FALA, CRIOULO: O QUE É SER NEGRO NO BRASIL - Le Monde Diplomatique

FALA, CRIOULO: O QUE É SER NEGRO NO BRASIL

agosto 5, 2009
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O racismo no Brasil se expressa pela definição de lugares para brancos e negros, como nos tempos da casa grande e da senzala. O direito à fala para os negros é concedido única e exclusivamente em lugares pré-determinados, e estes, via de regra, passam longe dos espaços de poder. Este livro tem o mérito de retratar aqueles que ousaram levantar a voz para além das senzalas ressemantizadas pelo sistema racista brasileiro.
A epígrafe, de Edison Carneiro, define como “crioulo, o negro nascido no Brasil”. A opção por este termo fica nítida: tratar da população afrodescendente brasileira, vitimada historicamente por um sistema social capitalista erigido sobre as bases da escravidão.
Falam, nesta obra, personalidades negras que romperam os muros do apartheid brasileiro, mas cujo sucesso não foi imune e nem imunizador do racismo demonstrado, por exemplo, no depoimento da ex-miss Brasil, Vera Lúcia Couto dos Santos: “Sai daí, crioula! Teu lugar é na cozinha! Não se manca não?” A violência passa pela desconstrução de qualquer possibilidade de um sujeito apagar seu passado, como afirma o artista plástico Emanoel Araújo: “Uma comunidade que nem sabe direito do seu passado”. Permanece, gerando obstáculos quase intransponíveis no presente, percebido no dizer da atriz Iléa Ferraz: “Viver com dignidade como artista negra é muito difícil”. E enfrentar o problema por meio de políticas de ação afirmativa não é a criação de um “racismo às avessas”, como detratores de plantão sugerem. As experiências de protagonismo negro existentes no Brasil não demonstram esta prática, conforme demonstra o professor Muniz Sodré, quando diz que “o único lugar no Brasil onde nunca vi e não vejo possibilidade de preconceito racial (…) é no Axé Opô Afonjá e outras casas de candomblé, pois lá ninguém está preocupado se você é mais claro ou mais escuro”.
Fala, crioulo é uma leitura importante não só para conhecer a trajetória de afrodescendentes brasileiros importantes, mas também para saber o quanto se perde ao negar oportunidades para a ousadia de mais e mais “crioulos”.



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