A solidariedade entre nós – II - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

A solidariedade entre nós – II

por Silvio Caccia Bava
dezembro 5, 2017
Imagem por Claudius
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Para conquistar essa nova sociedade é preciso enfrentar os poderes controlados pelas elites, e o único caminho é a reapropriação da política pelo cidadão comum. Isso significa investir na construção de novos atores coletivos, fortalecer redes e fóruns, debater a radicalização da democracia, propor profundas mudanças nas instituições e a criação de novas formas de participação e controle social na gestão pública e na política.

Na situação atual, é até previsível que nós, brasileiros e brasileiras, desejemos um mundo muito diferente do atual para viver. Nosso desejo é o avesso do que é nossa sociedade hoje, como aponta pesquisa nacional de valores feita pelo Datafolha e divulgada em outubro passado.1

A percepção dos entrevistados é de que vivemos em uma sociedade dominada pelos seguintes valores e comportamentos: corrupção, violência/crime, pobreza, agressividade, poluição ambiental, analfabetismo, burocracia, discriminação racial, incerteza sobre o futuro, desperdício de recursos.

Mas não é essa sociedade que queremos. Conforme a pesquisa, nossa sociedade desejada provê cuidados com saúde, justiça, paz, oportunidade de emprego e educação, cuidado com os idosos, qualidade de vida, cidadania, compromisso, honestidade.

A sociedade que temos está moldada para atender aos interesses dos grandes negócios, para tornar as grandes empresas, especialmente os grandes bancos, os beneficiários do trabalho de todos.

A sociedade que desejamos quer atender às necessidades das maiorias, melhorar a qualidade de vida de todos, enfrentar a desigualdade e a exclusão social, respeitar todos os direitos humanos.

Para conquistar essa nova sociedade é preciso enfrentar os poderes controlados pelas elites, e o único caminho é a reapropriação da política pelo cidadão comum. Isso significa investir na construção de novos atores coletivos, fortalecer redes e fóruns, debater a radicalização da democracia, propor profundas mudanças nas instituições e a criação de novas formas de participação e controle social na gestão pública e na política.

Para superar a dominação do sistema político pelos grandes grupos econômicos, teremos de formar novas maiorias na sociedade, disputar corações e mentes e, para isso, debater publicamente agendas, prioridades, legislações, políticas públicas e o orçamento público.

Hoje percebemos que a hegemonia do pensamento conservador e neoliberal se impôs com tal força que desmontou a capacidade de pensarmos alternativas. Não temos um projeto de sociedade para defender. As referências que o século XX nos deu, da polarização entre capitalismo e socialismo, não valem mais. Também é uma enganação contrapor Estado e sociedade. Mesmo os neoliberais precisam do Estado para impor seu programa. E é bom lembrar que há muito tempo não existe mais livre mercado. Estamos desafiados a pensar novos paradigmas, a criar um novo olhar sobre o mundo que vivemos e como é que nele vivemos.

A principal disputa é enfrentar a hegemonia do pensamento conservador. É criar debates públicos para alcançar o cidadão comum e envolvê-lo na análise crítica das políticas atuais e na produção coletiva de um novo projeto, uma nova esperança, novas formas de convivência, de produção, de vida em sociedade.

E, para realizar essa disputa, os que defendem a radicalização da democracia e a defesa dos direitos humanos precisam se dotar de instrumentos para a produção de conhecimentos, para a promoção do debate público, para a comunicação por meio das mídias e das redes sociais.

O Le Monde Diplomatique Brasil é um instrumento para essa disputa. Durante dez anos convidamos intelectuais, militantes, lideranças democráticas e populares, forças de esquerda, que solidariamente nos ofereceram artigos nos quais apresentam e debatem suas ideias, suas análises sobre a sociedade atual, o sistema político, as políticas de exclusão, a contaminação ambiental, as discriminações de toda ordem. E abrimos também nossas páginas para o debate sobre novos paradigmas e a construção do futuro de nossa sociedade desejada.

Por nossa postura crítica e de denúncia, nunca estivemos na agenda dos agentes do mercado e do governo atual, mas ampliamos nossas alianças com todos os que defendem uma sociedade livre, democrática, ambientalmente sustentável, respeitosa com as diferenças, com justiça social, desenvolvimento para todos e mais igualdade.

Nossa verdadeira fonte de sustentação são nossas leitoras e leitores, que garantem a independência, a liberdade e a autonomia para participarmos do exercício coletivo da crítica social e política da atualidade.

Na França, não só o Le Monde Diplomatique fez um apelo aos seus leitores para que contribuíssem financeiramente com o jornal e obteve o apoio e a solidariedade que demandava, como também seus leitores criaram grupos, os “Amigos do Diplô”, que organizam debates em seus territórios e se constituíram em uma associação independente, que tem assento nas decisões do jornal. Aqui ainda não chegamos a isso, mas temos o desejo de abraçar essa proposta. No momento, o impacto da crise econômica no bolso de nossos leitores provocou uma queda nas vendas do jornal, queda que afetou todas publicações, mas nos atingiu também.

Agora é a hora de pedirmos solidariedade para atravessar esta fase mais difícil. Com o lançamento de nossa edição digital, mês passado, esperamos poder equilibrar em alguns meses nossas finanças.

Convidamos vocês, leitores, amigas e amigos, a se somarem a nós e contribuir para manter este projeto de comunicação. Para isso, organizamos um projeto de financiamento coletivo (crowdfunding) no site do Catarse, com brindes e recompensas para doações. Pedimos que você mobilize suas relações para nos ajudar e também contribua para garantir a continuidade do jornal como instrumento para divulgar estas análises e debates de que tanto precisamos.

Para contribuir acesse www.catarse.me/apoieodiplo.



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