar, porque as medidas de austeridade num país dificultam o relacionamento com outros. Parece inevitável.
Em maio deste ano você demonstrou preocupação com Donald Trump. Bem, ele foi eleito. Você consegue vislumbrar as consequências disso para a África e América Latina?

Vai ser mau para todo o mundo, embora a alternativa não fosse nada brilhante. Na verdade, ele não será capaz de cumprir todas as ameaças que fez. Mas não há dúvida que conhece bem os eleitores americanos, por isso acertou no palpite mais que as sondagens…

Guilherme Henrique é jornalista


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