Think tanks ultraliberais e a nova direita brasileira

O JOGO SUJO DA DIREITA

Think tanks ultraliberais e a nova direita brasileira

por Camila Rocha
novembro 2, 2017
Imagem por Arnaldo Branco
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Contando com pouco financiamento proveniente de empresários nacionais, a maior parte das organizações ultraliberais angaria recursos por meio de editais disponibilizados nos sites de fundações e think tanks libertarianos estrangeiros, como as norte-americanas Cato e Atlas, e a alemã Friedrich Naumann

 

A expressão “nova direita brasileira” costuma vir associada aos nomes dos principais integrantes do Movimento Brasil Livre, como Kim Kataguiri e Fernando Holiday, de humoristas como Danilo Gentili, polemistas como o youtuber Arthur do Val, do canal Mamãe Falei, e políticos da família Bolsonaro. No entanto, essas figuras representam apenas a ponta do iceberg de uma rede mais ampla e capilarizada que reúne simpatizantes, militantes e lideranças distribuídos por todo o território nacional. Conectados via internet, boa parte daqueles que passaram a compor a nova direita foi sendo formada política e ideologicamente a partir da segunda metade dos anos 2000, época em que começou a ser fundada uma série de novas organizações cuja principal finalidade é disponibilizar arsenal teórico e treinamento político de qualidade com o intuito de conquistar cada vez mais adeptos para seu ideário: os think tanks ultraliberais.

Os think tanks podem ser definidos como instituições permanentes de pesquisa e/ou divulgação de ideias que procuram informar e influenciar instâncias governamentais e a opinião pública no que tange à adoção de determinadas políticas públicas. O modo de atuação dos think tanks costuma ser pautado por sua localização em um espectro que vai do “profissionalismo politicamente desinteressado” em um extremo ao “ativismo ideologicamente orientado” em outro. Nesse sentido, estariam mais próximas do primeiro polo instituições de viés mais acadêmico, como a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e mais próximos do extremo oposto os think tanks liberais e ultraliberais que atuam no país.

Os primeiros think tanks liberais brasileiros, como o Instituto Liberal do Rio de Janeiro e o Instituto de Estudos Empresariais, foram criados nos anos 1980, no início da redemocratização, e reuniam empresários e intelectuais com formação em universidades norte-americanas que tinham a intenção de influenciar os rumos da Nova República. Nessas organizações circulavam membros das elites empresariais e intelectuais do país próximos do então Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM), mas que tinham certa desconfiança em relação ao PSDB por conta de sua origem progressista. Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a Presidência, tal desconfiança já havia se dissipado, e os economistas de orientação liberal que participaram de seu governo fundaram outro think tank em 2003 no Rio de Janeiro, a Casa da Garças, que possui um ambiente tão ou mais elitista quanto aquele que permeava os think tanks fundados nas décadas anteriores. Com a preocupação de difundir o liberalismo econômico para outros públicos além das elites acadêmicas, políticas e empresariais, alvos prioritários dos think tanks liberais existentes até então, foi fundado em 2005, no Rio de Janeiro, o Instituto Millenium. Contudo, a despeito de contar com o apoio organizacional e financeiro de parceiros como a Rede Globo e o jornal O Estado de S. Paulo, a divulgação das ideias liberais para um público mais amplo começou a ocorrer sem a necessidade de vultosos recursos e grande aparato organizacional.

Em 2004 foi criada na internet a rede social Orkut, que logo passou a ser utilizada por jovens universitários e profissionais de diversas áreas entusiastas do liberalismo econômico. A ferramenta facilitou o surgimento de comunidades liberais e o encontro de pessoas de diferentes lugares do Brasil que frequentavam fóruns de discussão na internet sobre ideias liberais, traduziam textos liberais do inglês e eventualmente eram simpatizantes das ideias difundidas por Olavo de Carvalho (que afirmou ser amigo de Donald Stewart Jr., fundador do Instituto Liberal em 1983 e que teria lhe apresentado as ideias do economista libertariano Ludwig von Mises). Em poucos anos se formaram na rede social grupos mais coesos que compartilhavam o mesmo entusiasmo por uma versão radical do que o liberalismo defendido pelos think tanks existentes até então: o libertarianismo, ou ultraliberalismo.

Na visão dos ultraliberais existiriam duas correntes ideológicas principais que atualmente disputam a hegemonia na sociedade brasileira: a social-democracia e o liberalismo, ou neoliberalismo. A primeira expressaria o posicionamento de economistas como Luiz Carlos Bresser-Pereira e Luiz Gonzaga Belluzzo, e a segunda, de economistas como Marcos Lisboa, Armínio Fraga, Pérsio Arida e Samuel Pessoa. Os ultraliberais, ainda que apoiem pragmaticamente os neoliberais, se diferenciariam por defenderem a abolição de uma série de políticas defendidas pelos últimos, entre as quais o monopólio da moeda; a existência de um Banco Central, de órgãos de defesa da concorrência (antitruste) e de agências reguladoras; investimentos estatais em infraestrutura essencial como estradas e portos; educação e saúde básicas públicas; e políticas de renda mínima. Além disso, os ultraliberais não se preocupam apenas com questões econômicas, como o fazem os neoliberais, mas também defendem pautas liberalizantes no plano dos costumes, como a liberação do porte de armas, do aborto e da união homoafetiva e a legalização de substâncias ilícitas como a maconha, mas sem a existência de regulação estatal.

Entre os internautas ultraliberais que frequentavam as comunidades do Orkut entre 2005 e 2007 estavam Hélio Beltrão, Cristiano e Fernando Chiocca, fundadores do Instituto Mises Brasil; Rodrigo Constantino, atual presidente do Instituto Liberal e autor do livro Esquerda caviar; Cibele Bastos, organizadora do Dragão do Mar, maior grupo de estudos sobre libertarianismo no Brasil; Juliano Torres, fundador da organização Estudantes pela Liberdade; e Bernardo Santoro, atual secretário-geral do partido Patriota, sigla que pretende abrigar os políticos da família Bolsonaro.

Ainda que alguns desses tivessem vínculos com personagens que já circulavam nos think tanks pró-mercado existentes, como Hélio Beltrão e Rodrigo Constantino, o que permitiu que ambos participassem da fundação do Instituto Millenium em 2005, a maior parte dos internautas ultraliberais não possuía ligação com as elites que circulavam nessas organizações. Prova disso foi a tentativa fracassada de organizar um partido ultraliberal no Brasil no final dos anos 2000, o Líber (abreviação de libertário), liderada por Fernando Chiocca, Bernardo Santoro e Juliano Torres.

A despeito de a oficialização do partido ter fracassado, o Líber acabou sendo uma das sementes do reflorescimento da direita brasileira sob novas bases. Os jovens reunidos em torno do projeto do Líber, além de terem uma atuação muito ativa na internet via canais de YouTube, redes sociais e páginas dedicadas à divulgação de suas ideias (como a Spotniks, mantida por crowdfunding), começaram a se organizar em grupos de estudo e chapas para centros acadêmicos em suas respectivas universidades e a fazer protestos de rua, atuando em moldes similares aos de um movimento social contemporâneo, coisa que seria impensável para as elites que circulavam nos think tanks liberais existentes até então e que tinham uma atuação mais discreta e tecnocrática.

Além de demonstrações em apoio à blogueira cubana Yoani Sánchez, protestos em frente à embaixada da Venezuela e atividades em postos de gasolina no “Dia sem Impostos”, os militantes ultraliberais marcaram presença em manifestações maiores. Participaram da Marcha da Maconha e dos protestos de junho de 2013, quando resolveram criar um movimento antagônico ao Movimento Passe Livre, o Movimento Brasil Livre (MBL), para, entre outras coisas, defender a privatização total do sistema de transporte coletivo. Por meio do então incipiente MBL, os ultraliberais conseguiram se organizar melhor para participar das várias manifestações que ocorreram no mesmo mês em todo o território nacional. Porém, ao fim do ano, a página do movimento no Facebook, que contava com cerca de 20 mil curtidas, acabou sendo abandonada por seus fundadores, mas o ânimo com o ativismo não desapareceu.

Os grupos que surgiram no Orkut entre 2005 e 2007, em conjunto com outros militantes que foram se somando ao longo do tempo, logo passaram a criar novos think tanks ultraliberais para se diferenciar do discurso neoliberal defendido pelos think tanks existentes até então. Entre eles é possível citar o Instituto Mises Brasil, o Instituto Ordem Livre, seção brasileira do think tank norte-americano Cato, o Instituto Liberal de São Paulo, o Instituto Liberal do Nordeste, o Instituto Mercado Popular, entre outros. Além disso, houve militantes que reativaram sua filiação ou passaram a fazem parte de think tanks liberais antigos, radicalizando seu discurso.

Ao contrário do que ocorria com os think tanks liberais existentes até 2005, os novos think tanks ultraliberais passaram a abrigar pessoas mais jovens, normalmente universitários de classe média, com um perfil militante, que atuam de forma mais horizontal e descentralizada. As formas de financiamento também se modificaram. Contando com pouco financiamento proveniente de empresários nacionais, a maior parte das organizações ultraliberais angaria recursos por meio de editais disponibilizados nos sites de fundações e think tanks libertarianos estrangeiros, como as norte-americanas Cato e Atlas, e a alemã Friedrich Naumann, as quais também atuam diretamente no Brasil por meio de diversos programas de treinamento. Assim, com exceção de casos como o do Instituto Mises Brasil, que começou como uma página de internet e hoje ocupa uma sede espaçosa em um bairro de classe alta em São Paulo, a maior parte dos think tanks ultraliberais, entre os quais o antigo Instituto Liberal do Rio de Janeiro, não possui sede nem profissionais contratados, apenas militantes engajados na divulgação de suas ideias e dispostos, em suas próprias palavras, a disputar hegemonia na sociedade brasileira conquistando corações e mentes.

No entanto, foi apenas a partir de 2014 que os ultraliberais começaram a aparecer de fato no cenário político nacional. Já organizados em think tanks como o Instituto Mises Brasil, o Instituto Liberal de São Paulo e o Instituto Ordem Livre, além do Estudantes pela Liberdade, responsável por coordenar dezenas de grupos de estudo e chapas de centro acadêmico Brasil afora, os militantes se reuniram em torno da campanha política de Paulo Batista, candidato a deputado estadual por São Paulo. Na campanha, baseada em vídeos veiculados no YouTube, Batista, um empresário do ramo imobiliário do interior de São Paulo, se transformava em um super-herói ultraliberal vestido de terno preto, arremessando “raios privatizadores” em cidades de países comunistas. A candidatura, abrigada por um partido de menor expressão, era tida por seus organizadores como pertencendo ao Líber, o partido ultraliberal que não conseguiu ser oficializado.

O super-herói do raio privatizador, apesar de ter despontado como um fenômeno da internet e ter sido entrevistado no programa de televisão comandado pelo humorista Danilo Gentili, recebeu cerca de 20 mil votos e não foi eleito. No entanto, após a derrota, o publicitário que havia feito os vídeos da campanha para o YouTube e seu irmão, Renan Santos, formado em Direito no Largo São Francisco e membro da juventude do PSDB, decidiram chamar os militantes que atuaram em prol da candidatura de Batista para pequenas manifestações de rua contra a reeleição de Dilma Rousseff, convocadas pelas redes sociais. Em um primeiro momento, o grupo atuou sob o nome de Renova, o qual logo depois foi substituído por Movimento Brasil Livre, o que lhes permitiu reativar a página do Facebook que fora abandonada em 2013. 

Além de terem contribuído de forma importante para a fundação e reativação do MBL, os ultraliberais passaram a participar mais ativamente da política institucional. Ao contrário dos think tanks liberais existentes até 2005, que apostavam suas fichas no então PFL e no PSDB, os ultraliberais preferem ter uma inserção partidária o mais ampla possível, de modo que, ao mesmo tempo que procuram atuar em partidos tradicionais de direita e centro-direita, como o Partido Progressista (PP), o DEM e o próprio PSDB, também tentam se organizar de forma mais orgânica em outros partidos. Atualmente, existem três expressões partidárias que lhes possibilitaram uma atuação mais autônoma e coerente com seus princípios: o Partido Novo; uma tendência libertariana chamada Livres, no pequeno Partido Social Liberal (PSL); e o Partido Social Cristão (PSC), que agora está sendo progressivamente abandonado por vários militantes que procuram seguir as movimentações dos políticos da família Bolsonaro.

Desse modo, as lideranças dos think tanks ultraliberais logo se distribuíram de maneira diversa. Rodrigo Constantino e Hélio Beltrão, presidentes respectivamente do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e do Instituto Mises, são apoiadores do Partido Novo, criado por João Amoêdo, executivo do Banco Itaú. Já Fábio Ostermann, fundador do Instituto Ordem Livre e do MBL em 2013, saiu candidato à prefeitura de Porto Alegre pelo PSL, assim como Rodrigo Saraiva Marinho, fundador e presidente do Instituto Liberal do Nordeste e coordenador da Rede Liberal, que saiu candidato a vereador em Fortaleza pelo mesmo partido. E, finalmente, Bernardo Santoro, que atuou como presidente do Líber, ex-diretor do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e ex-coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, tem procurado acompanhar os políticos da família Bolsonaro, provocando certo mal-estar em parte dos ultraliberais, que o acusam de incoerência. Santoro, porém, é pragmático e já declarou que as bandeiras conservadoras defendidas pelos políticos seriam um meio para atingir uma economia mais liberal; no entanto, por via das dúvidas, incentivou Eduardo Bolsonaro a cursar a pós-graduação em Economia oferecida pelo Instituto Mises Brasil.

*Camila Rocha é doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.



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