MEMÓRIA VIVA E RESISTÊNCIA

Reinventando a luta urbana

Ancorada na comunidade e legitimada pela história do lugar, a Ocupação Cultural Mercado Sul Vive luta pela cultura popular, pelo direito à cidade e pela autonomia

por: Diego Mendonça, Keyane Dias e Webert da Cruz

Para além do traçado reto do Plano Piloto da capital, existem muitas linhas escondidas no Distrito Federal. Vidas e histórias que caminharam ao lado da construção de Brasília, mas foram abafadas na narrativa da cidade planejada e vendida como terra prometida. Uma dessas linhas é escrita no Mercado Sul, quadra comercial localizada na região administrativa de Taguatinga. Uma história que se iniciou há mais de cinquenta anos e que está sendo ressignificada, desde fevereiro de 2015, com a Ocupação Cultural Mercado Sul Vive, uma ação coletiva e autogestionada contra a especulação imobiliária que luta pelo direito à cidade e pela valorização da cultura popular.

O Movimento Mercado Sul Vive (MSV) está se consolidando por meio das dinâmicas provocadas pela ocupação, unindo fazedores de cultura, artesãos, coletivos parceiros e tantos outros trabalhadores e moradores que, diante de uma realidade de abandono do poder público e domínio do capital imobiliário, se organizaram e partiram para a ação. Essa diversidade de atores reivindica moradia, trabalho e o direito ao uso cultural coletivo de espaços abandonados, que limitavam a segurança e a saúde da comunidade.

Por meio do movimento de ocupação, o Beco da Cultura, como também é conhecido o Mercado Sul graças à sua movimentação cultural, tem se posicionado politicamente diante da sociedade local, entendendo que a propriedade deve cumprir uma função social. Para isso, busca amparo no Estatuto da Cidade, um dispositivo legal que o coletivo considera limitado, mas suficiente para a estratégia de luta.

“Enfrentamos complexos processos jurídicos, sentamos inúmeras vezes para negociar com os governos na esfera distrital e federal. Discutimos e avaliamos patrimônio material e imaterial, aprofundamos o sentido e conceitos de comunidade, cultura, movimento, estado e governo. Fomos e voltamos, fizemos cirandas e fogueiras, giramos a cidade em duas ou mais rodas construindo outros significados para a mobilidade urbana. Em síntese, não paramos, nos movimentamos constantemente no prazer de fazer o caminho caminhando”, afirma a carta que celebra um ano da ocupação.1

Esse recorte da carta apresenta uma característica marcante do Mercado Sul Vive, que é se identificar com os saberes das culturas tradicionais associados às dinâmicas e práticas dos novos movimentos sociais. O coletivo tem reforçado o sentido de comunidade, ancorado no território e no fazer cultural local, ao mesmo tempo que potencializa ideias e processos de caráter autonomista diante do Estado e do mercado.

 

Histórico de uma ocupação antiga

Quando se anda pelas ruas de Taguatinga Sul é fácil estranhar a arquitetura diferenciada de três conjuntos de lojas, formando dois estreitos becos. Resistindo ali, em meio aos grandes prédios e às áreas destinadas a igrejas, o Mercado Sul foi construído e inaugurado antes mesmo de Brasília, no fim dos anos 1950, sendo um dos primeiros centros comerciais do Distrito Federal. Boa parte da arquitetura original é mantida ainda hoje. Suas lojas serviram para abastecer os trabalhadores da região.

Nas décadas de 1970 e 1980, com poucos comerciantes ativos, o Mercado Sul foi povoado pela boemia, virou um reduto underground. Nessa mesma época, o Beco atraía poetas e músicos. Aos poucos, as lojas também passaram a servir como moradia e a receber pequenos empreendimentos que ofereciam serviços diversos.

Um ponto de virada se deu nos anos 1990 com a chegada de Mestre Dico, luthier e violeiro, um dos primeiros a firmar raiz. Ele mantém uma oficina no Mercado Sul até hoje, uma tradição familiar de gerações. Com o tempo, vários grupos se estabeleceram no local. Nos anos 2000, a formação do Ponto de Cultura Invenção Brasileira teve um importante papel de mobilização de artistas e jovens na região. Na esteira dessa movimentação chegaram a Oficina Tempo EcoArte, o Cineclube Motirõ, a EcoFeira e tantos outros coletivos que se consolidaram e continuam a semear os fazeres no Beco da Cultura.

 

Uma luta contínua

“Hoje, com a efervescência cultural e política trazida pelo processo de ocupação e com a chegada de novos grupos e atores para esse caldeirão, o Mercado Sul se confirma ainda mais como território de encontro, diversidade e criação artística em todas suas formas”, conta Nara Oliveira, integrante da ocupação. “Esses espaços de encontro estão tanto no dia a dia do lugar quanto nos eventos promovidos pela ocupação e coletivos locais. Essa movimentação vem com a certeza de que a cidade precisa de espaços para ser vivida, construída e transformada”, conclui Nara.

Diante de um cenário político complexo, em que o conservadorismo tem crescido, a Ocupação Mercado Sul Vive se destaca como um espaço de resistência, onde seus integrantes, comunidade e coletivos do Distrito Federal e entorno vivenciam e compartilham relações mais justas e solidárias na construção de um outro mundo possível. Abder Paz, também integrante do movimento de ocupação, acrescenta: “Neste momento, um dos nossos desafios é a luta pela garantia, o aprofundamento e o avanço dos direitos, ao mesmo tempo que travamos a disputa na construção de sentidos e narrativas na esfera cultural da sociedade”.

No processo de resistência, o coletivo deixa claro que não pretende abrir mão de suas raízes, sem com isso se fechar para a possibilidade de reinvenção. “A Ocupação Cultural Mercado Sul Vive tem em seu horizonte potencializar o que foi construído até aqui, se consolidando como um espaço colaborativo a serviço da diversidade, sempre se reinventando e experimentando”, diz Abder. Na caminhada, o grupo tem se referenciado nas experiências e lutas dos movimentos da cultura popular, quilombola, zapatista e Passe Livre, buscando unir perspectivas tradicionais com propostas de organização no meio urbano.

A luta do Mercado Sul Vive também está sendo travada no âmbito jurídico. Desde o primeiro dia de ocupação, o coletivo interpela recursos aos processos abertos pelo reivindicante proprietário dos espaços ocupados. Nessa área, o MSV conta com o suporte solidário da Assessoria Jurídica Universitária Popular Roberto Lyra Filho (Ajup), projeto que assessora o movimento em todas as causas judiciais e tem obtido significativas vitórias até o momento.

Esta é a história de uma das linhas que insiste em vislumbrar beleza e resistência fora dos traçados retos, distante das estruturas do poder institucional e da política hegemônica. Um ponto fora da curva nos tempos correntes. Em última medida, a experiência da ocupação insiste no direito de transformar o espaço urbano para ser mais do jeito e uso das pessoas, na busca por autonomia e sustentabilidade. Um respiro de esperança nos dias sufocantes de polaridade política e ascensão conservadora.

Diego Mendonça é mestre em Direitos Humanos e Cidadania e realizador audiovisual; Keyane Dias, jornalista, educadora e poeta, integra o Coletivo Eu Livre – Educação e Saúde; e Webert da Cruz é educador, comunicador popular, estudante de Jornalismo e pesquisador sobre educomunicação na Universidade Católica de Brasília.


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