EDITORIAL

Ousar pensar mais além

Construir uma nova sociedade, novas relações de produção e consumo, novas formas de convivência social, uma democracia radical onde os cidadãos possam se reapropriar do governo e do poder em seus territórios e produzir uma convivência harmoniosa entre os seres humanos e deles com a natureza.

por: Silvio Caccia Bava
3 de fevereiro de 2017

O homem é um rascunho em  permanente aperfeiçoamento.
(Guimarães Rosa)

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Vamos resistir para não perdermos mais direitos. Direitos trabalhistas, da seguridade social, das políticas públicas que garantem a vida nas cidades e no meio rural. Esses direitos são avanços civilizatórios conquistados graças às mobilizações sociais. O ataque é feito pelo governo sem voto com a promoção das reformas neoliberais que, ao tomarem a iniciativa de suprimir direitos, definem a agenda da disputa. Até aqui estamos apenas reagindo, nos defendendo.
A crise, no entanto, é civilizatória. Vivemos globalmente na sociedade da desigualdade e da devastação. Se o presente desenhar o futuro, estaremos indo para a barbárie, para a violência, para a miséria e para a exclusão de populações cada vez maiores, para o colapso ambiental, para regimes políticos autoritários e opressivos.
Precisamos questionar os fundamentos desta nossa sociedade, superar a ideologia do progresso, do crescimento, do desenvolvimento como permanente acumulação de bens materiais, criticar os atuais padrões de produção e consumo que devastam a natureza, concentram a riqueza e colocam a sociedade a serviço da acumulação de capital, dos interesses das grandes empresas, especialmente do setor financeiro.
Mas, então, qual é a sociedade que queremos? Qual utopia é capaz de mobilizar as energias sociais de mudança? Uma utopia é uma obra coletivamente imaginada, conquistada e construída politicamente, é um esforço de muitos. E, no nosso caso, fundada nos valores básicos da democracia como liberdade, igualdade, solidariedade, vida em comunidade. Construir uma nova sociedade, novas relações de produção e consumo, novas formas de convivência social, uma democracia radical onde os cidadãos possam se reapropriar do governo e do poder em seus territórios e produzir uma convivência harmoniosa entre os seres humanos e deles com a natureza. Tudo isso não é uma tarefa fácil.
A quebra dos paradigmas atuais é o primeiro passo. Descolonizar nossa mente nos âmbitos político, social, econômico e cultural. Pensar a sociedade de superação do capitalismo. Gerar uma nova proposta civilizatória. Passar da sociedade organizada para atender às necessidades da acumulação para uma sociedade orientada para atender às necessidades de seus cidadãos. Um exemplo: se tomarmos as políticas agrárias e agrícolas, a soberania alimentar e a preservação da biodiversidade deverão ser o ponto de partida, e não o fortalecimento do agronegócio.
Os questionamentos do modelo atual consumista e predatório estão presentes há anos. A teoria do decrescimento da produção e do consumo nos países do Norte, a mudança da matriz energética com o fim do uso dos combustíveis fósseis e da energia nuclear, a estatização dos bancos privados e a afirmação dos bens públicos comuns estão na agenda das mudanças necessárias.
Experiências importantes mostram o caminho das mudanças. A importância da economia solidária, a luta dos ambientalistas pela preservação das espécies e da natureza, a solidariedade entre os povos para com os migrantes etc. Recentemente,  mais de cinquenta importantes cidades no mundo recusaram a gestão privada de bens públicos. A prefeitura de Paris retoma a gestão da água declarando que a gestão privada de bens públicos é incompatível com o interesse coletivo.
O desafio é distribuir desde já riqueza e renda de modo a reduzir substantivamente a pobreza e a desigualdade. Um projeto de nova sociedade pautado no respeito aos direitos humanos requer essa redistribuição em favor dos pobres e marginalizados. Assegurar água, soberania alimentar, soberania energética, a desmercantilização da natureza, a valorização de bens públicos comuns como educação, saúde e transporte está entre as metas da nova sociedade.
O local é o espaço de construção de um novo sistema econômico, sobre bases comunitárias, voltado para o desenvolvimento das forças produtivas presentes no território, suas capacidades humanas e recursos produtivos.
A conquista de crescentes graus de liberdade e a vigência dos direitos humanos requerem uma ação política sustentável e estratégica para construir tantos espaços de poder contra-hegemônico quantos forem necessários. Para a promoção dessas mudanças no padrão civilizatório é necessária a radicalização da democracia, de uma democracia inclusiva, respeitosa da diversidade, bem como a construção de contrapoderes com crescentes níveis de influência no âmbito local. A democracia radical exige a participação de atores organizados em seu território concreto, expressando vontade e direção política.
Um novo pacto de convivência social e ambiental para a promoção de uma vida centrada na autossuficiência e na autogestão dos seres humanos vivendo em comunidade requer um novo tipo de Estado, muito mais horizontal nas decisões e aberto à participação cidadã, que deverá corrigir as deficiências dos mercados e atuar como promotor das mudanças.

 

Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 115  – fevereiro de 2017}


Este editorial é inspirado no livro de Alberto Acosta denominado O bem viver, Ed. Autonomia Literária e Editora Elefante, São Paulo, 2016.


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7 Comments

  • Acho que um dos problemas que temos hoje, especialmente aqui no Brasil, é a confusão/falta de conhecimento acerca do “capitalismo”. É de praxe, tomar como verdade o que os meios de comunicação de massa e as mensagens compartilhadas pelo whatsapp divulgam, sem um pingo de pesquisa e senso crítico. Aqui em casa mesmo, só ouço falar das vantagens das privatizações, da necessidade de consumir mais e ter sempre o melhor, da legitimidade da meritocracia, usualmente reflexões frívolas, bem ao estilo do panurgisme. É muito cômodo ser uma ovelha e junto ao rebanho seguir o pastor.

  • O processo para alcançar um padrão de sociedade mais aceitável sem dúvida será radical. Refletir sobre os valores sociais e agir para livrar-se deles, caso sejam inibidores de uma civilização mais justa, exige, como foi muito bem colocado acima, romper com os paradigmas, cessar a alimentação desse modelo econômico selvagem, se posicionar contra qualquer tipo de ações ilegais, agir considerando os princípios de justiça e equidade, valorizar e propor espaço apenas ao que é útil entre o turbilhão de prioridades, assim o consumismo desenfreado, a tenaz disputa social, a cobiça desrespeitosa, o enriquecimento ilícito e desnecessário…logo, perderão o valor e isso é radical diante de uma sociedade conservadora. Portanto, sejamos radicais.

  • Entendo a acao direta dos trabalhadores como forma de excluir os intermediarios do processo de decisoes socias.Devemos destruir todas as formas de organizacoes verticais pelas horizontas.Na minha visao a questao nao e trocar quem controla nos temos que ser os atores do processo e nao os expectadores . Nao temos que delegar o poder e sim exerce_lo diretamente.

  • que bom que mais gente começa a perceber a necessidade de uma reforma política “profunda”.. a solução para os problemas atuais chama-se “parlamentarismo online”, um sistema que venho tentando emplacar a discussão a mais de 1 ano, sem sucesso.. políticos, de todas as matizes, rejeitam a ideia.. porque? Porque a solução para o planeta é transferir o poder político para as pessoas.. e os políticos não gostam disso.. mas o fato é a gente não pode depender de um super-humano como o Lula, ṕor exemplo, a enfrentar sozinho forças inimagináveis.. a gente tem que ter mecanismos para fazer política diretamente, 24 horas por dia, 365 dias por ano.. (porém, não através de democracia direta, que não funciona.. os políticos precisam existir, eles são “amortecedores” sociais.. o que precisa é compartilhar o poder político, é diferente..).. https://www.facebook.com/groups/setimarepublica/

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  • De certa forma isso pode se caracterizar como uma utopia em nossa sociedade atual, considerando que as pessoas continuam alienadas no processo de lutar pela sua sobrevivência, agindo, em sua grande maioria, como autômatos. A grande mídia contribui enormemente para isso, posto que está alinhada com a ideologia reinante, pautada no consumismo, livre mercado e uma falsa noção de liberdade passada de forma subliminar diuturnamente. Mas acredito que o que muda são ideias como a dessa crônica, para tentar quebrar tais paradigmas. Não é fácil, principalmente porque apostam na ambição e no individualismo para retroalimentar essa situação, mas creio ser possível uma nova sociedade pautada na solidariedade. No entanto, se os detentores do grande capital não promoverem mudanças estruturais que diminua o fosso social, dificilmente teremos um mundo melhor. Só nos resta pressionar e lutar por uma democracia realmente participativa, mas, sem querer ser pessimista, geralmente as lutas estão se tornando inglórias. Enquanto isso, o sistema capitalista vai detonando o nosso planeta de forma acelerada.

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