O que muda com o despertar árabe - Le Monde Diplomatique

EM BUSCA DA SOBERANIA

O que muda com o despertar árabe

setembro 14, 2011
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Após um longo período de imobilismo, o mundo árabe saiu da letargia. Os movimentos de contestação, que não pouparam nenhum país, afetam também os equilíbrios regionais e internacionais. E incidirão no futuro do conflito Israel-Palestina

Este grande país muçulmano foi arrasado por greves e manifestações que duraram várias semanas. A crise econômica e social, os saques constantes do Estado perpetrados pela família do presidente e um autoritarismo sem limites abalaram esse pilar da política norte-americana na região. Apesar de tudo, Washington abandonou seu antigo aliado. A secretária de Estado pediu ao ditador que se demitisse, de maneira a “abrir caminho para uma transição democrática”.

Esses fatos não ocorreram no Egito em fevereiro de 2011, mas sim na Indonésia em maio de 1998. Foi Madeleine Albright quem deu aquela declaração, e não Hillary Clinton. O déspota Suharto, que ascendera ao poder com a ajuda da Agência Central de Inteligência (CIA) em 1965, após ter mandado massacrar meio milhão de comunistas, fossem eles militantes convictos ou supostos, teve de sair de cena. Com a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991), a Indonésia perdera seu lugar de posto avançado da luta contra o comunismo e, em Washington, os dirigentes preferiram incentivar um movimento de democratização e orientá-lo num sentido favorável aos interesses dos Estados Unidos. O presidente Bill Clinton estava querendo transmitir ao mundo uma imagem mais aberta de sua nação. Finalmente, a decisão revelou-se hábil, já que Jacarta manteve relações estreitas com Washington, embora a Indonésia, membro ativo da Organização da ConferênciaIslâmica(OCI), tivesse dado mostras de independência, por exemplo, em relação ao dossiênuclear iraniano.

Quais lições podem ser tiradas desse episódio? Em primeiro lugar, a de que nenhuma ditadura é eterna, mesmo quando assola o mais povoado dos países muçulmanos. Em segundo, embora as mudanças internas influam na política externa, a amplidão das evoluções varia em função dos contextos: o Egito não é a Indonésia; o Oriente Médio não é o Sudeste da Ásia.

Havia muito, nos corredores das chancelarias ocidentais, fazer escárnio da “rua árabe” era uma atitude que se tornara banal. Por que eles deveriam levar em conta aquilo que pensavam centenas de milhões de indivíduos dos quais nada poderiam esperar, a não ser, no melhor dos casos, slogans islâmicos ou antiocidentais, ao passo que eles se entendiam muito bem com dirigentes tão competentes na tarefa de impor uma ordem salutar em seu país? Por que deveriam se preocupar,que monarcas e presidentes recebiam nossos dirigentes e até mesmo nossos intelectuais com uma hospitalidade tipicamente oriental? E já que esses autocratas mantinham a ficção de um “processo de paz”, ao passo que a colonização israelense ia se estendendo?

 

Tomando o destino nas mãos

No espaço de algumas semanas, o mito da passividade dos povos árabes e de sua inaptidão para a democracia voou em estilhaços pelos ares. A revolta tunisiana e a egípcia, os movimentos que vêm abalando essa região, da Argélia ao Bahrein, passando pelo Iêmen e a Líbia, e que também atingem o Irãnãoárabe não dizem respeito apenas a escolhas entre modelosde sociedade e de desenvolvimento, mas também à política regional. Pela primeira vez desde os anos 1970, não se pode mais analisar a geopolítica sem levar em conta, ao menos parcialmente, as aspirações de povos e países que voltaram a ser donos de seu destino.

Esse é o caso, em primeiro lugar, do Egito. Embora seja cedo demais para adivinhar quais serão os contornos de sua futura política externa, todos os observadores admitem que a Casa Branca perdeu um aliado fiel, um amigo leal no qual, com Israel, se baseava sua estratégia regional havia 30 anos – o Egito participou, entre outras, da guerra contra o Iraque (1990-1991). Nos últimos anos, Hosni Mubarak havia tomado a frente da cruzada contra a “ameaça iraniana”; ele havia conseguido alimentar a ilusão de um “processo de paz”, exercendo pressãosobre a Autoridade Palestina para que ela seguisse participando nas negociações, recebendo regularmente em Charm el-Cheikh dirigentes israelenses que nãopareciam estar interessados em acordo de paz nenhum; ele havia integrado o bloqueio a Gaza e contribuídopara o fracasso de todas as tentativas de reconciliação entre o Hamas e o Fatah, até mesmo aquela negociada por outro país “moderado”, a ArábiaSaudita (acordos de Meca, maio de 2007). Durante a insurreição atual, alguns manifestantes erguiam cartazes redigidos em hebraico, afirmando que essa era a única língua que Mubarak compreendia.

O Conselho Supremo das forças armadas egípcias, que assume por enquanto o poder efetivo no Cairo, fez questão de tranquilizar Washington e Tel-Aviv, confirmando que o país respeitaria seus compromissos internacionais – uma referênciaaos acordos de Camp David (1978) e à paz entre Israel e Egito assinada em 1979. Contudo, embora seja pouco provável que o povo egípcio reclame o retorno ao estado de guerra, ele nãoconsidera esses textos como um fator de paz e de estabilidade regionais – ao contrário.

Toda vez que essa possibilidade lhe foi oferecida, o povo egípcio manifestou sua solidariedade para com a Palestina e o Líbano. Durante a guerra de 2006, retratos de Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, cobriam as paredes das lojas no Cairo, enquanto no mesmo momento o regime condenava o caráter “aventureiro” da organização. Os manifestantes que lutaram para impor o pluralismo e a democracia não têm qualquer simpatia declarada com o Irã, um país nãoárabe e xiita, considerado historicamente como rival, cuja orientação repressora vem se confirmando um pouco mais a cada dia. Em contrapartida, eles gostam de sua recusa a se dobrar aos comandos dos Estados Unidos e de Israel.

Em breve, um novo governo egípcio deverálevar sua opinião em consideração, tanto na maneira de lidar com a Faixa de Gaza quanto em suas relações com Israel, e na certa adotará uma políticamais reservada em relação às tentativas norte-americanas de criar uma frente comum (nãoproclamada) dos países árabes e de Israel contra Teerã.

A margem de manobra do Cairo também dependeráde seu alicerce econômico, abalado por anos de “liberalização”. O país permanece dependente da ajuda militar e alimentícia dos Estados Unidos, e das contribuições dos fundos da União Europeia, as quais se destinam a compensar a fragilidade de sua economia. Alguns evocam a possibilidade de as autoridades egípcias adotarem uma política externa independente, similar àquela da Turquia; mas a margem de manobra de Ancara se baseia no dinamismo de sua economia e num Produto Interno Bruto (PIB) três vezes superior ao do Egito.

As mudanças no Cairo causaram preocupaçãonos outros paísesárabes apresentados como “moderados” e, em primeiro lugar, na ArábiaSaudita, cuja principal autoridade, o rei Abdala, interveio junto ao presidente Barack Obama em favor de Mubarak. Um temor assombra esses dirigentes: o do declínionorte-americano na região. Ainda que os Estados Unidos tenham demonstrado capacidade de consolidar uma ampla frente contra o programa nuclear iraniano e impor sanções, nada disso apagou seu fracassono Iraque nem a situação crítica em que estão atolados no Afeganistão e sua incapacidade em obter do governo israelense a suspensão da colonização.

A demissãodo governo libanês de Saad Hariri, em janeiro de 2011, e o abandono de Mubarak à sua própria sorte agravaram os temores dos “moderados” árabes, apavorados com a extensãodo movimento em favor da democratização, do Iêmen à Jordânia. A própria juventude do Golfo andou se mostrando receptiva aos acontecimentos na Tunísiae no Egito.

Em alerta pouco velado às autoridades, o jornal saudita Al-Watan(16 de fevereiro) proclamava a necessidade de levar em conta as aspirações da juventude que “se interessa pelos planos de desenvolvimento, por sua aplicação, pela rapidez com que são executados, pela avaliação de sua eficácia, dos custos e das informações sobre os beneficiários e os prejudicados por esses projetos” – uma alusão à corrupção que gangrena o regime político do reinado.

Esta é, sem dúvida, uma das razões para a intervenção dos países do Golfo no Bahrein: com o argumento de combater a ingerência iraniana, as tropas foram enviadas para reprimir o movimento pela reforma democrática. Desde então, uma violenta repressão se abateu sobre a oposição, acompanhada de propaganda antixiita, anti-iraniana e anti-iraquiana que pode agravar as tensões religiosas entre sunitas e xiitas em toda a região – uma estratégia para desviar a atenção das revoluções democráticas e distorcer seus objetivos.

 

O futuro da Palestina

Quanto à Autoridade Palestina (AP), ela perde com Mubarak um aliado fiel, hostil à reconciliação com o Hamas, que oferecia uma garantia para sua política de negociaçãocom Israel. Ela terá de levar em conta essa nova situação. Em meados de fevereiro, durante a discussão de uma resoluçãodo Conselho de Segurança da ONU que a AP havia apresentado condenando a colonização israelense, Barack Obama contatou Mahmoud Abbas para pedir-lhe que retirasse o texto. Apesar da forte pressãodo presidente norte-americano, o presidente da AP recusou-se a atender ao pedido, marcando um endurecimento de sua estratégia para com o “grande irmão” norte-americano. Será que o impasse levará a juventude da Cisjordânia– assim como a de Gaza, aliás – a manifestar suas aspirações auma maior liberdade e a mais dignidade? A inscrever sua luta no quadro da defesa dos direitos humanos e da igualdade? A ocupar as ruas pacificamente, ao mesmo tempo contra seus dirigentes e contra a ocupação? Conforme noticiou o Jerusalem Post,1 o exército israelense está se preparando com temor para essa eventualidade, criando uma forçade reação rápida.

Ainda mais preocupado que os aliados árabes de Washington, o governo de Benjamin Netanyahu declarou seu apoio inabalável a Hosni Mubarak. Segundo comenta Daniel Levy, membro influente do think tankNew America Foundation, essa atitude projeta uma luz diferente e peculiar sobre a referência constante de Tel-Aviv ao fato de que Israel seria “a únicademocracia no Oriente Médio”: essa frase não expressa o temor de estar isolado, cercado por ditaduras, mas sim, ao contrário, um desejo de permanecer “‘sozinho’ nessa condição”.2

Em Tel-Aviv, os dirigentes – preocupados com o sentimento de solidariedade dos povos árabes com os palestinos – sempre se acomodaram melhor aos regimes autoritários pró-Ocidente.

Por enquanto, o governo israelense parecemestar paralisado pelo medo diante das mudanças que estão ocorrendo; exagera deliberadamente o papel dos islâmicos;tenta apontar paralelos com a revolução islâmica de 1979 em Teerã, multiplicando as bravatas a respeito da “ameaça iraniana” que o mundo nãoestaria compreendendo, ou anunciando aos soldados, como fez o ministro da Defesa, Ehoud Barak, por ocasião de uma visita na frente norte, que eles poderiam ser chamados a invadir novamente o Líbano.3

Se “o Ocidente perdeu”, será o caso de afirmar que o eixo Damasco-Teerã e seus aliados do Hamas e do Hezbollah levaram vantagem com isso? Sem dúvida, mas seus pontos fracos sãopatentes.

A extensão das manifestações na Síria mostra que esse país compartilha os mesmos problemas com os vizinhos: grande aumento demográfico, criação de programas liberais cujas consequências sociais são nefastas, aspirações à liberdade, principalmente entre os jovens. Os dois trunfos do regime – o temor de que os levantes gerem confrontos religiosos e a posição de resistência contra Israel – não são mais eficazes. Se até agora o Irã resistiu à onda atual, é pouco provável que seja tomado como modelo para os povos em luta por mais liberdade. O Hamas, isolado em Gaza, não tem perspectivas e está enfraquecido pelo aumento das tensões entre xiitas e sunitas; por outro lado, o Hezbollah de Hassan Nasrallah perderá força com a provável condenação de seus dirigentes no Tribunal Especial pelo Líbano.4

Evocamos na introdução a Indonésia e a maneira pela qual Washington havia sido capaz de adaptar-se à queda da ditadura. A principal diferençacom o Oriente Médio de hoje diz respeito à Palestina, a qual muitos observadores creem, equivocadamente, que se tornou secundária para os manifestantes. No Cairo, os organizadores baniram deliberadamente todo slogan antinorte-americano e anti-israelense, tendo decidido concentrar-se num só adversário: o regime − vontade que foi entendida por todos. Mas após a queda de Mubarak, quando da gigantesca celebraçãoda vitóriano Cairo em 18 de fevereiro, os manifestantes retomaram maciçamente os slogans sobre a libertação de Jerusalém.

 

Estados Unidos e União Europeia

Ao longo de décadas, os Estados Unidos apoiaram Israel de maneira quase incondicional, sem pagar qualquer preço por isso – a não ser o da impopularidade, o que não tinha nenhuma importância para eles –, já que os dirigentes árabes permaneciam seus aliados fiéis. Esse períodoestá chegando ao fim. Já tivemos a oportunidade de ouvir, em março de2010, o general David Petraeus, então chefe do comando central das forças norte-americanas no Oriente Médio (Centcom), afirmar: “A cóleraárabe em relação àquestão palestina limita a força e a profundidade de nossas relações com os governos e os povos dessa região e enfraquece a legitimidade dos regimes moderados no mundo árabe”.5 O novo contexto geopolítico vai forçar a administração norte-americana a fazer escolhas cruciais. Mas será que ela vai querer fazê-las? Terá capacidade para tanto?

Essas indagações também podem ser dirigidas à União Europeia, igualmente comprometida por sua colaboração, sem qualquer atrito, com Ben Ali e Mubarak. Incapaz de assumir uma atitude de desconfiança em relação aos ditadores, propensa a multiplicar os acordos com um governo israelense hostil àpaz, promotora de uma política neoliberal que contribuiu para a pobreza e a corrupção maciça dos países do Sul do Mediterrâneo, será ela enfim capaz de levar em conta os povos árabes que, por milagre, não são compostos de barbudos fanáticos e mulheres trajando burca? Ou talvez seja necessário, conforme sugere o intelectual libanês Georges Corm, que a sociedade civil do Norte se espelhe no exemplo árabe, “que ela eleve o nível da contestação contra a perigosíssima oligarquia neoliberal que vem empobrecendo as economias europeias, que não cria, no continente, oportunidades de empregos em quantidade suficiente e deixa anualmente em situação precária um número sempre maior de europeus de todas as nacionalidades. Por sua vez, essa evolução negativa realizou-se em benefício da pequena camada de managerscujas remuneraçõesanuais vêm absorvendo cada vez mais a riqueza nacional”.6

No espaço de alguns anos, o mundo tornou-se policêntrico. Cada grande país, do Brasil à China, da Índia à África do Sul, busca ocupar seu lugar, não contra o Ocidente nem a seu serviço, mas sim ao lado, interessado em defender seus próprios interesses. Assim, a Turquia, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte(Otan), aliada dos Estados Unidos, vem desempenhando um papel regional crescente, dando mostras de independência tanto em relaçãoao dossiênuclear iraniano quanto à Palestina.7 O Magreb8 e o Oriente Médio buscam integrar essa movimentação. “O que os povos da região estão pedindo”, analisa Graham Fuller, antigo profissional da CIA e autor do livro The future of political islam, “é poder controlar sua vida e seu destino. […] Em curto prazo, isso pressupõeuma medicação severa: Washington deve se distanciar deles e deixar as sociedades resolverem seus assuntos por conta própria, o que implica pôr fim àantiga política de infantilização dos povos do Oriente Médio […] com base numa visãomíope dos ‘interesses norte-americanos’”.9

“Nem o Leste nem o Oeste”, gritavam os manifestantes iranianos em 1979, afirmando sua vontade de confrontar tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética. “Nem com o Ocidente nem contra ele”, poderiam gritar os manifestantes de hoje pelo mundo árabe afora, afirmando uma vontade de independência e soberania num mundo que eles sabem ser multipolar. Eles julgarão o Ocidente por sua capacidade de defender os princípiosda justiçae do direito internacional em todo lugar no mundo, e principalmente na Palestina. Mas eles não mais aceitarão que seu governo se valha da luta contra o Ocidente para impor a ditadura.



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