Os Panteras Negras na conquista de Oakland - Le Monde Diplomatique

NEGROS

Os Panteras Negras na conquista de Oakland

setembro 27, 2011
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As imagens dos tiroteios com a polícia ofuscaram uma parte da ação do Black Panther Party. Inicialmente pró-luta armada, o partido usou a política local como trampolim para a mudança social. Em Oakland, os Panteras ofereciam serviços sociais para politizar os negros

(Chicago, 1969 – Fred Hampton, dos Panteras Negras, acima à esquerda).

Cofundador do Black Panther Party (BPP) em 1966, Huey Newton tratou imediatamente de colocar em prática uma ideia de Malcolm X: armar os negros. Os militantes do partido adotavam como uniforme a jaqueta e a boina preta, e vagavam pelas ruas de Oakland e do Harlem portando metralhadoras de mão. O espetáculo impressionou os Estados Unidos. As massas afro-americanas sentiam um orgulho legítimo em relação a isso: pela primeira vez, alguns deles encaravam de frente a brutalidade da polícia.

O poder chegou a conclusões diferentes: o chefe do Federal Bureau of Investigation (FBI), Edgar J. Hoover, classificou o movimento como o inimigo público número um nos anos 60. O BPP passou então a sofrer uma repressão sem precedentes, e mais de duas dezenas de militantes foram mortos. Dizimado, dividido entre a busca da ação violenta – que acabava por ser um suicídio – e a procura por uma certa eficácia política, ele se cindiu em dois. Eldridge Cleaver, uma das figuras centrais do partido, fugiu para a Argélia. Newton e Bobby Seale se dirigiram para Oakland, onde tentaram integrar-se à vida política local e conquistar a prefeitura em 1972.

Seale, o furioso do processo dos “sete de Chicago”1− que o juiz tinha mandado amordaçar e amarrar em plena audiência para que ficassem quietos −, tornou-se um homem que se vestia com apuro e conversava incansavelmente com os transeuntes nas ruas, fossem eles negros ou brancos. Não falava mais em abater os porcos (os policiais), e em vez disso dissertava sobre questões relativas a emprego, condições de alojamento ou limpeza das calçadas.

No lançamento de sua campanha, em 10 de dezembro de 1972, no meio da multidão que assistia a seu primeiro discurso, estava David DuBois, filho do sociólogo e escritor negro William E. B. DuBois, fundador em 1909 da Associação Nacional para o Progresso dos Negros e defensor de propostas radicais: de acordo com ele, os negros só poderiam se libertar depois de uma revolução de caráter socialista, e deveriam embasar sua luta num controle – talvez limitado, mas real – das instituições locais. Os Panteras Negras pareciam assim unir-se a uma corrente tradicional do movimento negro, enquanto se adaptavam ao contexto dos anos 70, quando a era dos líderes carismáticos dava lugar à dos organizadores pacientes.

 

A longa marcha

Mastodo o interesse da tentativa do BPP advinha do fato de que ninguém em sã consciência poderia acreditar que Seale ou Newton haviam se convertido em reformistas no sentido estrito da palavra. O partido sempre se destacara dos outros grupos políticos negros pela disciplina e determinação. Quando seus líderes se atiraram com tanta vontade a cortejar as urnas, um jogo que seus adversários conheciam bem melhor do que eles, as pessoas foram levadas a enxergar nisso uma “longa marcha” em vez de uma solução fácil.

A organização da campanha eleitoral do BPP revelava também um processo simples, destinado a preparar uma tomada de consciência que soaria como revolucionária nos Estados Unidos. Num primeiro momento, o partido organizou um certo número de serviços para a população: distribuição gratuita de roupas e alimentos (em 1969, os Panteras já distribuíam café da manhã para crianças negras em idade escolar), assistência jurídica, clínica médica, serviços gratuitos de encanador e de extermínio de animais nocivos, Liberation School (educação política de crianças, pelo ensino da história dos afro-americanos), Intercommunal Youth Institute (chamariz para um programa de alfabetização de adultos) e transporte gratuito até as prisões para os pais dos detentos.

Doisprogramas merecem atenção especial: o Safe (Seniors Against a Fearful Environment), destinado a proteger os idosos, frequentemente assaltados na rua nos dias em que iam ao banco para descontar seu cheque da pensão ou da assistência social. Em relação a esse tema, o estabelecimento de um serviço de proteção e transporte, proporcionado por jovens com frequência desempregados, constituía uma propaganda excelente para o partido, mas uma antipublicidade para a polícia de Oakland.

A evolução do programa de alimentação para crianças também foi significativa. Nos primeiros tempos, os jovens recebiam diretamente as doações, quase sempre na escola. Depois os cafés da manhã eram distribuídos para as famílias, de modo a permitir uma ação de politização em um momento de grande disponibilidade. O número de pessoas afetadas viu-se consideravelmente aumentado.

Essesprogramas tinham três objetivos: formar a infraestrutura de um partido popular, estar presente entre a população e, finalmente, convencê-la de que a distribuição de alimentos não era suficiente; era preciso dar emprego às pessoas. Era preciso passar da “sobrevivência” para o “controle comunitário”, explicavam os Panteras.

Assim, na luta pelo poder político municipal, o BPP concentrou sua plataforma eleitoral na questão do emprego: se os negros conseguissem ganhar a prefeitura de Oakland, milhares de empregos poderiam ser oferecidos para os afro-americanos nos serviços municipais. Para isso bastaria exigir que a nova equipe municipal decidisse, por exemplo, contratar apenas cidadãos de Oakland. Um prefeito negro também poderia obrigar os empresários do setor imobiliário a contratar uma determinada cota de negros, de acordo com seu número na população da cidade.

Essas medidas deveriam ser acompanhadas de um programa de renovação urbana, dirigido não para a construção de um grande centro empresarial no coração da cidade (o projeto defendido pelo prefeito em exercício), mas para a melhora efetiva da moradia e do meio ambiente. Entre suas muitas promessas, o BPP também previa a criação de um grande centro cultural com um objetivo turístico.

Seale e Newton não tinham no entanto muitas ilusões sobre a extensão das prerrogativas deixadas para o conselho municipal de uma cidade presa na enorme concentração da baía de São Francisco. A análise do poder local os conduziu àquela do poder em geral, o terceiro tópico de sua campanha eleitoral. A ideologia do BPP – que era, sobretudo no começo, um plágio confuso de Marx, Lenin e Mao – se caracterizou rapidamente por um certo número de ideias fortemente disseminadas. O inimigo designado eram o capitalismo e o imperialismo, e não o racismo. A comunidade negra era descrita como “o terceiro mundo no coração dos Estados Unidos”.

Vítimaela própria de um neocolonialismo, devia ser solidária com as guerras de libertação nacional e popular não somente africanas, mas também asiáticas e latino-americanas, o que Newton chamou de “intercomunalismo”. O BPP publicava semanalmente no jornal The Black Panther um programa de dez pontos, muito semelhante ao que fora difundido pela primeira vez pelo partido em 1966.

Emuma tentativa de ganhar os eleitores de Oakland, cidade de cerca de 500 mil habitantes, composta de 40% de negros e 12% de “chicanos”, Seale deveria seduzir a massa dos moderados, brancos ou negros. As reações da comunidade branca, ou até mesmo de seu adversário, o prefeito John Reading, que estava deixando o cargo, mostraram que ele tinha sido levado a sério. Os 19,26% dos votos ganhos pelo candidato do BPP no pleito de 18 de abril de 1973 lhe permitiram participar do segundo turno. Sem sucesso: a conquista de um cargo eletivo era um processo longo e perigoso para um partido que ainda se declarava revolucionário. Durante sua campanha, diante de uma plateia de estudantes, Seale declarou: “Nós podemos fazer de Oakland a primeira base revolucionária do país e, tomando o poder na cidade, vamos devolver o poder ao povo”. O objetivo não foi alcançado, mas a campanha municipal de 1973 permitiu fazer do BPP uma força política real.

BOX   

"De invisível, o preto se torna visível" Por Jean Genet

O sobressalto dos brancos diante das armas, das jaquetas de couro, dos cabelos cúmplices da revolta, das palavras e até do tom de voz ao mesmo tempo maldoso e terno: os Panteras quiseram isso. Elas quiseram essa imagem, que podemos considerar como teatral e dramática. Teatro para expor o drama e o apagar. O drama sombrio por eles mesmos e para os brancos; provocando sua repercussão na imprensa e na tela, eles quiseram que essa imagem atormentasse os brancos, e com essa ameaça eles conseguiram, pois a imagem foi acentuada por mortes reais, todas causadas por armas sabotadas pelos Panteras: estes sacavam, mas ao ver as armas, os policiais atiravam. Dizer, por exemplo, que “o fracasso dos Panteras está ligado ao fato que eles se associavam a uma ‘imagem de marca’ antes de realizar ações reais que imporiam sua imagem” (resumo mais ou menos uma pergunta do jornal Remparts) suscita várias observações. A princípio, essa de que o mundo pode mudar por outros meios, ao invés da guerra em que morremos. “O poder está na verdade em uma arma”, talvez, mas ele está, às vezes, também na sombra ou imagem da arma. As exigências dos Panteras, expressas pelos “dez pontos”, são ao mesmo tempo primárias e contraditórias. Os pontos seriam mais um disfarce sob o qual acontecia uma outra operação diferente daquela abertamente exposta. No lugar da real independência, territorial, política, administrativa, policial que precisava do confronto com o poder branco, acontece uma metamorfose do Negro. De invisível, ele se torna visível. Essa visibilidade foi alcançada de várias maneiras. O Negro não é uma cor: sobre um fundo de epiderme com pigmentação mais ou menos compacta, ele pode encomendar suas roupas em cores que remetem a verdadeiras festas, ou estampas douradas, azuis, rosas e lavanda. Sobre um fundo nem tão preto assim, o que necessita uma busca de harmonia de tons pasteis ou violentos, de qualquer forma chamando atenção, essas imagens não podem dissimular o drama em que se encontram, pois se pode ver nos olhos, uma eloquência de certo modo aterrorizante. Essa metamorfose seria uma mudança? Sim, quando os brancos são tocados por essa metamorfose, eles mudam também. Os brancos mudaram porque seus medos não eram mais os mesmo de outros tempos.

 

Un captif amoureux (Um prisioneiro apaixonado). Paris: Gallimard, 1996.



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