Os caminhos da liberdade - Le Monde Diplomatique

APRESENTAÇÃO

Os caminhos da liberdade

setembro 14, 2011
compartilhar
visualização

As revoltas árabes se propagaram da Tunísia ao Egito e em seguida ao conjunto do mundo árabe. Nenhum país foi poupado e, apesar das dificuldades, um período sombrio começa a dissipar-se

Em poucas semanas, e à custa de cerca de mil mortos, os povos tunisiano e egípcio se livraram pacificamente de seus ditadores. Rapidamente, o movimento se estendeu do Marrocos à Síria, passando pela Arábia Saudita e pelo Iraque. Por todos os lados, aspirações comuns como liberdade e dignidade, além da vontade de não violência. Nenhum país árabe foi poupado, nem mesmo os ricos Emirados Árabes Unidos, onde opositores foram imobilizados e uma associação de defesa dos direitos humanos foi colocada sob tutela do governo.

A rapidez com que as chamas da revolta eclodiram e se propagaram, alimentadas principalmente pela televisão Al-Jazeera, gerou algumas ilusões: a de que as mudanças seriam rápidas; os regimes cairiam um após o outro como um castelo de cartas; o amanhã, em sentido absoluto, despontaria já nos novos tempos. Mas não foi exatamente assim.

A contrarrevolução surgiu no Bahrein, com a intervenção de tropas do Golfo. A Líbia entrou numa guerra que permitiu a intervenção da Otan. O poder sírio tentou reprimir a oposição. E os desafios diante dos povos egípcio e tunisiano são imensos, notadamente nos campos econômico e social. Será um novo 1848-1849, quando a contrarrevolução aplacou a “primavera dos povos” europeia? Numerosos comentaristas parecem resignados desde já. Esse pessimismo engloba também os que não acreditam na “maturidade” dos árabes para a democracia; os que levantam novamente a bandeira do perigo muçulmano; que restringem o tempo do mundo ao tempo da mídia: toda luta que se estende por mais de uma semana está num “impasse”, toda crise que se prolonga por mais de um mês “se desvirtua”. Contudo, em julho de 1790, um ano após a tomada da Bastilha, a França ainda era um reinado e a Europa permanecia imóvel…

Por certo, seria ingenuidade pensar que esses ditadores, ancorados em seus fortes havia décadas, renunciariam sem resistência. Ou mesmo que sua queda significasse uma mudança imediata no sistema social. Os poderes vigentes dispõem de meios de repressão poderosos cuja eficácia pôde ser medida nas reações contra os manifestantes – embora não tenham sido suficientes para calar o povo ou “restabelecer a ordem”.

Ainda mais alarmante é o fato de não hesitarem em usar a própria diversidade cultural de seus países para tentar colocar manifestantes contra manifestantes. Curdos e árabes, cristãos e muçulmanos, ortodoxos e católicos, sunitas e xiitas vivem lado a lado há muito tempo, em geral em bons termos, às vezes em rivalidade, vez ou outra em enfrentamento direto. Há muito tempo, as crenças religiosas e as identidades nacionais foram manipuladas tanto pelas potências coloniais – como no Líbano, onde a França as institucionalizou – como pelos regimes nascidos das independências, que “dividiram para reinar”. No Egito, por exemplo, Hosni Mubarak jogou com a questão copta e manteve a minoria cristã em situação de inferioridade e jugo ao usá-los como escudo contra o islamismo.

Essas manobras não cessaram com a eclosão da revolta árabe. A dinastia reinante (sunita) no Bahrein, onde a maioria da população é xiita, mobilizou-se com base em argumentos religiosos. Manipulando os medos, a família real apelou às tropas aliadas do Golfo, em primeiro lugar à da Arábia Saudita. A campanha, de uma xenofobia particularmente repulsiva, acusava os manifestantes, alguns sunitas, de estarem a serviço do Irã. A partir de então, todos os países do Golfo tomaram a mesma posição e recrudesceram a fragmentação social – já acentuada pela intervenção norte-americana no Iraque e a instalação de partidos xiitas no alto escalão do governo. Desde 2004, o rei da Jordânia alertava para a criação de um “arco xiita” do Irã ao Líbano, passando pelos Emirados Árabes. Na Síria, incapaz de responder às aspirações populares, o regime baassista armou a minoria alauita do qual ele se originou, enquanto alguns grupos salafistas sunitas tentaram transformar o movimento de protesto em luta contra os “infiéis”.

A vontade unitária dos manifestantes e suas reivindicações cidadãs de liberdade, justiça social e democracia permitiram, em parte, desviar dessas manobras, tomar a dianteira e aprofundar as conquistas. A “primavera dos povos” está longe de terminar, assim como os discursos mais extremistas estão sendo marginalizados. A Al-Qaeda ficou ultrapassada perante essas mobilizações, e a morte de seu dirigente, Osama bin Laden, assassinado pelas forças armadas norte-americanas no Paquistão, marca de maneira simbólica o fim de uma época e de um discurso que no início dos anos 2000 ainda encontrava certo eco entre os muçulmanos.

Os caminhos da liberdade e da dignidade abertos pelo povo tunisiano, por onde seguiram também os outros povos árabes, permanecem incertos, perigosos e cheios de obstáculos. O retorno à ordem inicial, no entanto, não é mais possível. “Quando a liberdade eclode no espírito de um homem, dez não podem nada contra esse um” (Jean-Paul Sartre, As moscas).



Artigos Relacionados


Edições Anteriores