Um caça que maravilha o Le Figaro - Le Monde Diplomatique

ESPECIAL DIPLOMACIA DAS ARMAS

Um caça que maravilha o Le Figaro

abril 4, 2016
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Há (pelo menos) três assuntos que o Le Figaro deve tratar com cuidado: o LVMH, o grupo de Bernard Arnault, um dos principais anunciantes da imprensa; a Publicis, pelas mesmas razões; e, por fim, a Dassault Aviation, pois, como destaca o próprio jornal conservador ao fim de cada artigo sobre o Falcon ou o Rafale, “O GruSerge Halimi

Quando se trata de venda de armas, um assunto tentador para quem se interessa por conluios políticos e subornos, um jornalista do diário francês Le Figaro não é o mais indicado em termos de isenção. Seu trabalho é ingrato: trazer boas notícias, mesmo quando elas são ruins; fazer brilhar as contas da empresa; minorar o peso do dinheiro público e do favoritismo político nos resultados obtidos por um proprietário bilionário, senador por Essonne, e que, no entanto, continua, assim como o Le Figaro, a vilipendiar tanto o papel do Estado como o peso do “assistencialismo”.

Serge Dassault não costuma ler o suplemento literário do Le Figaro, mas segue de perto aquilo que seu jornal escreve sobre o Rafale. Ele não precisa se preocupar. Ou tudo vai bem para a Dassault Aviation, ou os contratempos – explicados, é sempre mais seguro, pelo CEO do grupo – são apresentados como passageiros. Manchetes otimistas, longas citações de dirigentes da empresa.

Em dezembro de 2011, as coisas mudaram. Dois anos antes, o Le Figaro comemorava: “Brasil vai adquirir 36 aviões de combate Rafale” (8 set. 2009.) Porém, ao longo dos meses, o contrato desapareceu. O restante da imprensa falava sobre o fracasso comercial da aeronave nas exportações e sobre o custo crescente que ele representava para o orçamento francês, forçado a substituir os compradores que se retiravam. Até o jornal econômico Les Échos, propriedade de Arnault, bem alinhado a Serge Dassault, anunciou, em setembro de 2010: “Rafale: ausência de contratos no exterior custará 800 milhões para o orçamento do Estado”.

Um ano depois, o fiasco brasileiro foi consumado. E provocou um editorial do Le Monde: “Como outrora o Concorde no domínio da aviação civil, o Rafale continua sendo ‘o avião que nunca foi exportado’. E que, ao que tudo indica, nunca será” (2 dez. 2011). O alerta pareceu suficientemente grave para que Mougeotte Etienne, então diretor do Le Figaro, fosse “entrevistar” pessoalmente o CEO da Dassault Aviation, Charles Edelstenne. A interminável entrevista (duas páginas) intitulava-se: “Edelstenne: ‘O Estado não dá nenhum presente à Dassault Aviation com a entrega dos Rafale’” (12 dez. 2011). O leitor do Le Figaro, que de qualquer modo nunca suspeitou do contrário, foi mesmo assim tranquilizado algumas semanas depois, quando seu jornal anunciou: “Dassault Aviation inicia 2012 com serenidade” (23 mar. 2012). Infelizmente, os meses passaram e não houve vendas.

Como fabricar boas notícias quando elas não existem? A resposta está na Le Figaro Magazine de 13 de julho de 2012. Um artigo de três páginas (com cinco fotografias) foi dedicado a “Claire Mérouze, a mulher Rafale”. Inicialmente, o tom foi definido, distanciado, profissional: “Capitã aos 26 anos, ela acaba de ter seu nome inscrito na história das mulheres excepcionais da Força Aérea. Ao tornar-se a primeira mulher a pilotar um Rafale, ela realizou seu sonho de infância. Um encontro junto ao avião”. O texto segue em esplendor: “Seus olhos verdes iluminam um rosto determinado, que há quatro meses pertence a essa unidade […]. Sonho de todos os pilotos aspirantes, a mais nova piloto de caça francesa é um mito. ‘Faz quinze anos que todos os pilotos ouvem falar dessa aeronave e dizem: – Você vai pilotar um Rafale’, explica ela”. O jornalista esclarece: “Nos últimos anos, o aparelho serviu no Afeganistão e na Líbia. […] O Exército francês conta com 105 deles até o presente momento. Então os postos de piloto são desejados”. Mas são apenas do Exército francês…

Um ano depois, uma nova reportagem publicitária sobre Mérouze, desta vez no jornal Le Figaro (17 jun. 2013). Mas não adiantou. Finalmente, em fevereiro de 2015, a maldição foi quebrada pelo Egito (compra de 24 Rafale), seguido em maio pelo Catar (mesmo número de aparelhos). Desde então, o setorista responsável pela cobertura do tema pôde produzir manchetes alegres de consciência tranquila: “François Hollande saúda ‘o notável sucesso do Rafale’” (5 mar. 2015); “Segundo o Egito, um segundo contrato para o Rafale é possível em 2015” (12 mar. 2015); “Mais um sucesso para o Rafale” (2-3 maio 2015); “Rafale busca novas conquistas” (15 jun. 2015).

No dia 6 de agosto de 2015, foi a vez de um editorial do Le Figaro tratar do assunto: “A França ao lado do Egito”. A cena antecipada pelo jornalista é voluptuosa como um dia de verão: “Quando o elegante barco do rei Faruk singrar, esta tarde, as águas azuis do novo Canal de Suez, escoltado por uma fragata ultramoderna e três Rafale recentemente adquiridos da França, os egípcios sentirão um legítimo orgulho”. Aos mal-humorados que viessem a falar da situação deplorável dos direitos humanos no país do marechal Abdel Fattah al-Sissi, o Le Figaro respondeu: “Há quem critique a aliança com o Egito pelo fato de o respeito aos direitos humanos no país não ser impecável [sic]. Talvez eles esqueçam os desafios enfrentados por esse país milenar e os perigos que ameaçam a região”.

Esses tolos esquecem que na França, pelo menos, a imprensa é livre.

Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.



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