Simone Weil, o engajamento absoluto - Le Monde Diplomatique

FEMINISMO

Simone Weil, o engajamento absoluto

agosto 3, 2016
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O pensamento e a trajetória de Simone Weil (1909-1943) permanecem desconhecidos fora dos círculos especializados. Além de filósofa destacada do século XX, ela foi uma mulher de luta: implicada nas batalhas e debates de seu tempo, Weil deixou sua marca na cultura política da esquerda. Após sua morte, sua obra foi em graOlivier Pironet

Em 1931, Simone Weil, aos 22 anos, recém-nomeada professora de Filosofia, instalou-se em Puy-en-Velay, uma comuna da região mineradora de Haute-Loire, para ensinar ali em um liceu de moças. O diretor da Escola Normal Superior (ENS) de Paris, Célestin Bouglé, comemorou. Aquela que ele via como um “misto de anarquista e carola” o exasperava por seu espírito de contestação e militância, por isso ele desejava vê-la nomeada “o mais longe possível, para que nunca mais ouvisse falar dela”.1
A chegada de Simone Weil a Puy representou uma etapa importante no percurso da filósofa, inteiramente marcado pelo engajamento na bandeira da solidariedade para com os desafortunados: “Desde a infância, minhas simpatias se voltaram para os agrupamentos que se reclamavam como as camadas desprezadas da hierarquia social”, confiou em uma carta de 1938 a Georges Bernanos.
No Liceu Henri IV, o filósofo Émile Chartier (cujo pseudônimo era Alain), humanista e fervoroso pacifista, ensinou a ela que a reflexão e a ação são inseparáveis e que o saber só se torna autêntico por meio da experiência. Ela colocou a lição em prática… Era uma época de marchas militares, com o crescimento do fascismo na Europa. Logo explodiu a crise de 1929, que provocou o aparecimento do espectro do desemprego em massa. A vida política do país estava então dominada pelo Partido Radical (centro-esquerda) e pela instabilidade parlamentar. Socialistas e comunistas rivalizavam para conquistar para si a classe operária.
Desde 1927, Simone Weil integrava um coletivo pacifista do qual participava ativamente. No ano seguinte, ela assinou uma petição contra a preparação militar obrigatória imposta aos estudantes do curso normal e lançou pedidos de doações para os desempregados junto de seus camaradas. Em paralelo a seus estudos na ENS, ela dava aulas de Literatura para os condutores de trem, no mesmo espírito das universidades populares. Assim, pretendia se diferenciar “das formas de ensino burguês” em proveito de uma “empresa de instrução mútua”, na qual “o instrutor talvez tenha de aprender com aquele que ele instrui”. Essas reflexões entravam em ressonância com a conclusão de sua monografia sobre René Descartes: “Os trabalhadores sabem tudo; mas, fora do trabalho, eles não sabem que possuem toda a sabedoria”.
Uma vez em Puy, a jovem filósofa, que colocava sua esperança “na ação dos sindicatos, e não na dos partidos políticos”, entrou completamente no mundo operário das regiões de Haute-Loire e Loire.2 Ela integrou os meios militantes, fez sua carteirinha no Sindicato Nacional dos Professores (Confederação Geral do Trabalho, CGT), mas também na Federação Unitária de Ensino (sindical revolucionária), e deu cursos sobre marxismo e economia política aos “caras pretas” na Bolsa do Trabalho de Saint-Étienne. Ela contribuiu para o desenvolvimento dos Colegiados do Trabalho, institutos de ensino geral e profissional criados em 1928 pela CGT na periferia de Saint-Étienne, com o objetivo de abolir o que ela mesma qualificava como “vergonhosa separação entre o trabalho intelectual e o manual”.
Ela também se aliou aos desempregados de Puy. Em um comunicado que redigiu para seu comitê, advertia: “Se obrigamos os desempregados a reconhecer que eles só podem obter alguma coisa na medida em que provocam o medo, eles terão isso por dito”. A imprensa local a tratou de “mensageira do evangelho moscovita” e de “virgem vermelha da tribo de Levi”. Repreendida por sua hierarquia, interrogada pela polícia, ela vivia com pouco, transferindo a quase totalidade de seu salário para as famílias atingidas pelo desemprego e para a Caixa de Solidariedade dos Mineradores.
Sua estadia na Alemanha, no verão de 1932, a convenceu de que uma revolução popular não estava prestes a acontecer. Ao constatar o jogo perigoso dos sociais-democratas, então no poder, e a “atitude passiva” dos comunistas, ela considerou que “os operários alemães não estavam de maneira nenhuma dispostos a capitular, mas eram incapazes de lutar”. Convencida por suas correspondências com Boris Souvarine (1893-1984), um dos fundadores do Partido Comunista (PC) francês, excluído em 1924 por trotskismo, ela também atacou a URSS, um sistema que, em muitos pontos, “é exatamente o contrapé” do regime “que Lenin acreditava instaurar”.
Em 1934, ela decidiu se “retirar de qualquer tipo de política, salvo para a pesquisa teórica”. As greves da primavera de 1936, que ela apoiou, não a fizeram mudar de opinião, pois, desde essa época, ela fez sua a concepção maquiavélica do conflito social entre aqueles que comandam e aqueles que obedecem como sendo inerente a qualquer corpo político e sem resolução definitiva possível:3 “As lutas entre concidadãos […] são vinculadas à natureza das coisas e não podem ser acalmadas, apenas abafadas pela coação”. Quando empreendeu a redação daquilo que chamou de sua “grande obra”, as Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social, ela denunciou o “caráter mitológico” atribuído às virtudes do progresso, à potência libertadora da máquina e às forças produtivas, cujo poder revolucionário seria “pura ficção”. As raízes da opressão social, em vez de serem intrinsecamente ligadas ao modo de produção capitalista fundado sobre a exploração operária, estariam vinculadas à própria natureza da “grande indústria”, cujo caráter opressivo não depende de um regime político específico, já que também se encontra no sistema socialista: “A força que possui a burguesia para explorar os operários reside nos próprios fundamentos de nossa vida social e não pode ser aniquilada por nenhuma transformação política e jurídica. Essa força é, primeiro e essencialmente, o próprio regime da produção moderna”. Então não basta abolir o sistema capitalista – e a exploração – para suprimir a opressão; esta é engendrada pelo próprio progresso técnico, que “rebaixa a humanidade a ser a coisa das coisas inertes” e pelas relações sociais de “dominação do homem pelo homem” que o induzem. A emancipação passaria pela reapropriação do aparelho produtivo dentro de uma sociedade descentralizada se apoiando na “cooperação metódica de todos” e liberta desse “ídolo social” que representa o “maquinismo”.
Desejosa de não ser mais “uma ‘professora associada’ dando uma volta na classe operária”, Simone Weil pretendeu fazer a prova real do que tinha acabado de analisar. Ela pediu uma licença junto à Educação Nacional e foi contratada em uma fábrica para partilhar plenamente a sorte das classes trabalhadoras. “O homem é feito de tal forma que aquele que esmaga não sente nada, e é aquele que é esmagado que sente. Enquanto não nos colocarmos do lado dos oprimidos para sentir com eles, não poderemos nos dar conta”, explicou um dia a seus alunos. Entre dezembro de 1934 e agosto de 1935, ela foi cortadora de gráfica na Alsthom, operária na J.-J. Carnaud et Forges e perfuradora na Renault. Em seu Diário de fábrica, ela descreveu as tarefas e as cadências, o tipo de máquinas que utilizava, a organização da produção etc. O sofrimento físico, o cansaço, as irritações que sofria e o sentimento de ser reduzida a um estado de quase servidão mexeram com ela. Dessa experiência, ela tirou a lição de que “o fato capital não é o sofrimento, mas a humilhação”.
Ao longo do verão de 1935, de férias em Portugal, ela assistiu a uma procissão de mulheres de pescadores. “Ali, eu tive a repentina certeza de que o cristianismo é por excelência a religião dos escravos, que não podem deixar de aderir a ela, e eu entre eles.” Marcada pela figura do Cristo, ela se voltou para o catolicismo em 1938, mesmo permanecendo uma “cristã fora da Igreja”. Essa dimensão mística seria mais tarde frequentemente valorizada, enquanto seu radicalismo político tenderia a ser minimizado.
Os “escravos” também são os nativos nas colônias francesas, os povos invadidos por uma potência estrangeira. A ferocidade da repressão do levante nacionalista de Yen Bai, na Indochina, em fevereiro de 1930, veio até ela por meio da imprensa. Ela assinou diversos artigos sobre a questão indochinesa e a situação da Argélia, encontrou o dirigente nacionalista Messali Hadj,4 de quem tomou a defesa depois de ele ter sido condenado a dois anos de prisão, e se disse contrária à criação de um Estado judeu na Palestina: não se deve, estimava, “criar uma nação que, daqui a cinquenta anos, poderá se tornar uma ameaça para o Oriente Médio e para o mundo”.5
Depois do início da guerra civil entre fascistas e republicanos na Espanha, em julho de 1936, ela partiu, sozinha, para Barcelona. Em razão de suas posições pacifistas, ela apoiou a política de não intervenção da França, mas sentiu a “necessidade interior” de “participar moralmente”. Assim, juntou-se em Aragão aos milicianos anarquistas da coluna formada por Buenaventura Durruti. Uma semana depois, porém, ela se queimou gravemente e teve de deixar o front. A experiência da guerra, “quando não há nada de mais natural […] do que matar”, reforçou seu pacifismo e alimentou suas Reflexões sobre a barbárie (1939). Mas esse mesmo ideal faria dela uma oponente feroz à entrada na guerra contra Adolf Hitler, até a invasão da Tchecoslováquia pelas tropas alemãs em março de 1939. Pouco depois, ela admitiu ter cometido um “erro criminoso”. Ela se uniu à Resistência em Londres e redigiu O enraizamento, que seria publicado em 1950 graças a Albert Camus: um esboço do que deveria ser uma “nova civilização” fundada sobre a “espiritualidade do trabalho”, o amor pelo bem público e a igualdade.
Durante uma greve de fome em solidariedade aos franceses submetidos ao racionamento alimentar pelo ocupante alemão, Simone Weil contraiu tuberculose e morreu em 24 de agosto de 1943, aos 34 anos. Sua obra só foi publicada após sua morte.

Olivier Pironet é jornalista.



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