O que a conduta de Harvey Weinstein nos diz sobre a esquerda - Le Monde Diplomatique

DISCURSO PÚBLICO VS. VIDA PRIVADA

O que a conduta de Harvey Weinstein nos diz sobre a esquerda

Fevereiro 2, 2018
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Durante muito tempo, foi até mesmo considerado adversário inabalável do racismo, do sexismo e da censura. Deve-se a ele, por exemplo, uma grande quantidade de festas suntuosas destinadas a levantar fundos para a luta contra o HIV e a aids. Em 2004, ele havia manifestado seu apoio público a um grupo de mulheres batizado de “Mães que se opõem a Bush”

Até o escândalo Harvey Weinstein surgir na primeira página dos jornais, eu jamais tinha ouvido falar dessa figura. Sem dúvida, era o único jornalista dos Estados Unidos a dar prova de tamanha e total ignorância. Quem era, então, esse produtor de cinema acusado de ter agredido sexualmente um número incalculável de mulheres? Ao começar a me inteirar do assunto, descobri que não fazia muito tempo ele era famoso por outro motivo completamente diferente: sua íntima relação com o Partido Democrata e seu apoio generoso a uma série de personalidades e a diversas boas causas consideradas progressistas. Durante muito tempo, foi até mesmo considerado adversário inabalável do racismo, do sexismo e da censura. Deve-se a ele, por exemplo, uma grande quantidade de festas suntuosas destinadas a levantar fundos para a luta contra o HIV e a aids. Em 2004, ele havia manifestado seu apoio público a um grupo de mulheres batizado de “Mães que se opõem a Bush”.1 Na sequência do ataque terrorista contra o jornal francês Charlie Hebdo, ele brandiu bem alto a tocha da liberdade de expressão: “Ninguém jamais poderá destruir a capacidade que têm os grandes artistas de nos retratar nosso mundo”, proclamou em 11 de janeiro de 2015 nas páginas da revista Variety.
Foi também um apoiador incondicional de Barack Obama e Hillary Clinton. Ninguém encarnou melhor do que ele as ambiguidades dessa elite democrata representada pela Fundação Clinton. As festas de caridade que esta organizava garantiam a mesma função que as boas obras anteriores de Weinstein: a de uma câmara de compensação social na qual os novos participantes do belo mundo recebem seus títulos de nobreza – na França, outrora, isso era chamado de savonnette à vilain [literalmente, “sabonete para vilão”; trata-se do título de nobreza vendido a plebeus no Antigo Regime].
Participar de um evento da Fundação Clinton é novamente atingir o maior índice da bondade. Ali se encontra uma grande quantidade de celebridades, um leque de personagens glorificados por seu altruísmo e seu infalível valor moral e que, muitas vezes, têm um nome simples, como o cantor Bono e a jovem paquistanesa Malala, que ganhou o Prêmio Nobel. Personagens santificados, beatificados, com os quais o contato gera uma reciprocidade que permite aos grandes peixes do mundo dos negócios obter, com a ajuda de contribuições financeiras, um brevê de bom samaritano. No centro desse jogo de ilusionismo, os Clinton são os mestres de cerimônia. Têm um pé em cada campo: o das grandes almas virtuosas e o menos reluzente dos negócios lucrativos empresariais. Weinstein personificaria melhor do que ninguém essa Bolsa de Valores morais.
É ele o campeão da humanidade acusado de violências sexuais com uma frequência e gravidade inimagináveis. Eis que esse infatigável defensor da liberdade de imprensa se revela uma pessoa virtuosa na arte de manipular os jornalistas, com imunidade para molestá-los fisicamente quando eles insistem em fazer perguntas embaraçosas.2 Mas o produtor pop star de Hollywood soube também mostrar uma imagem afável, tecer uma rede de contatos que lhe devem obrigações, receber e recusar os que se encontram em ascensão.
Em 2012, ele comprou os direitos de exploração no território norte-americano do Serment de Tobrouk (“O juramento de Tobruque”), documentário dirigido por um ensaísta francês, Bernard-Henri Lévy, elegantemente vestido e obstinado em promover, no cenário internacional, a destruição em 2011 do regime de Muamar Kadafi – mais conhecida nos Estados Unidos como “guerra de Hillary” e da qual a Líbia, sete anos depois, ainda não se recuperou. A descrição que Weinstein faz disso ilustra o nível de afetação e de pedantismo que é possível alcançar em um só parágrafo: “Este filme maravilhoso mostra a coragem incrível de BHL [Bernard-Henri Lévy] e a força do ex-presidente Nicolas Sarkozy, revelando ao mesmo tempo a inestimável liderança do presidente Barack Obama e da secretária de Estado, Hillary Clinton. Ele permite ao público norte-americano mergulhar nos bastidores em que o governo de nosso país e o da França trabalharam juntos para cessar o massacre de civis inocentes e conseguiram brilhantemente abater um regime”. Isso lhe valeria a seguinte devolução de afeição de Bernard-Henri Lévy: “Tenho uma profunda estima por Harvey Weinstein. Além de seu êxito cinematográfico, ele é para mim antes de mais nada o homem que lançou a Amnesty International USA [Anistia Internacional Estados Unidos], lutou contra a pena de morte e um dos raros norte-americanos que conduziram a batalha contra os linchadores de [Roman] Polanski” – diretor de Chinatown e O bebê de Rosemary, acusado de agressões sexuais e de estupro de menores de idade (AFP, 18 maio 2012).


O progressismo de Weinstein se media mais em louros que em dólares. O prodígio de Hollywood tinha assento no conselho de administração de diversos órgãos sem fins lucrativos; os filmes de sua produtora, a Miramax, ganharam Oscars e Globos de Ouro copiosamente; na França, ele chegou a receber a Legião de Honra. Em junho de 2017, quatro meses antes de estourar o escândalo de suas agressões e manobras para silenciar as vítimas de sua tirania sexual, o clube da imprensa de Los Angeles o premiou ainda com o Truthteller Award, o prêmio do “contador de verdade”.
Uma impostura grosseira? É certo que sua consciência política não brilha nem por sua consistência nem por sua profundidade. Por exemplo, ele foi fortemente contra a candidatura de Bernie Sanders à primária democrata de 2016. Na noite da eleição presidencial de novembro de 2008, ele aplaudiu a vitória de Obama porque as “cotações na Bolsa de Valores [iam] subir em todo o mundo”. E seu humanismo se tinge às vezes de azinhavre. No dia 5 de novembro de 2012, por ocasião da estreia de Seal Team Six [no Brasil, O homem mais procurado do mundo], filme de exaltação ao comando norte-americano que matou Osama bin Laden, coproduzido por sua produtora, ele decidiu prestar uma homenagem inflamada a um dos artífices mais depreciados da Guerra do Iraque: “Colin Powell, o maior gênio militar de nossos tempos, apoia o presidente Obama. E os militares o adoram. Fiz esse filme. Conheço os militares. Eles respeitam esse homem pelo que ele fez. Ele matou mais terroristas em um breve exercício de sua função que George Bush em oito anos. É ele o verdadeiro falcão”.
No mundo de Weinstein, o engajamento político se coloca sob o patrocínio da indústria do luxo, em Martha’s Vineyard assim como nos Hamptons – dois lugares privilegiados do jet-set norte-americano –, para cerimônias de apoio a um candidato e para uma festa beneficente. Roger Ebert, influente crítico de cinema, assim relatou uma recepção que se deu em 2000, em Cannes, a favor da pesquisa contra a aids: “A venda privada nos leilões e o desfile de modas foram acompanhados de um jantar e de um leilão público dirigido pelo diretor da Miramax, Harvey Weinstein, que este ano não só leiloou uma massagem pela top model Heidi Klum, mas também convenceu [o ator Kenneth] Branagh e [o ator James] Caan a tirar a camisa e servir de cobaias para uma demonstração de seus talentos. A massagem foi arrematada por US$ 33 mil. ‘Karl Marx morreu’, observou o realizador James Gray”.3
Cada partido tem seus estratagemas; Donald Trump está lá para nos lembrar disso toda semana. Mesmo de acordo com essa regra, Harvey Weinstein se destaca. Raramente um homem que defendeu com tanta pompa as boas causas se dedicou com a mesma intensidade a desrespeitá-las. Como compreender que ele tenha conseguido se identificar com ideias de esquerda? Talvez pelo gosto do poder, para desfrutar da vibração de ter alguém como Bill Clinton entre os amigos. Ou então pelo desejo de absolvição moral, o mesmo que incita o Walmart, o Goldman Sachs ou a ExxonMobil a patrocinar obras de caridade. No mundo das grandes fortunas, o liberalismo funciona como máquina de lavar para tornar sua avidez mais apresentável. Não foi por acaso que, à guisa de primeira réplica desesperada às acusações acumuladas contra ele, Weinstein prometeu lutar contra a Associação Nacional de Rifles (NRA – National Rifle Association), poderoso grupo de pressão norte-americano dos amantes de armas de fogo, e financiar bolsas de estudos reservadas às mulheres (The New York Times, 5 out. 2017).
Com esse escândalo, sem dúvida trata-se também de algo mais profundo. Muita gente de esquerda se considera resistente à autoridade. Mas, aos olhos de algumas de suas lideranças, a esquerda moderna é um meio de justificar e exercitar um poder de classe – principalmente o da “classe criativa”, como alguns gostam de denominar a fina flor dos investidores de Wall Street, e dos empresários do Vale do Silício e de Hollywood. A idolatria da qual esses ícones do capitalismo são objeto resulta de uma doutrina política que permitiu aos democratas captar quase tanto dinheiro quanto seus rivais republicanos e se impor como representantes naturais dos bairros residenciais privilegiados.
Não há o menor motivo para nos espantarmos com o fato de essa esquerda neoliberal mundana atrair personagens como Weinstein, com sua prodigiosa capacidade de levantar fundos e sua reverência pelos “grandes artistas”. Nesses círculos em que se mistura estar com a consciência tranquila e ter um sentimento de superioridade social, e em que se cultiva a ficção de uma relação íntima entre classes populares e celebridades do showbiz, o cofundador da Miramax estava como um peixe na água.
São numerosos os frequentadores desse tipo de ambiente que, muito bem informados, se mostram agora escandalizados diante das baixezas de um dos seus. Sua cegueira é da mesma grandeza que a força de suas reações. Ultimamente, perambulam em um labirinto de espelhos morais deformantes derramando lágrimas de compaixão por suas próprias virtudes e elegância.

*Thomas Frank é jornalista e escritor. Autor de Pourquoi les riches votent à gauche [Por que os ricos votam na esquerda], Agone, Marselha, a ser publicado no próximo dia 17 de março.

 



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