NASCI PARA CANTAR E SONHAR: DONA YVONNE LARA, A MULHER NO SAMBA - Le Monde Diplomatique

NASCI PARA CANTAR E SONHAR: DONA YVONNE LARA, A MULHER NO SAMBA

Março 5, 2009
compartilhar
visualização

A autora introduz seu trabalho situando a pouca relevância dada às mulheres compositoras desde o tempo dos grandes nomes da música clássica. Só apareciam como ouvintes, musas ou intérpretes. Fala de tia Ciata, lembrando grandes intérpretes da nossa música, como Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, Rosinha de Valença, Maysa e Jovelina Pérola Negra, que tiveram certa visibilidade. Destaca, no entanto, Dona Yvonne Lara, apontada por sambistas de diferentes gerações como representante do universo do samba, este que possui significados complexos de religião, arte, afro-descendência e brasilidade.
Nasceu em 1921 e passou a infância em Botafogo, época em que perdeu a mãe e se mudou para casa da tia em Madureira. Ao longo dos anos, Dona Yvonne se posiciona como mulher negra consciente e crítica, buscando independência econômica e respeitabilidade na sociedade patriarcal em que vivemos. Formou-se em enfermagem e arranjou emprego como assistente social no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, onde trabalhou até se aposentar em 1977, tendo a música apenas como lazer. Cantava pelo prazer de cantar. Fez músicas em parceria com Silas de Oliveira e foi a primeira mulher na ala de compositores de uma escola de samba. Só após a aposentadoria, aos 56 anos, é que Dona Yvonne passou a se dedicar profissionalmente à música.
Analisando o contexto social brasileiro, verificamos que o fato de ser mulher e negra atrapalhou sua consagração  como artista popular antes da idade madura. É dessa forma que a autora situa o machismo existente na sociedade brasileira e no meio do samba. Ao mesmo tempo, o casamento não limitou a vida profissional de Dona Yvonne nem seu contato com o candomblé ou o jongo, que lhe deu uma visão de mundo com autonomia de voo para as mulheres.
O livro revela o preconceito de nossa sociedade em relação à mulher sambista, que se recusa a ser limitada pelos homens, com uma consciência crítica da realidade em que vivemos. Boa leitura para quem aprecia nossa cultura popular.



Artigos Relacionados