MÉXICO

O riso de Pancho Villa

Os EUA apreciam pouco as revoltas populares. Quando os mexicanos começaram a impor uma transformação social e democrática, Washington não tardou a intervir. Ocupação de Veracruz, incursão no norte, apoio aos contrarrevolucionários: para denunciar essa interferência, Carlos Fuentes utiliza a literatura
por: Silvio Caccia Bava
27 de setembro de 2011
Crédito da Imagem: Sandra Heidt / Interfoto / Latinstock

Pancho Villa fez sua entrada em Camargo numa manhã de primavera, com a cabeça cor de cobre oxidado coberta por um grande sombreiro bordado a ouro; não um objeto de luxo, mas um instrumento de poder, símbolo de combate, um chapéu sujo de poeira e sangue, assim como suas grandes mãos calejadas e seus estribos de bronze açoitados pelo vento da montanha: a pátina de pó, espinhos e pedra, vestígios dos caminhos íngremes e vastas planícies, colava em seu traje bege de cavaleiro, nas perneiras de camurça, na vara de aço, nas pomposas esporas, no colete e na calça enfeitados com botões de ouro e prata; todo brilhante de ouro e prata, porém carregando esses metais não como bens entesouráveis, mas como paramentos vestidos para a guerra e para a morte: um traje de luz.

Era um homem do Norte, grande e robusto, com um torso mais longo que as curtas pernas de índio, mas dotado de longos braços e mãos potentes, com aquela cabeça que parecia ter sido há muito tempo enxertada no corpo de outro homem; há muito tempo e em algum lugar muito longe, uma cabeça decepada, uma cabeça do passado, presa como um capacete de metal precioso em um corpo mortal, útil e inútil, do presente. Olhos orientais, sorridentes e cruéis, rodeados por uma rede de rugas divertidas, sorriso fácil, dentes reluzentes como grãos de um milho muito branco, bigode raspado e barba de três dias: uma cabeça que tinha passado pela Mongólia, Andaluzia e Rif, entre as tribos da América do Norte e agora aqui, em Camargo, em Chiuaua, uma cabeça sorridente, cujas pálpebras batiam espremendo os olhos sob a ofensiva da luz, com vastas reservas de intuição, ferocidade e generosidade. A cabeça tinha vindo descansar nos ombros de Pancho Villa.

Os proprietários de terras fugiram e os usurários se esconderam. Villa ria enquanto passeava seu cavalo castanho pelas ruas pavimentadas de Camargo, onde sua coluna central da divisão do Norte ia juntar-se às dos outros generais antes do ataque a Zacatecas, entreposto comercial das haciendasdevastadas, que ele saqueou para libertar o povo da escravidão, da usura e dos bancos postais. Ele entrou na cidade com os cascos batendo no calçamento, arrastando atrás de si um cortejo de sons metálicos que contrastava estranhamente com o som oco das ruas de pedra: ruído dos freios de ferro, das correntes, cabrestos e freios de cobre; estalo dos chicotes na crina dos cavalos, das esporas e açoites.

A aldeia toda estava lá, jogando confetes do alto dos balcões de ferro fundido, serpentinas dos postes de iluminação, temperando o choque do metal e da pedra pelo rio de rosa, azul e vermelho das festas mexicanas, transbordando tigelas de vidro com bebidas refrescantes, fatias de doces coloridos e grandes potes borbulhantes de molho preto, vermelho e verde.

Também estavam presentes repórteres, jornalistas e fotógrafos norte-americanos, munidos de uma invenção recente, a câmera de filmagem. Pancho Villa estava completamente seduzido, não precisava ser convencido, ele compreendeu que aquele novo aparelho era capaz de capturar o fantasma de seu corpo – mas não a carne de sua alma, que pertencia somente a ele, a sua falecida mãe e à revolução; seu corpo em movimento, generoso e dominador, seu corpo de pantera, isso poderia ser capturado e liberado numa sala escura, como um Lázaro surgido não dos mortos, mas de um tempo e de um lugar longínquos, num cômodo negro sobre uma parede branca em qualquer parte, Nova York ou Paris. A Walsh,[i]o norte-americano que segurava a câmera, ele prometeu:

– Não se preocupe, don Raul. Se você acha que a luz das quatro da manhã não é boa para a sua maquineta, não tem problema. As execuções serão às seis horas. Mas não mais tarde. Depois temos de partir para a luta. Assim fica bom para você?

Então os jornalistas yankees reunidos em Camargo atacaram-no com perguntas, antes mesmo de ele atacar Zacatecas para decidir o destino da revolução contra Huerta e, a partir daí, o destino da política do presidente Wilson em relação ao México.

– O senhor espera ser reconhecido pelo governo dos Estados Unidos, se ganhar?

– Esse problema nem se coloca. Estou sob as ordens de Carranza, primeiro chefe da revolução.

– Todo mundo sabe que você e Carranza não se entendem, meu general.

– Todo mundo quem? Você? Bem, explique isso, por favor.

– Nós interceptamos um telegrama que o general Maclovio Herrera enviou a Carranza depois que ele lhe negou o direito de lançar-se contra Zacatecas, general Villa. O texto é lacônico. Diz simplesmente: “Você é um filho da puta”.

– Ah, escute, camarada, eu não sei pronunciar esse tipo de palavra em espanhol. Elas só me vêm em inglês, juro: “You son of a bitch”. De qualquer modo, Carranza ordenou que os irmãos Arrieta tomassem Zacatecas.

– Mas você está aqui com toda uma divisão, artilharia e 10 mil homens…

– A serviço da revolução, senhores. Se os irmãos Arrieta ficarem pregados em Zacatecas, como de hábito, chego em cinco dias para dar-lhes uma mão. É isso.

– Finalmente, general Villa, o que você pensa da ocupação norte-americana de Veracruz?

– Depois de dois dias, tanto a visita como o cadáver começam a cheirar mal.

– O senhor poderia ser um pouco mais explícito, meu general?

– Os marines chegaram a Veracruz bombardeando a cidade e assassinando jovens cadetes mexicanos. Em vez de derrubar Huerta, fortaleceram-no, suscitando o fervor nacionalista do povo. Eles dividiram a consciência revolucionária e permitiram que esse bêbado do Huerta decretasse a infame mobilização geral. Jovens que acreditavam estar indo lutar contra os gringos em Veracruz foram enviados para lutar contra minhas tropas em Coahuila. Não sei se é isso que você está procurando, mas o que eu entendo é que quando os gringos querem ser espertos, são idiotas.

– É verdade que você matou com um tiro nas costas um oficial norte-americano, capitão do exército dos Estados Unidos, assassinado a sangue frio por um de seus homens, meu general?

– Quem diabos…?

– As autoridades norte-americanas consideram o senhor nada menos que um bandido, general Villa. A opinião pública está se perguntando se o senhor é capaz de oferecer garantias sobre a situação no México. O senhor respeita a vida humana? É capaz de tratar com as nações civilizadas?

– Quem diabos te contou isso?

– Uma moça chamada Harriet Winslow, que mora na cidade de Washington. Ela afirma ter presenciado o evento. Seu pai foi dado como desaparecido após a guerra em Cuba. Parece que, na verdade, ele estava apenas tentando escapar da família, mas depois quis ver a filha antes de morrer. Foi para encontrá-lo que ela veio ao México. Estão acusando um general de seu exército, meu general. Como você disse que ele se chama, Art?

– Arroyo, general Tomas Arroyo. Ela disse que o viu atirar em seu pai até ele cair morto.

– Com todo o respeito, meu general, gostaríamos de lembrar que o corpo dos cidadãos norte-americanos mortos no México, como em qualquer outra parte do mundo, deve ser devolvido às famílias a fim de receber um funeral cristão, de acordo com nossos costumes.

– É o que diz a lei? – rosnou Pancho Villa.

– Exatamente, meu general.

– Mostre onde está escrito.

– Muitas de nossas leis não são escritas, general Villa.

– Uma lei que não está no papel? Então para que aprender a ler? – retrucou Villa com um sorriso de desprezo espantado; depois começou a rir e todos riram com ele, afastando-se para deixar passar o homem que representava a revolução e se preparava para provar ao mundo que não era Carranza, o velho senador perfumado que pertencia à casta da chamada gente respeitável do México, que merecia esse tipo de representação, mas ele, Pancho Villa, que simbolizava o que Carranza mais odiava, um camponês, um pé-descalço analfabeto, bebedor de pulque e comedor de tacos, um nativo das inquietas colinas de Durango, chicoteado pelos mesmos fazendeiros que violaram suas irmãs.

– Não! – declarou ele rindo para seu distinto general de artilharia Felipe Angeles, graduado da academia militar francesa de Saint-Cyr. Eu não digo isto para você, don Felipe, mas para eles, venha vê-los: para esses gringos nós não existimos, e então um belo dia eles percebem que estamos aqui, e então ay nanita, somos o diabo em pessoa que irá arrancar sua vida e seus bens; e por que não dar um belo susto neles? – disse Pancho Villa, sorrindo. Por que não os invadimos, só para mostrar como é?

Então ele foi de repente tomado de uma cólera terrível por causa daqueles que não compreendiam nada da situação. (…)

O general Tomas Arroyo recebeu ordem para encontrar o gringo onde quer que ele estivesse e trazê-lo para Camargo. Não, haviam deliberadamente mentido a ele, nenhuma família tinha reclamado o corpo, apenas um jornal, o Washington Star, foi o que disseram. Mas quando essa ordem finalmente arrancou a brigada volante da hacienda calcinada dos Miranda, Arroyo sabia perfeitamente o nome da pessoa que reclamava o corpo. Ele a vira em seus sonhos, embalando a cabeça morta do velho em suas mãos e olhando-o na saída do vagão como se ele tivesse matado algo que pertencia a ela, mas a ele também, e agora eles estavam novamente sozinhos, cada um de seu lado, órfãos, olhando-se com ódio, na impossibilidade de se alimentarem um ao outro por meio de um ser vivo e preencher assim o vazio angustiante que ela experimentava nela, assim como o que ele experimentava nele: “Olhe o que você tem nas mãos. Olhe o que você tem nas suas mãos”.

Arroyo não poderia formular outra coisa. Ele contemplou os pedaços de papel queimado e Arroyo declarou que o gringo tinha queimado a alma, e ela reconheceu que ele tinha queimado mais que isso: a história do México – mas que isso não desculpava o crime, pois a vida de um ser humano é mais preciosa que a história de um país, e Harriet Winslow teve a certeza que, apesar disso, todo o deserto de Chiuaua gritava com ela:

– Assassino, porco imundo, covarde abominável, você conseguiu o que queria de mim, mas isso não o impediu de matá-lo.

– Ele veio me provocar, assim como você. Vocês dois vieram aqui para me provocar. Gringos filhos de uma puta! (…)

Tomas Arroyo não entendia mais nada. Ele tinha matado o velho gringo. Ele não podia conceber que ainda houvesse em Harriet Winslow energia para lutar: ela deve sentir-se tão vazia quanto ele, o velho gringo e os papéis queimados.

– Eu aceitei tudo de vocês, gringos. Tudo, menos isso – disse Arroyo mostrando os documentos destruídos.

– Não se preocupe – respondeu Harriet Winslow com o que ainda lhe restava de humor e piedade. Ele já era dado como morto.

Mas, naquele dia, Arroyo tinha vontade de queimar sua própria alma:

– O que é a vida de um velho diante do direito de todo o meu povo?

– Eu acabei de lhe dizer que você matou um morto. Fique contente. Você economizou uma execução oficial.

Era isso que exigia agora Pancho Villa de Tomas Arroyo quando viu o corpo crivado de balas do velho e segurou sua famosa cólera, aquela com a qual dominava tão bem seus homens e seus inimigos, o homem Pancho Villa tocou as costas do velho gringo e lembrou o que lhe havia dito um dos repórteres yankees durante a entrevista em Camargo.

– Tenho um ditado para você, general Villa. O que vocês chamam de morte é apenas o sofrimento final.

– Quem disse isso?

– É uma frase escrita por um velho ranzinza.

– Ah, então foi escrito.

– Sim, por um velho ranzinza.

– Então…

Villa ordenou a execução para a mesma noite, à meia-noite. Ele alertou que tudo deveria se passar no maior segredo; ninguém deveria saber o que estava acontecendo, além dele, Villa, o general Arroyo e o pelotão.

– Que mister Walsh e sua maquineta vão para outro lugar, isso não é da sua conta.

Então arrumaram, não sem dificuldade, o velho contra a parede, de frente para os fuzis, com a cabeça pendendo sobre o peito, o rosto já desfigurado pelos ácidos de seu primeiro enterro no deserto, as pernas dobradas.

A ordem foi dada do pátio, atrás do quartel-general de Pancho Villa, iluminado por lanternas colocadas no chão, que produziam sombras estranhas no rosto. Os tiros foram disparados, e o velho caiu pela segunda vez nos braços de sua velha amiga morte.

– Bem, agora ele foi fuzilado de frente e conforme a lei – declarou Pancho Villa.

– O que fazemos com o corpo, meu general? – perguntou o líder do pelotão de execução.

– Vamos enviá-lo aos que o reclamam nos Estados Unidos. Diremos que ele foi morto após ser capturado em combate com os federais.

Villa declarou, sem olhar para Arroyo, que não queria ficar à mercê de cadáveres de gringos que poderiam servir de pretexto para Wilson reconhecer Carranza e atacar Villa pelo Norte.

– Não vamos deixar de derrubar uns gringozinhos – disse Villa com um sorriso feroz –, mas no momento certo e quando eu decidir.

Ele se virou para Arroyo sem mudar de expressão.

– Um homem corajoso, não é? Um gringo corajoso. Contaram-me suas façanhas. Executado de frente, não pelas costas como covarde que ele não era, não é, Tomas Arroyo?

– Realmente, meu general. O gringo foi o mais corajoso de todos.

– Vá, Tomasito, dê-lhe o golpe de misericórdia. Você sabe que o considero como um filho. Faça a coisa corretamente. Tudo deve ser feito corretamente e conforme a lei. Dessa vez eu não quero mal-entendidos. É preciso estar preparado para qualquer eventualidade. Tenho a impressão que você descansou bastante nessa hacienda onde fez tanta coisa e conseguiu até ficar famoso.

– Arroyo – disse o jornalista yankee –, ele se chama Arroyo.

– Sim, meu general – respondeu simplesmente Arroyo.

Ele se dirigiu até o cadáver do velho caído ao pé do muro, inclinou-se e puxou o colt. Deu o golpe de misericórdia com grande precisão. Mas não saiu sangue da ferida. Foi então que Pancho Villa deu ordem de atirar em Arroyo, cujo rosto se tornou a imagem da própria incredulidade dolorosa. No entanto, ele ainda conseguiu gritar: “Viva Pancho Villa!”.

Arroyo caiu ao lado do velho gringo, e Villa declarou que não toleraria que seus oficiais brincassem com cidadãos estrangeiros, criando-lhe problemas inúteis; quanto a derrubar yankees, somente Pancho Villa sabia quando e por quê.



[1]Carlos Fuentes refere-se ao cineasta norte-americano Raoul Walsh, que dirigiu, entre outros: O ladrão de Bagdá (1924), Fúria sanguinária (1949), The naked and the dead (1958) e Um clarim ao longe (1964). Em 1915 fez um filme sobre Pancho Villa no México, Life of Villa, seguindo as campanhas do general revolucionário. Walsh descreveu as peripécias dessa filmagem no livro Meio século em Hollywood, sobretudo no capítulo intitulado “Viva Villa!”. (N. do E.)



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