Quando a África do Sul importava franceses - Le Monde Diplomatique

HISTÓRIA

Quando a África do Sul importava franceses

Edição - 122 | África do Sul
por Charlotte Grabli e Thomas Lesaffre
agosto 31, 2017
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As migrações em massa que partiram da Europa em direção aos EUA, ou do Sul para o Norte, mostram em geral migrantes submetidos ao desprezo e ao racismo das populações locais. O caso pouco conhecido dos milhares de franceses recrutados pela indústria sul-africana nos anos 1960 inverte essa perspectiva. Aqui, os imigrantes vinham consolidar a dominação dos brancos

 

“Sabíamos muito bem o que era o apartheid.” Para Jean, funcionário da siderúrgica dos Altos Fornos da Chiers, na região da Lorena, a escolha pela imigração não era insignificante. Um simples encarte no jornal Républicain Lorrain foi o suficiente para fazer esse fura-greve tomar a decisão, cansado do clima político dos anos 1960 e dos sindicatos.

O chamado lançado “às pessoas interessadas em emigrar para a África do Sul” prometia alojamento e emprego na Iron and Steel Corporation (Iscor), o maior produtor de aço do país. Como Marcel, “considerado fascista” depois de seu retorno da Guerra da Argélia, em que era paraquedista, Jean aproveitou a ocasião para se juntar ao último “bastião branco” do continente africano. Nenhum avião decolou em maio e junho de 1968; ele partiu no início de julho.

Para os 20 mil franceses que emigraram para a África do Sul nessa época, o clima político não foi o único motivo. Os anos 1960 e 1970 marcaram o surgimento da precariedade e do desemprego nas regiões siderúrgicas e mineradoras. Em vez do Canadá ou da Austrália, dois destinos que disputavam os imigrantes europeus, muitos escolheram automaticamente a África do Sul, porque ela oferecia as possibilidades de partida mais rápidas.

A indústria sul-africana, então em pleno crescimento, saiu em busca de mão de obra qualificada. Mas, mais do que savoir-faire, seus recrutadores procuravam o futuro da nação branca sul-africana. No início dos anos 1960, o desequilíbrio demográfico entre negros e brancos se acentuou, enquanto a pressão política da descolonização incutiu no poder sul-africano uma mentalidade de sitiados. Diante do “perigo negro”, o primeiro-ministro Hendrik Verwoerd, um sociólogo conhecido como “o arquiteto do apartheid”, imaginou recrutamentos em massa. Segundo ele, a importação de imigrantes brancos, associada a uma mecanização sustentada, diminuiria a necessidade de mão de obra negra e permitiria o deslocamento progressivo dos africanos para “suas” reservas.1

Nos salões dourados do Carlton, em Metz, os caçadores de cérebro da Iscor zelavam pelo respeito aos critérios de seleção que ultrapassavam o estrito quadro industrial. Além de experiência profissional, os candidatos tinham de mostrar capacidade de integração na sociedade de apartheid sul-africana. Prioridade a famílias numerosas, se possível não católicas (os africâneres são em sua maioria calvinistas); mas os operários solteiros, os antigos colonos da Argélia francesa e os fura-greves também eram bem-vindos.

Os felizes eleitos ignoravam tudo a respeito de seu novo país. E a chegada se revelou frequentemente caótica. Depois de algumas noites em hotéis de Johannesburgo, eles eram levados para Vanderbijlpark, uma nova cidade industrial, a 80 quilômetros ao sul da capital econômica.

“Não tinha televisão, não tinha nada!” Como Simone, a maioria dos franceses ficou chocada com a austeridade do lugar. A região do Vaal, que abrigava a Iscor, tinha justamente sido escolhida a fim de isolar os siderúrgicos da influência sediciosa dos sindicalistas da região aurífera do Rand. Depois de uma breve estadia no hotel Pioneer, as famílias se instalavam nas casas colocadas à sua disposição. O bairro contava com diversas nacionalidades europeias. “Aqui, em Vanderbijlpark, os portugueses vendiam frutas e legumes, os gregos tinham pequenos mercados, cafés onde encontrávamos de tudo.” Membros da comunidade grega, instalados havia muito tempo, eram os donos dos únicos bares da cidade. “Eram principalmente os franceses que frequentavam”, lembra Marcel. “Às vezes éramos doze ou quinze, e todos queriam pagar sua rodada.”

A situação evocava para eles a dos imigrantes que tinham ido trabalhar nas fábricas francesas. “Eu me senti na pele deles”, explica Jean a respeito dos imigrantes espanhóis instalados no início dos anos 1960 no norte da França. “Eu comparava: como eu os via, as dificuldades que tiveram. Eles fizeram o sacrifício de falar francês, enquanto eu aqui tentei aprender a língua local, e isso me ensinou uma lição.” A integração às comunidades brancas passou pela aprendizagem das duas principais línguas do poder sul-africano: o inglês e o africâner.

Começou também uma difícil assimilação das normas e das regras da sociedade de apartheid. Se viver junto podia ser aprendido na França do norte, viver “separados, mas lado a lado” se revelava bem mais delicado na África do Sul, pois, em troca da vasta casa, do jardim e dos trabalhadores domésticos, pedia-se aos novos empregados e à sua família integrar-se à comunidade branca nacional. Na escola, os cabelos eram rapados, irmãos e irmãs eram separados e o francês foi proibido. Se, em certos estabelecimentos, o ensino acontecia em inglês, a Bíblia, por sua vez, só era ensinada em africâner. Difícil para os meninos integrar a equipe local de rugby: eles se contentavam com os campos ruins disponíveis para o futebol, onde os filhos de imigrantes italianos, espanhóis e alemães corriam durante os recreios.

Em casa, um negro não podia comer na mesa de um branco. O apartheid, instaurado em 1948, foi a continuação de uma antiga segregação do espaço. A tomada de poder do Partido Nacional estendeu a presença do Estado, que passou a penetrar em todas as esferas da vida. Já que era proibido que os negros dormissem na casa do mestre branco, arrumava-se um pequeno abrigo do lado de fora. Em 1952, com o reforço do controle de urbanização da mão de obra operária, o governo regulamentou estritamente os deslocamentos de todos os homens e mulheres negros de mais de 16 anos. Sua presença em “zona branca” fora dos horários de abertura da fábrica era proibida. Todas as noites, às 18 horas, a sirene soava em Vanderbijlpark, e os operários não brancos desapareciam em sua township, enquanto os trabalhadores domésticos eram proibidos de andar na rua até a manhã do dia seguinte.

Ainda que o regime racista não gerasse para Marcel nenhum problema moral ou político, sua situação de solteiro entrava em contradição com a segregação racial: “O problema com o apartheid é que não se podia sair com uma negra”. Nos cafés, impossível de se sentar à mesma mesa. De fato, entre outras leis discriminatórias, o Immorality Act (1950) fazia das relações sexuais entre negros e brancos um crime mais grave do que o adultério no seio de um mesmo grupo racial. Os solteiros brancos se dirigiam para o Lesoto, um país incrustado no meio da África do Sul onde prosperava a prostituição inter-racial. Progressivamente, os primeiros puteiros reservados aos brancos abriam em Johannesburgo e, com eles, a perspectiva de noitadas semanais. Mas, para o Estado, a estabilidade dos imigrantes repousava sobretudo na família. Daí a vontade de convencer as esposas a acompanhar os operários. Para isso, as autoridades conceberam em 1963 uma brochura intitulada “A mulher no lar imigrante na África do Sul”.

Fora do universo da prostituição, a segregação racial permanecia no plano de fundo para a maioria dos franceses. “Vivíamos aqui sem nos darmos realmente conta”, recorda Marie, também funcionária da Iscor. Alguns até têm saudades: “Nessa época eu deixava a porta da cozinha aberta. Não entrava ninguém. Às 6 horas, os negros voltavam para casa, não havia mais nenhum negro depois que a sirene tocava…”.

Em uma sociedade na qual a segregação era considerada uma forma de governo, a integração se revelou delicada. A reputação dos franceses variava, mas ainda assim era melhor que a de seus companheiros portugueses, que acabavam de chegar de suas colônias em Moçambique, Angola ou Madeira, considerados wit kaffer (“baratas brancas”). Marie se lembra de sua relação com a comunidade africâner: “Não nos sentíamos à vontade com eles. A gente percebia que eles não gostavam de nós, que as crianças repetiam o que ouviam em casa”. Longe da teoria das elites do apartheid segundo a qual os imigrantes brancos poderiam se tornar “verdadeiros africâneres”, os trabalhadores sul-africanos lembravam sistematicamente aos franceses sua identidade de frenchies. “Ouvíamos o tempo todo ‘fucking immigrants’!”, conta Jean, que se defendia lembrando aos africâneres sua ascendência holandesa ou huguenote: “Eles não vieram de lugar nenhum… Quando eu ficava bravo, dizia isso para eles!”. As mulheres que decidiam trabalhar na fábrica escutavam uma censura clássica: “Éramos acusadas de roubar o trabalho dos homens”. Todas as francesas se viam adornadas de apelidos que evocavam comportamentos levianos.

Os imigrantes brancos pagavam por um ressentimento surgido no início do século XX, quando os trabalhadores rurais africâneres empobrecidos se dirigiam para as cidades em busca de trabalho e encontravam novas comunidades imigrantes, frequentemente mais bem instruídas e já formadas para os trabalhos das minas ou da indústria. Em outras palavras, na fábrica, os homens sofriam outro estigma: até os últimos momentos do apartheid, os rumores de espionagem por uma “nação comunista estrangeira” pairavam sobre a comunidade francesa. O enquadramento pedia até mesmo aos mais antigos trabalhadores que espionassem os novos recrutas.

No entanto, para essas populações da Europa outrora precárias, filhos de arrendatários ou oriundas de famílias numerosas, as aspirações sociais se concretizaram. “Saíamos de férias no Cabo, não mais na região da Savoia na casa da titia…” Cada criança tinha seu próprio quarto; os empregados domésticos se encarregavam do serviço de casa. Quando terminaram os três anos do contrato ou a experiência na Iscor se revelava pouco interessante, alguns tentavam a sorte nas minas de ouro ou partiam para trabalhar nos novos centros industriais do leste.

No meio dos anos 1980, um ambiente de fim de reinado passou a pesar sobre as comunidades brancas. A perspectiva de uma queda do regime alimentava a paranoia. “Todo mundo tinha medo. Não realmente de Mandela”, precisa Marie, “mas de toda a população negra.” Como muitos brancos, Marcel se organizou para resistir a um cerco. “Em 1994 [ano da eleição de Nelson Mandela à presidência], na minha casa já estava tudo previsto, eu tinha mantimentos para sobreviver por um mês. Eu tinha até um ancinho para tirar as cortinas caso eles atirassem objetos incendiários. Tinha meus dois revólveres e pelo menos 250 balas.” Ele nunca teve de usar suas armas e as destruiu nos anos 2000.

Algumas expressões da época, no entanto, demoraram a desaparecer. Por exemplo, o insulto mais comum, que hoje caiu sob a força da lei: o termo kafir, que vem do árabe “infiel” e se tornou cafard (“barata”), em francês, depois de passar pelo português. É o termo utilizado por um dos franceses para designar seus novos vizinhos, assim como os atores negros que aparecem na antena da TV5Monde. Meio século depois de sua chegada, a maioria dos imigrantes franceses está aposentada. Os trabalhadores mais antigos se beneficiaram de medidas de aposentadoria antecipada em benefício dos operários negros. Os mais jovens, ainda em atividade, tiveram de se adaptar aos seus novos colegas, sem, no entanto se separar do quadro ideológico que os tinha conduzido às fábricas do Vale do Vaal.

*Charlotte Grabli e Thomas Lesaffre são, respectivamente, doutoranda em História (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Paris) e cientista político do Public Affairs Research Institute, da Universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo. As citações foram tiradas de entrevistas realizadas dentro de uma pesquisa comum.



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