A revolta das domésticas na Índia - Le Monde Diplomatique

“AMEAÇARAM ME JOGAR NA LATA DE LIXO”

A revolta das domésticas na Índia

por Julien Brygo
novembro 2, 2017
Imagem por Flavia Bonfim
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Elas trabalham para bilionários, mas também para as florescentes camadas médias. Vindas do campo e destituídas de direitos reais, as empregadas domésticas são cada vez mais numerosas na Índia. Raras são as revoltas. Contudo, em uma noite de julho, elas ousaram confrontar os patrões…

Mais de um mês se passou. No crepúsculo do parque, onde brincam macaquinhos, esquilos e passarinhos, Zohra Bibi1 volta a mergulhar na sequência de eventos. A chegada à casa de sua patroa, as bofetadas, a fuga, o celular confiscado, a noite inteira presa no condomínio; depois, de manhãzinha, a chegada de suas colegas, armadas com paus, pedras e gritos de vingança.

Era 12 de julho. Zohra Bibi, de 29 anos, uma das quinhentas trabalhadoras domésticas do Mahagun Moderne – conjunto de 21 torres residenciais localizadas em Noida, nos arredores de Nova Déli –, chegava à casa de sua patroa, Harshu Sethi. “Todos os dias eu me levanto às 5h30 da manhã para estar no trabalho antes das 7 horas e preparar o café. Nós, as domésticas, permitimos que nossos patrões economizem muito tempo, realizando as tarefas domésticas para eles. Com meus oito empregadores, eu chegava a ter um salário de 17 mil rúpias [R$ 850]. Faço isso há doze anos. Meu filho mais velho, meu marido e eu construímos o Mahagun Moderne e outras torres, trabalhando nas obras. Quando os moradores chegaram, cruzei os portões uma manhã pedindo emprego e me tornei doméstica.”

Procurados pela polícia desde 13 de julho, Zohra Bibi e seu marido, Abdul, estão escondidos em um apartamento secreto, longe de Noida, pelo sindicato Gharelu Kamgar Union (GKU), não registrado, que afirma ter 7 mil membros. Na noite do dia 12 para o dia 13, a polícia foi à casa de Harshu Sethi a pedido do marido de Zohra Bibi. Como não conseguia encontrá-la, Abdul informou seus colegas e vizinhos no início da manhã, provocando uma revolta de amplitude inédita, que deixou perplexas as classes indianas mais abastadas. Vestindo uma kurta alaranjada, com as mãos cruzadas, Zohra Bibi, que usa na linha do cabelo um fino fio de contas laranja – “para pensarem que sou hindu e evitar problemas desnecessários” –, faz parte das dezenas de milhares de pessoas, sobretudo muçulmanas, que saíram de Bengala Ocidental para viver nas grandes cidades.

Em Noida, os arranha-céus de concreto elevam-se como promessas de um futuro radioso, com ar-condicionado, internet rápida, piscinas olímpicas, segurança particular e muitos empregados domésticos. Como campos de cogumelos gigantes, os grandes condomínios disputados pelas “classes médias” – um agregado eclético de trabalhadores independentes, executivos, autoridades, médicos e advogados fugindo da superpopulação e dos preços exorbitantes dos imóveis de Nova Déli – concretizam o sonho de uma global class indiana. Esses condomínios dos subúrbios não abrigam os ultrarricos – segundo a revista norte-americana Forbes, a Índia tem 101 bilionários, tendo ficado, em 2016, em quarto lugar no mundo nesse quesito, logo depois de Estados Unidos, China e Alemanha –, mas são desejados por pessoas abastadas, atraídas por uma vida ao estilo ocidental. “Viva em Noida, sinta-se em Roma”, anuncia o empreendimento Romano; “Outro lugar, outro mundo”, resume o outdoor do Jaypee Greens, bem ao lado de uma favela onde um batalhão de empregadas domésticas mora em barracos cobertos com telhas de metal.

O dia 13 de julho parecia anunciar uma manhã como qualquer outra nas torres do Mahagun Moderne (Manhattan, Venezia, Eternia…) e seu cenário de paraíso de gesso – quadras de tênis, jardins sombreados, campos de minigolfe. O tipo de manhã em que as “senhoras” levam as crianças para a escola ou se preparam para a aula de ioga, enquanto os maridos pedem pelo smartphone um motorista Ola ou Uber para chegar aos escritórios da capital. E em que ambos confiam seus apartamentos aos panos e vassouras das empregadas. Dessa vez, no entanto, as coisas foram diferentes. Muitas centenas de trabalhadoras, com seus companheiros e colegas de infortúnio da favela – trabalhadores da construção civil, motoristas de riquixá, vendedores de legumes –, quebraram as portas do complexo para resgatar Zohra Bibi, que consideravam estar em perigo, tornando-se assim, durante o tempo de uma revolta, visíveis.

Sobre a cronologia exata do incidente que a opôs à sua patroa, Zohra Bibi se mantém evasiva. No mesmo dia, três queixas foram registradas, da empregadora, dos residentes e da administração do Mahagun, por “motim”, “danos à propriedade privada” e “tentativa de assassinato”. Em compensação, a do marido de Zohra contra Harshu Sethi, por “sequestro”, foi arquivada dez dias após a revolta. Por enquanto, o caso está nas mãos da justiça e qualquer palavra a mais pode ser usada contra Zohra Bibi. “O que posso dizer é que no dia em que fui cobrar meu salário atrasado, cerca de 7 mil rúpias [R$ 350], a Sra. Sethi me deu uma bofetada, me empurrou e ameaçou ‘me jogar na lata de lixo’. Eu tinha ido cobrar as horas de lavagem de roupa, que não faziam parte das minhas tarefas. Ela gritou comigo, exigindo que eu lhe devolvesse 17 mil rúpias [R$ 850], mas eu não tinha roubado nada. Depois de bater várias vezes no meu rosto, ela quis me denunciar para os seguranças, e assim eu perderia todos os meus empregadores. Fiquei a noite toda no Mahagun Moderne. De manhãzinha, os seguranças vieram me procurar para me tirar dali.” Nunca antes as classes superiores indianas haviam enfrentado uma revolta de tal magnitude por parte de seus empregados. “Eles são como um osso na garganta, não podemos engoli-los nem cuspi-los”,2 declarou Sandhya Gupta, uma moradora, a um repórter do New York Times.

Presa e agredida

Um mês após a rebelião, o escritório do Mahagun Moderne abriu suas portas para nós. A sala, luminosa, é adornada com imagens de dezenas de projetos faraônicos (Mahagun Maestro, Mahagun Manor, Mahagun Mansion…). Manish Pandey, chefe de comunicação, orgulha-se de seu produto: “No shopping center, teremos 64 lojas. Temos também uma escola primária e todas as atividades de lazer: tênis, piscina, basquete, espaço fitness. São 2,6 mil pessoas vivendo aqui, em um espaço de 25 hectares. Os apartamentos variam do padrão clássico, com um quarto, sala e cozinha, até acomodações de luxo, com 137 metros quadrados”. Quando falamos das empregadas que se aglomeram nos corredores de serviço de um apartamento a outro, de uma tarefa a outra, de manhã até a noite, em horários inacreditáveis e sem local de descanso, nosso anfitrião faz uma careta. Ele admite que “não há servant quarter [locais reservados aos trabalhadores domésticos] para elas”. Mas acrescenta que isso não é motivo para manchar a reputação do condomínio. “Não escreva nada negativo sobre nós. Não fale sobre esse incidente do mês passado. Tudo voltou ao normal. Nossos 120 seguranças conseguiram lidar perfeitamente com a situação.”

No dia seguinte ao confronto, as autoridades locais destruíram dezenas de shanti, bancas de frutas e legumes localizadas em frente à entrada principal do Mahagun Moderne, mantidas por bengaleses suspeitos de terem se juntado à multidão. Na favela, onde os trabalhadores têm de pagar a autoridades locais 10 mil rúpias de taxa de instalação (R$ 500) e 700 rúpias mensais de aluguel (R$ 35), 58 homens foram presos e molestados, e seus barracos foram destruídos pela polícia.3

A efusão de solidariedade coletiva foi seguida pelo medo de ser fichado, preso ou despojado de seu ganha-pão. “Naquela manhã, nos reunimos para resgatar nossa colega”, recorda Amina Bibi, uma vizinha de Zohra Bibi. “Não sabíamos o que tinha acontecido com ela e, quando os seguranças a expulsaram, vimos que ela estava muito frágil. Ela tinha sido mantida dentro do condomínio a noite toda e apanhou.” O marido de Amina Bibi é um dos treze manifestantes que, até o final de agosto, ainda não tinham sido soltos da prisão de Dasna, a várias horas de Noida. Seu julgamento deve ocorrer este ano. Mas, enquanto esperam, seus familiares temem que eles não suportem tanto tempo apodrecendo na cela.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que adotou a primeira convenção sobre o tema em 2011,4 o número de trabalhadores domésticos em todo o mundo aumentou 60% entre 1995 e 2011. Na Índia, não é necessário importar trabalhadoras filipinas, as mais cotadas no mercado mundial.5 Formadas especificamente no modelo das criadas disponíveis 24 horas por dia, conhecido pelos países europeus – inclusive a França – até meados do século XX, elas seriam muito caras. Os milhões de empregadas domésticas que trabalham em tempo parcial nos apartamentos ricos das grandes cidades indianas vêm dos estados mais distantes (Bihar, Jharkhand, Uttar Pradesh, Assam e Bengala Ocidental). Os motivos de seu êxodo incluem a pobreza nas áreas rurais, mas também, como na Ásia central, o financiamento dos onerosos casamentos, nos quais a família da mulher deve, além de pagar um dote, arcar com todas as despesas cerimoniais.6

No terceiro andar de uma das 21 torres do Mahagun Moderne, Sharad, com um gesto seguro, coloca um fino disco de massa sobre a chama do fogão. O pão estala, escurece e forma uma linda bolha apetitosa que, ao murchar, vai para o cesto junto com os outros chapati. Concentrado em sua tarefa, deixa escapar um olhar desconfiado. “Ele não vai falar com vocês”, adverte Savita.7 “Os domésticos vindos dos distritos de Cooch Behar e Maldah [de onde vem Zohra Bibi] não podem mais trabalhar aqui.” Após o confronto, a administração do condomínio estabeleceu uma lista de 140 pessoas que foram banidas para sempre do local. “A maioria dos rebeldes foi identificada com base em vídeos de câmeras de segurança e menções na mídia”, confirma. “Sharad conseguiu sair da lista porque escrevemos uma carta de recomendação para mantê-lo conosco. Melhor não falar com ele.”

Professora universitária, Savita declara-se marxista, assim como seu companheiro, Anshuman, que ensina literatura inglesa em Nova Déli. Para eles, o caso é menos escandaloso pela amplitude da exploração que revela do que pelas acusações que foram feitas, em muitos meios de comunicação, fóruns e redes sociais, contra Zohra Bibi, muçulmana, e suas colegas. “Elas não são bengalis, são indianas, têm título de eleitor e direito de trabalhar. Não são migrantes sem documentos e não vieram para fazer jihad!” A profusão de comentários racistas os deixou arrasados, já que a questão religiosa é muito sensível na Índia.

Depois de falar de Friedrich Engels, Pierre Bourdieu e François Mitterrand, o casal nos convida a sentar com Alok Kumar, sindicalista da GKU que nos levou à sua casa; Sharad desaparece. “Os empregados domésticos estão lá porque são necessários, um pouco como o ar-condicionado”, disse Anshuman. “É difícil imaginar a vida sem eles: a louça sem lavar, o chão sem limpar. É inconcebível”, continua.

Grupos de WhatsApp com recomendações

Se o confronto de 13 de julho teve tanta repercussão não é só porque as revoltas coletivas de empregados domésticos são raras, tanto na Índia como no resto do mundo. É também porque as classes abastadas indianas não podem mais ignorar completamente a natureza de seu relacionamento com esses empregados, que evolui cada vez mais do modelo da doméstica integrada à família para o da trabalhadora que cumpre apenas algumas horas por dia. Os empregadores não querem mais ser incomodados com uma presença ininterrupta dentro de casa. Eles querem apenas delegar as tarefas penosas e ganhar tempo. Anshuman analisa: “Há uma oferta infinita de trabalhadores domésticos migrantes nas grandes cidades indianas. Hoje, é um mercado no qual um trabalhador pode ser substituído por outro da noite para o dia. Portanto, não há mais vínculo. Antes, havia ‘empregadas’ 24 horas por dia, crescíamos e vivíamos com elas. A modernidade é o hire and fire [contratar e dispensar] de trabalhadoras de tempo parcial. Para encontrar uma, basta chamar da sacada: é parte do cotidiano das classes médias, da cultura feudal em que fomos criados”.

Embora gritar da sacada possa ser uma das técnicas de recrutamento, o método mais utilizado são os grupos de WhatsApp. Pelo aplicativo foi criada uma espécie de intranet dos 2,6 mil moradores ultraconectados por meio de seus smartphones – um fórum no qual se compartilham informações e nomes de boas e más domésticas.

Savita e Anshuman dizem ganhar cerca de 200 mil rúpias por mês (R$ 10 mil, quase vinte vezes o salário médio). Eles pagam por mês 3.500 rúpias (R$ 175) à empregada que faz a limpeza – para dois serviços de duas a três horas por dia, de manhã e à noite (tirar o pó, lavar a louça, limpar o chão). Já a cozinheira recebe 4 mil rúpias (R$ 200) para preparar as refeições diariamente, que deixa na cozinha antes de sair. “Nossos empregados nos permitem economizar tempo e nos concentrar em nosso trabalho e em nossa vida familiar. Mas não conseguem nem pagar o ônibus, de tão baixos que são seus salários!” Não caberia a eles aumentar? Mas, como gostam de lembrar, o pagamento irrisório que oferecem “já” é cinco vezes maior que o salário médio praticado em Bengala Ocidental – um argumento que ajuda os empregadores a conter seus impulsos de generosidade.

Do trabalho doméstico aos serviços de internet, passando pelo secretariado e muitos outros setores, os trabalhadores indianos costumam negociar caso a caso. No país com 1,3 bilhão de habitantes, quase 80% do mercado de trabalho é informal. A subcontratação das tarefas domésticas é o óleo que lubrifica o motor da sociedade. Os trabalhadores domésticos, muitas vezes oriundos de castas inferiores, não contam com nenhuma legislação ou direitos específicos. De acordo com um estudo do National Sample Survey Office (NSSO, o serviço de estatísticas da Índia), seu número chegaria a 4,5 milhões de pessoas, sendo 3 milhões de mulheres. Sindicatos e organizações de direitos humanos falam em 20 milhões – o que faria da Índia o maior reservatório de mão de obra doméstica do planeta.

Em 2014, segundo um estudo do Ministério do Desenvolvimento da Mulher e da Criança, 3.511 trabalhadores domésticos prestaram queixa de violência física contra seus empregadores – sem contar as dezenas ou centenas de milhares de mulheres que não têm coragem de procurar a justiça.8 Só a violência mais extrema consegue furar essa bolha de silêncio. Em 10 de março de 2017, em Gurgaon, cidade-satélite semelhante a Noida, uma jovem de 17 anos, Ranjitha Brahma, teria sido atirada da varanda do 11º andar da torre Carlton Estate por sua patroa, Sonal Mehta, esposa do vice-diretor da filial indiana do Bank of America Merrill Lynch. Os agentes da polícia local preferiram manter a hipótese de suicídio, apesar de a perícia médica apontar numerosas lesões faciais.9 Ainda não foi marcada data para um eventual processo por incitação ao suicídio (Seção 306 do Código Penal indiano). “Coisas assim acontecem nesses condomínios. As vítimas são sempre migrantes, assediadas tanto pela polícia como pelos empregadores”, lança Anshuman. Para ele, “o movimento de 13 de julho não tinha nada de ideológico. Foi uma reação à perversidade de algumas patroas, só isso”.

Kumar, o sindicalista, não compartilha desse ponto de vista. “Sua revolta é ideológica no sentido de que elas se organizam criando alianças entre si, com os cozinheiros, mas também com algumas patroas progressistas, a fim de lutar pelo aumento dos salários e principalmente acabar com as represálias injustas e a violência cotidiana. As conquistas sociais sempre começam dessa maneira, sem uma palavra de ordem clara, a não ser a de salvar a própria pele. O que houve é que colegas se uniram e lutaram por seus direitos. Não seus direitos legais, pois elas não têm nenhum, mas seus direitos como seres humanos e trabalhadoras. Nós, sindicato, chegamos após o confronto para tentar estruturar o movimento, ligá-lo a outras lutas e especialmente proteger as pessoas mais expostas, como Zohra Bibi, seu marido e as mulheres dos treze homens presos.”

“Pesquise os antecedentes criminais”

Em uma sala de reunião, uma delegação de empregadores de domésticos concordou em responder às nossas perguntas. Anoop Mehrotra, executivo de uma empresa de telefonia, expressa o sentimento geral. “Foi um complô criminoso, não uma guerra de classes. O ataque foi planejado por alguém. Como se consegue reunir trezentas ou quatrocentas pessoas em uma manhã? Há um cérebro por trás disso. Alguém reuniu e organizou a horda. A horda não queria discutir ou conhecer a verdade, queria matar a família. Chegamos a esse ponto.” Em Noida, um caso de violência ganhou as manchetes na última década: o assassinato de Lalit Kishore Chaudhary, CEO indiano da empresa italiana de autopeças MNC Graziano Trasmissioni, morto em 2008 a marteladas durante uma revolta de duzentos trabalhadores que tinham acabado de receber a notícia de sua demissão.

Jagjit Singh, gestor hospitalar em Nova Déli, concorda: “Por que permitir que um empregado venha a sua casa, sirva seu café da manhã, limpe, retorne à noite, faça uma nova limpeza, se há ódio? Se eu trabalho em algum lugar, não posso me permitir odiar meu empregador. Senão, é melhor me demitir. De maneira premeditada, esse pequeno incidente se transformou em um grande incêndio”.

Os empregadores receberam inúmeros apoios, sobretudo por parte da polícia, que organizou sessões de confidence building [reforço da confiança] com os moradores, e também por parte das autoridades centrais. Em 16 de julho, o ministro da Cultura do governo de Narendra Modi, Mahesh Sharma, um homem acostumado a declarações antimuçulmanas, antissaias e antiocidentais,10 garantiu que os manifestantes seriam banidos da sociedade: “Não há dúvida de que a família Sethi seja inocente. Um grupo de pessoas se reuniu com o propósito de ferir e matar. Garantirei pessoalmente que elas não sejam libertadas sob fiança pelos próximos anos. Vamos lutar por isso, em nome da família Sethi”.11

Desde então, surgiram novas práticas entre os moradores do Mahagun. “Com a compra conjunta de máquinas de lavar louça e a contratação de empresas especializadas, trabalharemos com pessoas que virão a nossa casa, mas não terão nenhuma relação conosco. Não saberemos seu nome e não lhes daremos uma xícara de chá… Como nos Estados Unidos”, lamenta Jagjit Singh. Passar para o sistema de subcontratação é algo já decidido por Harshu Sethi, a empregadora de Zohra Bibi, que nos concedeu uma entrevista.

A vidraça quebrada, a cozinha revirada, o terraço invadido por dezenas de trabalhadores. Essa professora de ensino primário, casada com um capitão da Marinha Mercante, ainda é assombrada por essas imagens. Naquele dia, ela pensou que fosse morrer. “Na escola, ensino aos meus alunos os bons valores, a moral, a alegria interior. Sou uma pessoa muito positiva, mas esse incidente me deixou muito negativa em relação à humanidade.” Desde a revolta, ela parou de contratar empregados domésticos de maneira particular: chama a JustClean, uma empresa de limpeza “de estilo americano”. Para ela, as empregadas “não entendem a linguagem do amor. São perversas. Nós também trabalhamos duro. Com que direito querem nos matar? Eles tinham pedras, barras de ferro, só deu tempo de nos trancarmos no banheiro, onde ficamos 45 minutos. Eles queriam me matar ou me estuprar. Se as pessoas têm um crime na cabeça, ninguém pode detê-las. É como os ataques na França ou em Barcelona, quem pode fazer alguma coisa a respeito? Temos seguranças, mas, se quatrocentas pessoas forçam os portões, não há nada que se possa fazer”.

Para além da polarização quanto à origem supostamente bengali e potencialmente jihadista dos manifestantes (acusações completamente descartadas pelos empregadores com quem conversamos), o confronto no Mahagun Moderne repercutiu em muitos grandes condomínios da Índia. No dia 22 de julho, em Chennai (antiga Madras), cerca de cinquenta empregadas domésticas organizaram uma manifestação de solidariedade a Zohra Bibi. “Em 30 de julho de 2017”, relata a jornalista Aakash Joshi, “os moradores de um condomínio de alto padrão em Gurgaon foram acordados por trabalhadoras domésticas reivindicando melhores salários. ‘Estamos todos trancados em casa. Após o incidente em Noida, é melhor ter cuidado’, destacou um deles.”12 Em outro condomínio de Noida, os administradores enviaram aos moradores dez recomendações, entre elas: “Pesquise os antecedentes criminais de seus empregados”; “Antes de contratar empregados domésticos, certifique-se de que sua segurança está garantida”; “As câmeras de segurança instaladas nas áreas comuns do condomínio podem ser usadas para registrar qualquer atividade de seus empregados em sua ausência”. Será que a sociedade do serviço informal em torno da qual se organiza a classe indiana abastada só é viável por trás de um arsenal completo de paredes, seguranças particulares e equipamentos de vigilância contínua?

*Julien Brygo, jornalista, é autor, com Olivier Cyran, de Boulots de merde! Du cireur au trader – Enquête sur l’utilité et la nuisance sociales des métiers [Trabalhos de merda! Do sapateiro ao corretor financeiro – Pesquisa sobre a utilidade e o prejuízo social das profissões], La Découverte, Paris, 2016.



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