SELO BOITATA

Há uma frase erroneamente atribuída ao escritor inglês George Orwell, que estampa incontáveis adesivos, camisetas e afins e diz: “Em tempos de decepção universal,[...]
1 de março de 2016

Há uma frase erroneamente atribuída ao escritor inglês George Orwell, que estampa incontáveis adesivos, camisetas e afins e diz: “Em tempos de decepção universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário”. A frase nem soa tão orwelliana assim, mas, paternidade questionável à parte, ela cai como uma luva para analisar a importância de dois preciosos livrinhos que a Boitempo, em seu novo selo infantil Boitatá, acaba de publicar: A ditadura é assim, desenhado por Mikel Casal, e A democracia pode ser assim, com ilustrações de Marta Pina.

Publicados originalmente entre 1977 e 1978 pela editora espanhola La Gaya Ciencia, pouco depois da morte do ditador Francisco Franco (e com os militares ainda no poder por aqui), esses dois primeiros volumes trazem consigo a atualidade própria das obras que, despidas de excessos, vão direto ao ponto. Afinal de contas, se alguém quer entender o mundo à sua volta, que tente explicá-lo para uma criança. E como fazê-lo com um noticiário tão efervescente como o do Brasil de hoje?

Torna-se tarefa quase impossível escapar do clichê de que muitos adultos, especialmente aqueles que dirigem os rumos da nossa política, se beneficiariam da leitura desses livros quando se leem definições como esta: “A democracia é como um recreio, em que todos podem brincar de tudo. Mas, como em todos os jogos, no jogo da democracia também existem regras”.

Enquanto o volume sobre democracia encerra certa sobriedade poética, o que trata das ditaduras é construído com um irresistível e poderoso tom de ironia satírica. Em comum, as belíssimas ilustrações, que convidam a um olhar vagaroso, examinando cada detalhe. A série mantém o título de quando foi lançada, há quase quarenta anos: Livros para o Amanhã. A pertinência desses pequenos volumes mostra que, infelizmente, esse amanhã ainda não chegou; a sombra do autoritarismo, seja montado em armas ou apoiado em votos, continua à espreita. Oxalá esses livros se tornem datados um dia…



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