GUERRA DOS LUGARES – A COLONIZAÇÃO DA TERRA E DA MORADIA NA ERA DAS FINANÇAS - Le Monde Diplomatique

GUERRA DOS LUGARES – A COLONIZAÇÃO DA TERRA E DA MORADIA NA ERA DAS FINANÇAS

janeiro 4, 2016
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A obra descreve e resulta de uma trajetória particular, explicitando já de saída alguns de seus pontos de ancoragem – em especial a posição de observação privilegiada de sua autora como relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada por seis anos, a partir de 2008.

Os processos descritos têm múltiplas faces: de um lado, a face urbana, de outro, a da financeirização, que juntas se entrelaçam na dura transformação do solo em ativos negociáveis, na passagem que transforma terrenos e construções em dimensões crescentemente abstratas e monetarizadas, passíveis de serem desertificadas para enfim servirem perfeitamente e sem obstáculos aos propósitos da acumulação financeira.

Em um belo movimento narrativo que povoa situações, que permite entrever atores de carne e osso e, sobretudo, quem foi removido, expulso, deslocado, Raquel Rolnik produz interpretações, mobiliza conceitos, se utiliza de imagens e pistas que possibilitam compreender as relações entre capital financeiro e terra urbana.

Esse é um dos grandes destaques do livro – perceber, no relato de uma moradora de uma área sujeita a remoção no Rio de Janeiro, as artimanhas e movimentos de um processo internacional de financeirização, no registro de uma transformação ou de uma modulação do processo de acumulação do capital. Raquel Ronik percebe e problematiza especificidades locais, nacionais e urbanas, mas, sobretudo, percebe e problematiza política e historicamente esses contextos em sua densidade local.

“Muralhas de dinheiro em busca de ajustes espaciais para aterrissar”, balés fantásticos e, de certo modo, macabros que acordam e mobilizam financeiramente moradias até então imóveis, inertes e sem liquidez, milhões de pessoas removidas por todas as grandes cidades do mundo, sintomas e sinais mapeados, lutas pela cidade, lutas que desenham campos de força, são alguns dos elementos que se entretecem ao longo do livro.

Com Raquel Rolnik, o leitor pode percorrer países e cidades; pode se dar conta da dimensão mundial, da escala e do alcance dos processos urbanos que se desenham em favelas, nos contextos pós-desastres, no decorrer das remoções, nos lugares dos pobres das cidades do mundo, em especial do chamado Sul global.



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