GANHAR OU GANHAR

Prêmios e castigos dos negociadores do mercado financeiro

Na maioria dos setores de atividade, os comportamentos de risco geram desconfiança. No meio financeiro, eles são recompensados. Mesmo quando levam empresas – ou países – à ruína. "Qualquer que seja o volume das perdas pelas quais são responsáveis, os figurões sempre conseguem se reerguer”
por: Silvio Caccia Bava
8 de novembro de 2011

Quais eram as motivações de Jérôme Kerviel, simples operador e aparentemente sem antecedentes, que cometeu a maior fraude da história do mundo financeiro? A imprensa parece ter observado apenas que “ele esperava se mostrar um trader [negociante do mercado financeiro] excepcional, um antecipador do mercado”, de acordo com os termos do procurador da República Francesa, Jean-Claude Marin, e que seu objetivo não era o enriquecimento pessoal. Retomando as palavras de Daniel Bouton, na ocasião CEO da Société Générale (que empregava Kerviel), aquele que ele chamou de “escroque”, “fraudador” e “terrorista”, “não parece ter se beneficiado pessoalmente com essas fraudes”.

No entanto, Kerviel, cujo salário anual era de 48 mil euros, afirmou durante seu interrogatório: “Para 2007, tentei negociar um bônus de 600 mil euros e [meu chefe] deu a entender que eu não podia esperar mais de 300 mil euros”. Em sua avaliação de final de ano, o trader, que havia especulado na Eurex, a Bolsa alemã que atua no mercado de derivados, declarou somente 55 milhões de euros de lucro (sobre o 1,4 bilhão de euros que teoricamente fez ganhar a Société Générale, depois de fazê-la perder 1,5 bilhão seis meses atrás, e antes que a “descoberta” pelo banco dessas transações ilícitas e sua liquidação resultassem em uma perda líquida de 4,9 bilhões de euros).1

Algumas semanas depois, o Crédit Suisse reconheceu que vários de seus traders de Londres haviam ocultado perdas de mais de 2 bilhões de euros sobre produtos financeiros complexos para garantir seus prêmios de fim de ano,2

No mundo financeiro, é pelo valor do bônus (que constitui o essencial da remuneração dos operadores financeiros de alto gabarito) que se mede o talento e que se estabelecem as preferências. De acordo com Bertrand Jacquillat, professor da Sciences Po, “tudo se passa como se os bancos tivessem se tornado, nesses últimos anos, gigantescos hedge funds[fundos especulativos]. O trabalho tradicional dessas instituições é a intermediação, isto é, a administração do dinheiro que lhes é confiado por terceiros. Ora, uma consulta aos balanços de muitos estabelecimentos mostra que a parte dos resultados provenientes do tradingsobre fundos próprios do banco,3 como o fazem os hedge funds, aumentou consideravelmente. Isso acontece especialmente nos Estados Unidos, onde essa quantia se situa entre 25% e 40% do resultado líquido dos grandes estabelecimentos”.4

Bolha bilionária, bônus milionários

É compreensível que estes últimos papariquem esses traders, caçadores de prêmios para quem o fim justifica os meios. A atualidade recente revela as perversões do sistema: quando a bolha cresce, os bônus se acumulam; quando ela estoura, os beneficiários dos prêmios passados estão fora do alcance.5 Aqueles que têm condições de negociar com os fundos do banco ou, como Kerviel, de manipular os controles internos são encorajados a fazer apostas insanas para construir pirâmides financeiras (e suas próprias lendas). Se ganharem, é o jackpot. Se perderem, também ganham – com a condição, contudo, de que tenham apostado suficientemente alto ou que ocupem um cargo importante. De fato, antes de iniciarem suas atividades, os principais dirigentes negociam as condições de uma eventual partida, e aos paraquedas dourados vêm se acrescentar vantajosas participações nos lucros da empresa. Dessa forma, Charles Prince, CEO da Citigroup, o gigante do banco que recupera empresas injetando recursos, foi demitido em novembro de 2007 com um bônus de US$ 12,5 milhões (inferior, é verdade, ao bônus do ano anterior, que foi de US$ 13,8 milhões), enquanto seu colega da Merrill Lynch, Stanley O’Neal, licenciado na mesma ocasião, colocou na carteira a bela soma de US$ 161,5 milhões.6 Por outro lado, os responsáveis pela Countrywide Financial Corporation, à beira da falência e recuperada in extremispelo Bank of America, receberam “bônus de retenção” para evitar que fossem seduzidos pela concorrência. Angelo Mozilo, o mais influente deles, certamente não terá preocupações de ordem financeira. Entre 2003 e 2006, o CEO da Countrywide Financial embolsou cerca de US$ 60 milhões em salários e prêmios, e entre 2006 e 2007, US$ 129 milhões em decorrência da venda de ações.7

Mais modesto, porém não menos determinado, o agente da Firmat, que passava parte das ordens de Kerviel, exigiu de sua empresa os bônus ligados a essas operações (1,02 milhão de euros). Ele até o intimou na justiça. Os traderscaídos também podem se reerguer financeiramente, a partir do momento em que seus percalços tenham sido consideráveis. Nick Leeson, o “traderlouco” que, em 1995, sozinho, havia causado a falência do venerável banco britânico Baring, depois de três anos de prisão, deu a volta por cima graças à sua fama: atualmente é presidente de um time de futebol na Irlanda, publica livros (também foi herói de um filme) e comenta os escândalos financeiros mediante boa remuneração.8

Landon Thomas, jornalista do New York Times, resumiu a situação da seguinte maneira: “Qualquer que seja o volume das perdas pelas quais são responsáveis, os figurões sempre conseguem se reerguer. As verdadeiras vítimas são aquelas que ocupam cargos subalternos e cujo posto de trabalho é eliminado mesmo que não tenham nada a ver com a crise dos subprimes”.9



1   Gérard Davet e Elise Vincent, “Jérôme Kerviel: ‘Je ne peux croire que ma hiérarchie n’avait pas conscience des montants que j’engageais’” [Jérôme Kerviel: “Não posso acreditar que meus superiores não tinham conhecimento das somas que eu manipulava”], Le Monde, 29 jan. 2008.



2   David Gow, “Rogue traders leave Credit Suisse’s credibility battered” [Trades desonestos maltratam credibilidade do Credit Suisse], The Guardian, Londres, 21 mar. 2008.



3   Desde 1933, a Lei Glass-Steagall separava claramente bancos comerciais e bancos de investimentos. Até sua abolição em 1999, o “produto bancário líquido” dos bancos comerciais se limitava essencialmente à diferença entre o lucro proveniente dos créditos concedidos e a remuneração dos depósitos. A desregulamentação financeira estimula os bancos de depósito a se comportarem como bancos de investimento especulando por conta própria ou para seus clientes. Ler “Les assises du système bancaire détruites par la déréglementation” [As bases do sistema bancário destruídas pela desregulamentação], Le Monde diplomatique, jan. 1991.



4   Bertrand Jacquillat, “Il faudrait séparer le ‘trading’ sur fonds propres de l’activité classique” [Seria preciso separar o “trading” sobre fundos próprios da atividade clássica], Le Monde, 5 fev. 2008.



5   Eduardo Porter, “Should bankers pay for their mismanagement?” [Os banqueiros deveriam pagar pela sua má-gestão?], The New York Times, 28 jan. 2008.



6   Eric Dash, “For ousted Citigroup chief, a bonus of $12.5 million” [Para o chefe deposto do Citigroup, um bônus de US$ 12,5 milhões], The New York Times, 12 nov. 2007.



7   Gretchen Morgenson, “Lenders who sold and left” [Financiadores que venderam e saíram], The New York Times, 3 fev. 2008. Ver também “Retention bonuses at Countrywide” [Bônus de retenção na Countrywide], The New York Times, 18 jan. 2008.



8   Alistair Macdonald e Andrew Morse, “After the fall: life moves on for rogue traders” [Após a queda: a vida segue para tradersdesonestos], The Wall Street Journal, 6 de março de 2008.



9          Landon Thomas Jr., “What’s $34 billion on Wall Street?” [O que são US$ 34 bilhões em Wall Street?], The New York Times, 27 jan. 2008.


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