Revolução em versos - Le Monde Diplomatique Brasil

POESIA

Revolução em versos

por André Rosa
Março 7, 2018
Imagem por Antonio Marín Segovia
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A nova linguagem poética surgia juntamente com a figura do “novo homem socialista”. Era preciso uma linguagem que dialogasse com o homem das fábricas e das ruas, que abandonasse o transcendental tipicamente simbolista; uma linguagem veloz e que acompanhasse o ritmo histórico daqueles tempos

No início do século XX, quando o Império Russo já vislumbrava a sua derrocada e os germes da Revolução se mostravam cada vez mais nítidos, o pensamento revolucionário alcançava também a literatura de modo bilateral: de um lado, na reconstrução da forma; do outro, na composição de um papel político. Se Guerra e Paz, no século XIX, do também russo Liev Tolstói, descreveu os pormenores da guerra napoleônica na Rússia, a obra de Vladímir Maiakóvski cantou em versos a Revolução de 1917.

A presença de elementos revolucionários na poesia russa já era visível nos versos de Púchkin, um dos maiores poetas da língua, que retomava o martírio dos dezembristas e a decadência da burguesia, como em Ievguêni Oneguin, onde um dos heróis era parte dos insurretos. Esse ímpeto de mudança, que pairava cada vez mais sobre a Rússia e o seu povo, havia chegado também à literatura. Górki e os seus contos socialistas, Turguêniev e o niilismo, Kuzmin e a homossexualidade – as inovações explodiram também na prosa. Parafraseando o poeta Liérmontov, começava a surgir no horizonte “o herói do nosso tempo”.

Na poesia, em meados de 1913, Maiakóvski já rompia com a tradição formal em poemas como “De rua em rua” e “Balalaica”, que brincam com jogos sonoros e imagéticos através da técnica que chamavam de pierieviérti (inversão), com a qual as palavras eram montadas e desmontadas, reaproveitadas em novas rimas e trocadilhos. Tratava-se de um longo período que alcançaria o seu ápice no século XX, com a Revolução Bolchevique e os movimentos de vanguarda artística.

O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, em seu livro Temor e Tremor, nos apresentou o poeta como um gênio da recordação, de modo que o seu papel se limitava à admiração e à apresentação do que foi cumprido pelo herói, através da poesia. Os poetas russos foram muito além. Mais que contar os feitos dos heróis, que romperam com a velha ordem tsarista, foram eles também protagonistas de uma revolução que se deu no campo das artes. Na prática, fizeram jus à décima primeira tese sobre Feuerbach, de Marx, que ensinou que mais que interpretar o mundo, era preciso modificá-lo. Ou ainda, como pontuou o tradutor Boris Schnaiderman, no primeiro prefácio à Nova antologia da poesia russa moderna, de 1967, “a grande convulsão social requeria uma linguagem desvinculada dos padrões herdados de uma época de tranquilidade burguesa. A poesia das praças e dos comícios não podia falar a linguagem dos salões e das academias”.

A nova linguagem poética surgia juntamente com a figura do “novo homem socialista”. Era preciso uma linguagem que dialogasse com o homem das fábricas e das ruas, que abandonasse o transcendental tipicamente simbolista; uma linguagem veloz e que acompanhasse o ritmo histórico daqueles tempos.

Maiakóvski, que foi um dos principais poetas dessa geração, teve contato com a política bastante cedo, de modo que a sua primeira condenação veio aos 15 anos de idade, em 1908, acusado de promover a desordem sob forma de agitação e propaganda. O interesse pela arte e as suas possibilidades de ação surgiu quase que simultaneamente e, tão logo viu-se livre da prisão, inscreveu-se na Escola de Belas Artes de Moscou, onde finalmente conheceu o pintor e poeta David Burliúk.

Mais tarde, em 1912, os dois amigos, junto de poetas como Khliébnikov, Kamiênski e Krutchiônikh, assinaram o manifesto Bofetada no gosto público e, assim, fundaram um movimento de vanguarda artística que ficaria conhecido como futurismo, um apelo à derrubada das caducas fronteiras da arte burguesa. No manifesto, chamam a atenção para a necessidade de ruptura com os antigos poetas, como Púchkin, que segundo eles “havia se tornado mais incompreensível que os hieróglifos”, e que por isso mesmo, junto com outros cânones nacionais como Tolstói e Dostoiévski, deveria ser esquecido, pois achavam que somente deixando o velho se poderia verdadeiramente abraçar o novo.

Não tratava-se de uma questão meramente ideológica, pois nem mesmo o autor socialista Máksim Górki foi poupado dos ataques; tratava-se, pois, de uma questão, acima de tudo, de linguagem, como fica explícito no manifesto. O problema ideológico se dava entre o futurismo dos poetas comunistas e o ego-futurismo de Igor Sievieriánin, ou mesmo o futurismo italiano de Filippo Marinetti, notório fascista. Por este mesmo motivo, foi atribuído aos futuristas de esquerda prefixo “cubo”, cubofuturistas, que passou a diferenciá-los em relação aos demais, em especial ao ego-futurismo e ao futurismo italiano.

Maiakóvski juntou-se aos grandes nomes da literatura, fez a revolução em versos. A sua poesia atravessou fronteiras e inspirou jovens em todo o mundo. Nos permitiu sonhar quando ditaduras assassinavam as esperanças. Foi letra de Caetano Veloso e nos ensinou que gente existe para brilhar. Acreditava que no Brasil vivia um homem feliz. Suicidou-se em 1930, aos 36 anos. O barco do amor havia se chocado contra a vida cotidiana, como escreveu em sua última carta. Neste centenário da Revolução (1917-2017), a voz grave do poeta ainda pode ser ouvida onde quer que estejamos.

 

*André Rosa é escritor e tradutor. Traduziu, entre outros, poetas russos como Aleksándr Blok, Aleksándr Púshkin, e Véra Ínber.



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