Onda conservadora - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Onda conservadora

outubro 3, 2016
compartilhar
visualização

Silvio Caccia Bava

Como se forma o pensamento conservador? Como ele ganha mais adeptos na sociedade? Como ele pode vir a conformar maiorias?

Essa discussão remete à questão da imposição de uma visão de mundo que é de uma parte da sociedade como sendo a visão de toda a sociedade. Estamos no campo da produção da ideologia e da disputa pela hegemonia. Não é pela força, mas pelo convencimento que a maioria da sociedade adota uma visão de mundo, valores, um projeto de sociedade, uma forma determinada de convivência social.

Se a mobilização social pela redemocratização do país trouxe com a Constituição de 1988 um paradigma democrático e de respeito aos direitos humanos, a onda conservadora que se formou nos últimos anos traz a proposta de uma sociedade em que predomina o interesse das grandes empresas sobre o dos cidadãos, do privado sobre o público, do individualismo sobre os interesses coletivos, da competição sobre a solidariedade, da intolerância sobre a valorização da diversidade, da busca pela eliminação do adversário transformando-o em inimigo.

Assistimos ainda surpresos a manifestações cada vez mais frequentes de intolerância com aqueles que pensam de modo diverso ou têm outros valores. São expressão de uma direita que se viu estimulada por uma campanha sistemática feita pela mídia, especialmente pela televisão aberta, e por organizações da sociedade civil, como a Fiesp, e “saiu do armário”. Essas manifestações passam a hostilizar aqueles identificados como seus inimigos, sejam eles um partido político, uma religião afro, homossexuais, jovens negros da periferia ou meninos de rua. Guido Mantega, Chico Buarque, Leticia Sabatella, entre muitos outros, recentemente sofreram agressões gratuitas que expressam essa polarização social e política em nossa sociedade.

Certamente a mídia teve um papel muito importante nesse processo, mas seria ingenuidade supor que ela seja a única responsável por essa maré conservadora. A construção da hegemonia se dá no âmbito da sociedade civil, e é aí que devemos procurar suas raízes.

Não é de repente que boa parte da população se convence e assume uma narrativa em que se posiciona contra o aborto, pela redução da maioridade penal, criminaliza o consumo de drogas, reafirma as discriminações contra a mulher, os homossexuais, os negros, dá seu consentimento silencioso ao extermínio da juventude negra da periferia dos grandes centros urbanos.

Entre os fatores importantes que precisam ser levados em conta para compreender a formação desse pensamento conservador está o crescimento das Igrejas evangélicas, que nos anos 1970 atraíam 5,2% da população brasileira e, pelo Censo de 2010, passaram a reunir 22,2%. Esse crescimento se deveu principalmente às Igrejas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), fundada em 1977. Hoje os evangélicos são mais de 42 milhões de brasileiros e brasileiras, e as projeções indicam que em 2030 eles serão tantos quanto os católicos.

Numa sociedade marcada por profundas e históricas desigualdades, que se urbanizou muito rapidamente e hoje concentra mais de 85% de sua população nas cidades, sobretudo em grandes centros urbanos, as Igrejas pentecostais focaram sua atenção no que a imprensa convencionou chamar de “nova classe média”, ou seja, em 54% da população, um segmento que compreende as famílias com renda entre R$ 1.200 e R$ 5.174.

A vida dessas famílias está marcada pelos problemas de moradia inadequada, precariedade dos serviços públicos, violência cotidiana e desagregação dos laços familiares. É nas periferias das grandes cidades que essa população vive, e é aí que se concentra o crescimento do neopentecostalismo. O perfil de seus fiéis mostra que na verdade não se trata de uma classe média: 63,7% não ganham mais que um salário mínimo; 8,6% são analfabetos; 42,3% têm ensino fundamental incompleto.1

É na igreja que essas pessoas vão encontrar apoio, proteção, um espaço de convívio e de pertencimento. Os pastores evangélicos procuram enfrentar os problemas concretos de seus fiéis com propostas de solução imediatas, e sua Teologia da Prosperidade afirma que a superação das dificuldades é a comprovação da fé em Deus. Não é casual que seu crescimento recente coincida com a fase de aumento de renda desse segmento social nos últimos anos.

Entre os novos fiéis estão milhares de jovens convertidos que se afastam do narcotráfico e passam a frequentar o culto, deixam de beber e se drogar, resgatam sua dignidade, assumem um novo papel de trabalhador honesto, encontram aí um espaço de valorização pessoal, de convivência, de celebração. Nesse sentido, encontram na igreja uma alternativa, um novo projeto de vida.

E é nesses templos que acolhem seus fiéis que os pastores fazem sua pregação de valores e, mais recentemente, também sua pregação política. É aí que recolhem o dízimo e amealham fortunas, como Edir Macedo, fundador da Iurd e presente na lista dos bilionários publicada pela revista internacional Forbes.

O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, prega contra os candidatos que defendem princípios “não cristãos”, como liberalização do aborto, casamento entre homossexuais, descriminalização das drogas etc., e combate abertamente candidatos do Psol e do PT.2

A teoria pentecostal diz que cabe à Igreja salvar as pessoas do mal e se pôr em luta contra Satanás e o pecado. Se nos anos 1950-1970 essas Igrejas evangélicas procuravam a cura divina, a partir dos anos 1980 o que predomina nesses cultos são os rituais de exorcismo. É uma guerra contra o mal e contra o diabo, na qual os fiéis são soldados. A intolerância manifesta para com as religiões afro-brasileiras bebe dessa ideologia, pois identifica nelas Satanás e o pecado.

Segundo o reverendo Carlos Eduardo Calvani, da Igreja Anglicana no Brasil, o movimento evangélico é um dos maiores perigos para a sociedade brasileira. Seu fundamentalismo elabora discursos para enganar analfabetos funcionais e levá-los a cometer barbaridades em nome da fé. Calvani acredita que os evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira.3

O crescimento dessas Igrejas neopentecostais as coloca como uma das mais importantes instituições que tratam do cotidiano dos moradores das periferias. Na década passada, os evangélicos, especialmente as Igrejas neopentecostais, conquistaram 16 milhões de novos fiéis. A Assembleia de Deus é a maior, com 12,3 milhões de fiéis. A Congregação Cristã do Brasil é a segunda, com 2,2 milhões de fiéis. A Igreja Universal do Reino de Deus é a terceira, com 1,9 milhão de fiéis.

Esse crescimento se explica pela retração da Igreja Católica, que nos anos 1970 e 1980 organizava a sociedade em comunidades eclesiais de base, mas também pela impotência da sociedade em resolver seus problemas pela via social, política e econômica. Apela-se ao sobrenatural para a solução dos problemas da vida.4

A ideia de que os evangélicos pentecostais têm um projeto de poder não é descabida. A disputa por corações e mentes na sociedade para converter a população para suas crenças e valores e afirmar sua hegemonia na sociedade parece nortear sua atuação no plano da comunicação e junto às instituições políticas.

As Igrejas evangélicas controlam 25% das rádios FM. Todo pastor importante tem um templo, uma rádio, um canal de TV. Algumas Igrejas têm editoras, produtoras de discos, agências de viagem. É cada vez maior o número de horas compradas por essas Igrejas na TV aberta.

Se tomarmos como referência a Igreja Universal, podemos observar que ela é uma potência em comunicação. Distribui gratuitamente nas ruas um semanário com 1,8 milhão de exemplares; comprou em 1989 a TV Record, a segunda maior rede de televisão do país; controla mais de vinte emissoras de TV; transmite seus programas através de mais de quarenta estações de rádio.

Esse investimento em comunicação parece sincronizado com seu crescente envolvimento na política. Foi no começo da década de 1990 que a Universal assumiu um protagonismo na política. A cúpula da Igreja indica candidatos com base em critérios como o número de eleitores de uma igreja ou distrito. Cada templo tem um candidato para deputado federal e um para estadual. Esses candidatos são líderes religiosos carismáticos, com habilidades de comunicação, e estavam distribuídos por vários partidos antes de a Universal ter seu próprio partido, o PRB, que conta hoje com dez deputados federais e 21 estaduais.

O crescimento constante dos parlamentares da Universal tornou-a um modelo para outras Igrejas, como a Assembleia de Deus, e deu ensejo à criação da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, em 2009. Esta organização, de caráter nacional, visa consolidar a força política dos evangélicos, principalmente os pentecostais e neopentecostais, dando suporte a candidaturas de prefeitos e vereadores este ano. Das 52 candidaturas a prefeito acompanhadas por esse conselho nas eleições deste ano, 43 são do PRB. A mais importante delas neste momento é a do sobrinho de Edir Macedo, o senador Marcelo Crivella, que tem boas chances de se tornar prefeito do Rio de Janeiro. Crivella foi bispo da Iurd antes de se tornar senador. Outro candidato do PRB foi Celso Russomano, que permaneceu em primeiro lugar nas pesquisas em São Paulo durante quase toda campanha eleitoral.

O projeto da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil é que a partir de 2017 os políticos evangélicos passem a trabalhar de maneira mais articulada, com as mesmas pautas, independentemente dos partidos em que estejam.5

O Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política contabiliza cerca de 10 mil “vereadores de Deus”, algo como um quinto do total; no plano estadual já existem frentes parlamentares evangélicas em quinze estados; a bancada evangélica na Câmara dos Deputados é de 73 parlamentares e no Senado conta com três senadores.6

No Congresso, os parlamentares evangélicos se reúnem toda quarta pela manhã para o culto, depois discutem projetos de lei e a pauta. O acompanhamento legislativo é feito por assessores, muitos deles indicados pela Iurd, que orientam a ação dos parlamentares.

Os parlamentares evangélicos formam uma presença importante em Comissões do Congresso, como Seguridade Social, Direitos Humanos, Constituição, Justiça e Cidadania. Têm aí uma postura ideológica e se posicionam contra todos os projetos que, em seu entender, ferem seus valores. É o que vimos com o deputado Marcos Feliciano (PSC-SP), pastor da Catedral do Avivamento, uma Igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, e que esteve na presidência da Comissão de Direitos Humanos. Aí eles utilizam a Bíblia para propor ou alterar leis e atacar cláusulas pétreas de nossa Constituição. Se fazem presentes também na Comissão de Tecnologia e Comunicação, com catorze dos 42 assentos, para impedir qualquer iniciativa que venha a limitar seu poder midiático.

Segundo Silas Malafaia, existem centenas de projetos de lei no Congresso Nacional para detonar a família e os bons costumes, como os direitos LGBT, e cabe à bancada evangélica combater esses projetos. Mas seus interesses vão além disso: eles buscam isenções fiscais, a cessão de terrenos públicos para seus templos, alvarás de funcionamento das igrejas, o reconhecimento da cultura evangélica e seu financiamento com recursos públicos, a manutenção das leis de radiodifusão, a concessão de canais de rádio e TV.

Com uma atuação significativa no Congresso, os evangélicos, no entanto, não descuidam da importância de seu trabalho no seio da sociedade. Em janeiro de 2015, a Universal criou os Gladiadores do Altar, um grupo selecionado entre os integrantes da Força Jovem Universal. A Iurd declara que eles já são 4.300 e compõem-se de homens de até 26 anos, que marcham fardados, batem continência para um líder, juram dar a vida pelo altar, valorizam a disciplina e a hierarquia. São reuniões semanais que ensinam na teoria e na prática a importância da Obra de Deus.

Marcio Alexandre, coordenador do Coletivo de Entidades Negras, alerta que no âmago da teoria pentecostal está presente a ideia de uma guerra contra o mal e que cabe às Igrejas salvar as pessoas desse mal. “Se a linguagem deles é de guerra, a prática também pode ser.”7

Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.



Artigos Relacionados


Edições Anteriores