EDITORIAL

Os invisíveis geram medo

São mais de 160 pessoas assassinadas por dia. Na Síria, por exemplo, em quatro anos de guerra morreram 256 mil pessoas. No Brasil, no mesmo período, quase 279 mil.2 Não é uma guerra civil declarada, mas este é o país em que os policiais mais matam e mais morrem no mundo. Se de um lado estão os policiais e o Estado, do outro lado quem é o inimigo?

por: Silvio Caccia Bava
2 de agosto de 2017
Crédito da Imagem: Claudius

claudius 121-POBRES NA TV

A situação ainda não está fora de controle, mas há riscos de entrarmos em um período de confrontos e violência muito mais agudos do que vivemos atualmente. O que acontece hoje no Rio de Janeiro é sinal do que vem por aí. Já assusta todo mundo o fato de que o Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 homicídios por armas de fogo em 2014, uma alta de 21,9% em comparação aos 48.909 óbitos registrados em 2003, segundo o Mapa da violência divulgado em 2016.1

São mais de 160 pessoas assassinadas por dia. Na Síria, por exemplo, em quatro anos de guerra morreram 256 mil pessoas. No Brasil, no mesmo período, quase 279 mil.2 Não é uma guerra civil declarada, mas este é o país em que os policiais mais matam e mais morrem no mundo. Se de um lado estão os policiais e o Estado, do outro lado quem é o inimigo?

O que as classes dominantes nos querem passar – e para isso se utilizam da TV – é que o confronto se dá entre criminosos, malfeitores, bandidos, vagabundos, narcotraficantes, corruptos e os que defendem a ordem e a lei. Usam para isso programas como Cidade Alerta.

Ao produzir no imaginário dos brasileiros esse tipo de confronto, a TV oculta a pobreza, o desemprego, a falta de oportunidades para os jovens, a precariedade de nosso sistema educacional, a falta de moradia, os reais problemas da grande maioria dos brasileiros e brasileiras. Essa ocultação falseia o diagnóstico. Já que o que aparece na TV sobre os pobres é a perseguição aos bandidos, o imaginário do brasileiro acabou aceitando a percepção do pobre como um ser perigoso, que necessita ser controlado.

Na verdade, trata-se de repressão e controle policial sobre as grandes maiorias empobrecidas, controle que tem como imagem emblemática as Unidades de Polícia Pacificadora – as UPPs – instaladas em favelas do Rio de Janeiro e que, a pretexto de combater o narcotráfico, chegam a impor toque de recolher em certas áreas da cidade. Isso para não falar na política de encarceramento maciço sustentada pelo nosso Judiciário, hoje com mais de 200 mil presos “para averiguação”, em sua maioria jovens e negros, sem nenhuma acusação pesando sobre eles.

Numa sociedade organizada para facilitar os negócios e atender aos interesses das grandes empresas, a imagem construída da sociedade é a de um grande mercado onde se oferecem produtos e serviços para quem tem recursos para comprá-los. Consumismo e produtivismo são as molas do que se entende como progresso. A TV aberta é a vitrine desse mercado e se orienta para seduzir as classes médias e impor um padrão de consumo. O pobre, isto é, a grande maioria dos brasileiros, não existe na TV. E se é pela TV que a grande maioria se informa, então os pobres não existem para a sociedade em que vivem. Não se sabe como é a vida nas favelas, como funcionam as escolas públicas, como são as relações de rua e de bairro, o que fazem os jovens da periferia etc.

Ignorar os pobres tem como duplo propósito ignorar suas demandas, suas necessidades, e mantê-los sob controle, de preferência alimentando uma situação de apatia.     

“A representação de si, neste contexto, é decisiva. Aqueles que não têm nome não podem se nomear, não podem existir enquanto pessoas e não podem agir coletivamente. Se tivermos essa preocupação no espírito, compreenderemos melhor o interesse dos dominantes de fazer desaparecer do campo das representações certas categorias sociais e de querer que outras ocupem todo o espaço, pois aqueles que se tornaram invisíveis aos olhos dos outros se tornaram também invisíveis para si mesmos. Ao contrário, as categorias sociais superexpostas, supervisíveis, podem fazer crer que a representação de si mesmas é a única realidade social efetiva. Assim se constrói o imaginário social coletivo e a ideia que cada um faz de si mesmo.”3

Não basta dizer que a solução para a violência presente na sociedade não é o encarceramento maciço nem o assassinato em massa, como vem sendo feito com os jovens negros da periferia. Soa quase impossível nesse cenário polarizado identificar as causas da violência com a falta de políticas públicas que ofereçam às maiorias as mínimas condições de vida, especialmente nas grandes cidades. A juventude que tem perspectivas de futuro (de emprego, moradia, mobilidade, saúde, educação) não adere à violência, à criminalidade.

As políticas do atual governo cerceiam o futuro de nossa juventude ao impor profundos cortes nas políticas sociais. É um ataque aos direitos humanos, aos direitos sociais, uma violência deliberada sobre a vida das maiorias.

Nessas condições, a única maneira de essas maiorias se tornarem visíveis para o conjunto da sociedade e verem suas necessidades e demandas inscritas na agenda política nacional é por meio da mobilização social, do protesto, da pressão sobre o sistema político.

Se essa pressão vai se radicalizar e assumir formas violentas ninguém sabe, mas parece que somente dessa forma, somando as demandas de diferentes grupos sociais em um movimento amplo de protesto e questionamento da ordem estabelecida, é que o povo sai do anonimato, pode se reconhecer na sua existência, nas suas demandas, tornar-se ator político, apresentar-se para o conjunto da sociedade em toda sua potência. E é disso que as classes dominantes têm medo.

*Silvio C. Bava é diretor do Le Monde Diplomatique Brasil


1 Julio Jacobo Waiselfisz, Mapa da violência 2016, Flacso Brasil.

2 G1, Jornal Nacional, 28 out. 2016.

3 Jean-Luc Mélenchon, L’Ère du peuple [A era do povo], Fayard/Pluriel, Paris, 2017, p.89.

ERRATA

As notas do editorial da edição anterior (n. 120) não foram publicadas. Seguem abaixo.

1 Ernesto Laclau, entrevista ao Le Monde, 9 fev. 2012.

2 Larry Diamond, cientista político e professor da Stanford University. Entrevista à Folha de S.Paulo, 17 maio 2017.

3 Francisco Panizza (org.), El populismo como espejo de la democracia, FCE, Buenos Aires, 2009.

4 Ibidem.

5 José Murilo de Carvalho, “Ecos do passado”, Folha de S.Paulo, 28 maio 2017.

6 Boaventura de Sousa Santos, A difícil democracia, Boitempo, São Paulo, 2016, p.160.

7 Evelyne Pieller, “Patologias da democracia”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2017.

8 Chantal Mouffe e Iñigo Errejón, Construir um povo. Por uma radicalização da democracia, Éditions du Cerf, Paris, 2017.


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6 Comments

  • “A juventude que tem perspectivas de futuro (de emprego, moradia, mobilidade, saúde, educação) não adere à violência, à criminalidade.”
    Honestamente, gostaria que isso fosse realidade. Porém, é necessário passar na favela pra saber que entre um emprego e o tráfico, grande parte dos jovens prefere o tráfico. Não é uma questão de falta de alternativa. É uma preferência pelo status social de traficante, dinheiro fácil, poder e adrenalina. Conheço casos reais assim. A frase do editorial é uma máxima repetida por acadêmicos que não “sobem o morro”.
    Na minha opinião, é um problema macro-estrutural sim (como as péssimas condições de moradia e estudo dos jovens), mas é principalmente causado pela ausência de uma participação ativa dos pais na educação dos filhos (digo isso pois minha esposa foi professora em uma comunidade por vários anos, e eram poucos os pais que se preocupavam com os filhos – um caso até me chamou a atenção, quando uma mãe perguntou em uma reunião de pais o que ela podia fazer para ajudar a escola a educar o filho dela, como se a responsabilidade fosse invertida).
    Por isso o Estado deve propor políticas públicas de conscientização da necessidade da educação parental, e da importância que a estrutura familiar tem na formação da sociedade.
    O problema da violência começa na ausência de um lar. Os outros fatores só são agregados e potencializadores. Ao invés de tratar sintomas, em casa é que o problema pode começar efetivamente a ser resolvido.

    • E quem disse, Vinícius, que esses fatos são isolados? Que tipo de lar pode se estabelecer num contexto de ausência do Estado e zilhões de “problemas macro-estruturais” como você mesmo colocou? Que horas esses pais podem se fazer presentes quando a subsistência da família está em jogo? Que dados são esses que apontam que jovens preferem o tráfico a uma vida cheia de perspectivas e oportunidades diferentes? “Conheço casos reais assim.”, poxa vida… Para cada caso assim, conhecemos tantos outros na contramão dessa lógica…

      “Por isso o Estado deve propor políticas públicas de conscientização da necessidade da educação parental, e da importância que a estrutura familiar tem na formação da sociedade.” Há outras coisas importantíssimas na formação da sociedade: o mínimo de dignidade.
      E quando falta dignidade, acredito que é quase impossível garantir todo o resto. É tudo uma interdisciplinaridade, concordo, mas fica realmente difícil exigir certos valores de quem vive à base de opressão.

      • Prezada Lela, permita-me responder.

        A história da humanidade precede ao Estado. A existência de um lar e de uma estrutura familiar é, portanto, anterior aos conceitos de uma sociedade politizada e receptora dos benefícios estatais (ou “dignidade”, como você colocou). É a partir do núcleo familiar que se constrói a sociedade, e não o inverso.

        Sinto (posso estar enganado) que você concorde com a mãe que perguntou o que ela poderia fazer pra ajudar na educação dos filhos, quando você disse: “fica realmente difícil exigir certos valores de quem vive à base de opressão”, como se as dificuldades da vida justificassem o abandono de valores no lar ou a ausência dos pais. Pode ser mais difícil em condições de vida menos favoráveis, mas uma parcela maior da humanidade só vivenciou uma melhora nos últimos 50 anos, em comparação aos milênios de história humana – e isso nunca impediu a formação de identidade e valores familiares. A ausência do Estado não isenta a responsabilidade dos pais.

        Você afirmou: “Para cada caso assim, conhecemos tantos outros na contramão dessa lógica…”, sim, e são muitos. De outra forma só haveria traficantes no morro. Mas isso não chega a contestar o que eu disse, já que me referi aos que entravam no tráfico por opção. Existem empregos disponíveis para estes, mas, devido ao nível de instrução (maior parte ATÉ fundamental completo*), são empregos que oferecem salários baixos, e baixo status social. Infelizmente, a maior parte dos que entram por esse caminho sai, não com uma pasta na mão, mas em um saco preto. No começo deste mês, foram dois no bairro onde moram meus sogros. Lamento profundamente essa situação.

        É preciso subir o morro pra conhecer o morro. Não dá pra só filosofar de fora.

        *Só uma curiosidade de quem conviveu com pessoas que moram em bairros nessas condições: um colega meu cabeleireiro uma vez gabou-se com outro colega por não ter que trabalhar no feriado, já que ele tinha “estudado”. “Estudado” significa ter terminado o ensino médio.

    • “Honestamente, gostaria que isso fosse realidade. Porém, é necessário passar na favela pra saber que entre um emprego e o tráfico, grande parte dos jovens prefere o tráfico. Não é uma questão de falta de alternativa. É uma preferência pelo status social de traficante, dinheiro fácil, poder e adrenalina.” – Vinícius

      Vou me deter apenas a esse comentário do Vinícius.
      Eu concordo até certo ponto com o ponto de vista dele. Quando ele coloca o “prefere o tráfico” é algo que devemos analisar cuidadosamente. Eu moro na periferia de Natal/RN e, de fato, o dinheiro fácil e abundante do tráfico é algo que atrai os mais jovens. Os teóricos acadêmicos que só vivem entre os muros da universidade provavelmente nunca entraram numa favela para constatar o problema. Mas essa atração se dá por fatores já explicitados no texto, e aí os teóricos acertam em suas análises. Uma delas é a falta de políticas que tragam alguma perspectiva de vida digna a estes.
      Entre trabalhar 8 horas/dia para ganhar pouco mais de R$ 900,00 reais no final do mês e virar uma noite vendendo ilícitos e faturar o valor que iria receber por mês de trabalho, qual é a melhor opção para quem não teve e não tem as mesmas perspectivas de alguém que vive em berço de ouro? Isso eu falo apenas em salário, nem estou falando das condições de trabalho, oportunidade de melhoria salarial e de uma vida mais estabilizada profissionalmente. Nossa classe política também é bastante beneficiada com os problemas sociais da nação.

      Nas periferias faltam políticas de incentivo ao esporte, que já se mostrou uma excelente ferramenta no combate ao crime, faltam políticas assistências de saúde, cultura, educação e muitos sobreviverem na incerteza de um futuro.

      No entanto, isso não explica por completo o fenômeno. Baseio-me principalmente nos noticiários, onde podemos ver cada vez mais jovens das classes sociais mais altas participando de todo esse fenômeno de violência e cometendo os mesmos crimes por tráfico. A diferença entre os mais pobres e os mais ricos é o enfoque da mídia. Os mais pobres são chamados bandidos e os mais ricos aparecem como apenas “suspeitos”.

  • Orientação na educação dos filhos, planejamento familiar, educação de qualidade, investimentos em cultura e esportes, saúde pública de qualidade. Enfim políticas públicas que garantem oportunidades às crianças e jovens. Num país sem corrupção e com uma distribuição de renda, uma política tributária justa, o desemprego cairia e com ele, a violência.

  • Num país castigado por 20 anos de uma Ditadura sangrenta e 400 anos de escravidão não se pode esperar soluções definitivas. Pois, vivemos numa falsa democracia que insiste em dizer que “o povo é soberano”. Se o povo fosse realmente soberano não teríamos um governo golpista e com a maior rejeição da história. Dessa forma, não tem como acabar com a violência se não houver uma mudança de mentalidade. Isso só se consegue com educação de qualidade – talvez seja possível nas próximas gerações.

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