Universo político

Um passeio pelo mundo dos grandes burgueses

Individualismo para os outros; proteção, regulamentações coletivas e Estado de bem-estar para si: a grande burguesia comporta-se como um grupo unido que assume suas alianças, seus modos de vida, a educação dos futuros herdeiros. Não hesita em expressar seus interesses coletivos e a defendê-los a todo momento
por: Silvio Caccia Bava
4 de julho de 2012
Crédito da Imagem: Guazzelli

Portes-en-Ré, uma ilha dentro da ilha. Rodeada pelo mar e pelos mangues, na ponta da Ilha de Ré, essa comunidade pouco frequentada pelo turista comum tornou-se um dos lugares de encontro das famílias da burguesia. Seduzidas pelo clima e pelo charme das casinhas baixas com seus quintais e jardins secretos, elas vieram comprar os imóveis da velha cidadezinha. Tamanha concentração numa vila tão pequena é algo que se destaca aos sábados de manhã, no mercado, e especialmente aos domingos, quando são celebradas duas missas seguidas, ambas lotadas. Vinda dos belos bairros de Paris, Bordeaux e Lyon, toda essa boa sociedade exibe-se no extremo prazer de estar reunida.

A grande homogeneidade dos habituscorporais, isto é, das formas de manter e apresentar o corpo, é a primeira coisa que se nota. Corpos bronzeados, retos e arrumados, das crianças aos idosos. Roupas de verão, claro, mas sempre sóbrias. Todos se conhecem. Todos se cumprimentam, todo mundo conversa longamente na praça ao fim da missa, grupos se formam no terraço do café Bazenne para o aperitivo de domingo. Uma sociedade feliz, radiante por estar reunida e poder ser ela mesma, protegida dos olhares importunos.

Num “entre os seus” sempre cuidadosamente controlado, os membros da alta burguesia frequentam os mesmos lugares, numa quadrilha de ritmo marcado pela estação, a idade ou as obrigações profissionais, de modo que os salões parisienses, as vilas do litoral, os chalés de montanha e os castelos formam um vasto espaço quase público para a boa sociedade, que nele vive entre iguais com o mesmo prazer e tão à vontade como se estivesse em seus clubes, como, em Paris, o Automóvel Clube, a Praça de la Concorde, ou o Cercle de l’Union Interalliée, na Rua do Faubourg-Saint-Honoré.

Multiterritorialidade

As famílias da alta burguesia têm uma característica recorrente: a multiterritorialidade. Sua vida se passa em várias residências (apartamento parisiense, casa da família ou castelo no interior, e outras casas em locais de temporada). O duque de Brissac assim criticava a esterilizante postura caseira dos assalariados: “Eles são sedentários e grudam no lugar em que vivem como mariscos na pedra”, escreveu em 1986, talvez confortavelmente instalado na biblioteca de seu castelo de Brissac, propriedade da família há várias gerações.1 Grande viajante, politécnico, casado com May Schneider, herdeira do grupo homônimo do qual ele se tornou CEO, o duque ficou irritadíssimo com os trabalhadores demitidos que se recusavam a aceitar o emprego oferecido em províncias distantes, pondo em risco a empresa, já que ele próprio nunca hesitou em percorrer a França e o mundo, praticando a caça, com cães ou com armas, e participando de cruzeiros mundanos, importantes locais de gestão do capital social, uma das riquezas dessa classe.2 O duque, porém, tinha sempre uma casa da família para recarregar as forças.

Fazer o inventário dos participantes de funerais, cerimônias de casamento, conselhos de administração, jantares e outras festividades permite observar uma magnífica acumulação de poder e prestígio. Os 387 participantes da festa oferecida por Ernest-Antoine Seillière para comemorar seu cinquentenário, em 1987, nos salões do Museu Grévin, são o perfeito exemplo disso. Sem fazer uma lista exaustiva, pode-se citar a presença de Michel David-Weill (Banco Lazard), André Bettencourt (ex-ministro, cuja esposa, Liliane Bettencourt, Schueller de nascimento, é herdeira do fundador da L’Oréal e, como tal, detém a maior fortuna da França), Philippe Bouriez (grupo Cora-Revillon), Jean-François Lemoine (proprietário do Sud-Ouest), Édouardde Ribes (grupo Rivaud, genro de Jean de Beaumont, presidente do Cercle de l’Union Interalliée, e ele próprio vice-presidente desse mesmo clube), Guy e David de Rothschild, Jean-Pierre Soisson (ex-ministro), Pierre-Christian Taittinger (prefeito do 16ºdistrito de Paris, proprietário de um império vinícola e hoteleiro que inclui o Crillon e a rede Campanile).

Uso do Estado

Além disso, esse capital social, outrora chamado de sistema de relações, vai muito além das fronteiras nacionais: através de alianças matrimoniais, estudos em estabelecimentos internacionais (principalmente colégios suíços), relações de negócios, cruzeiros ou caçadas a grandes felinos, seu estilo de vida prospera em um espaço muito amplo, porém, com a capacidade de inscrever essa mobilidade (que pode ser de longa duração, como no caso dos estudos no exterior) em espaços onde a homogeneidade social é garantida. Em qualquer lugar, os palácios reconstituem o paraíso de estar em paz e entre os seus, como o La Mamounia, longe do calor e da agitação de Marrakesh.3

Muito viajados, os burgueses são usuários frequentes da infraestrutura pública ligada aos transportes: aeroportos, portos e rodovias. Assim, sua defesa de “menos Estado” é pouco coerente com práticas que fazem largo uso dos bens públicos e equipamentos coletivos ou que colhem os frutos das intervenções públicas. A busca por “trabalho”, por exemplo, dá acesso à Seguridade Social, para o indivíduo e sua família. Há descendentes de grandes famílias da imprensa ou dos escritórios de consultoria que obtêm, assim, uma cobertura social que dá acesso aos mais caros tratamentos de saúde.

Observa-se também o uso dos mais prestigiados estabelecimentos escolares. A seleção para entrar no Instituto de Estudos Políticos de Paris, na Escola Nacional de Administração (ENA), na Politécnica, na Central ou na Escola de Altos Estudos Comerciais (HEC) está longe de ser democrática.4 Os grandes equipamentos públicos socioculturais − museus, teatros, óperas − são amplamente utilizados por essas famílias, que têm uma relação privilegiada com esse tipo de cultura. E são as únicas que podem ter nichos reservados em espaços coletivos, como no caso das concessões feitas a seus clubes para o uso exclusivo de hectares do Bois de Boulogne, por exemplo.

O tratamento dos espaços públicos é também revelador de desigualdades profundas nas condições de vida geradas pela intervenção das administrações locais. A via perimetral de Paris, com seu ruído incessante, é coberta nos bairros do Oeste, os da burguesia, mas fica ao ar livre em muitas outras áreas. As ruas são diferentes nos belos bairros e nos distritos pobres. As avenidas largas e arejadas do Oeste contrastam com as ruas estreitas e congestionadas das áreas onde a população imigrante é particularmente numerosa.

Participar da alta burguesia é algo que é precisomerecer e provar. Essa condição deve-se ao próprio grupo, que recruta seus membros de forma permanente. E não é como um diploma emitido e autenticado pelo Estado, garantido de uma vez por todas. O grande burguês deve sempre aparecer, estar nos lugares que valem, nos coquetéis, nas tribunas dos grandes prêmioshípicos, nas estreias da ópera ou nos vernissages.

Recrutamento

Construção permanente dos agentes que a compõem, a alta burguesia consolida-se graças a uma técnica social bastante comprovada, o recrutamento. Seja para admitir novos membros nos clubes, receber novos adolescentes nesse ou naquele baile ou substituir um membro de um conselho de administração, a prática é a mesma dos imortais da Academia Francesa: por votação, escolhem-se os pares, que assim podem atingir essa imortalidade simbólica que não é um dos menores privilégios do grupo.

A importância da família no dispositivo é primordial. Ela condiciona as modalidades da transmissão, portanto, da reprodução. Mas as grandes heranças são exigentes: é preciso herdeiros capazes de recebê-las. Unido por um sistema escolar ad hoc, o meio familiar tem um papel de primeiro plano em sua formação. Realiza-se uma vigilância das alianças e da preservação da estrutura familiar. Divórcios, concubinatos, famílias monoparentais, isso deve ser evitado a todo custo, e a alta burguesia deve manter-se longe do processo de desintegração da unidade familiar. Embora os casamentos pareçam menos arranjados que outrora, continuam sendo uma peça-chave na perenidade da linhagem. Os bailes são uma instância particularmente eficaz, permitindo uma socialização efetiva dos adolescentes de acordo com as normas do grupo. É neles que os futuros herdeiros aprendem a reconhecer instintivamente seus semelhantes como possíveis parceiros para sua vida afetiva, sexual e especialmente matrimonial.5

Sob a sopa ideológica do individualismo triunfante, do mercado e da concorrência, o grande burguês outorga-se um último privilégio: o senso do coletivo, o senso dos interesses de classe. As instituições formais ou informais de sua sociedade conhecem uma vitalidade comparável somente aos interesses em jogo. Entre elas, algumas regulam as contradições secundárias que pontualmente podem trazer à tona rivalidades comerciais. Esse é o papel dos clubes de negócios − como o Comitê Colbert, criado em 1954 por Jean-Jacques Guerlain, que reúne empresários da indústria do luxo, às vezes rivais, como Dior e Chanel, ou os joalheiros Boucheron e Mellerio. Esse pequeno mundo, consciente de sua unidade pacientemente construída ao longo de gerações, reativa incessantemente essa consciência de classe, na saudável emulação de uma concorrência que não chega à eliminação do outro, o que seria uma forma de autodestruição.



1. Duque de Brissac, Le château d’en face: 1974-1985[O castelo vizinho: 1974-1985], Grasset, Paris, 1986, p.126.



2. Ler Monique de Saint Martin, L’espace de la noblesse[O espaço da nobreza], Métailié, Paris, 1993.



3. Ler Allan Popelard e Paul Vannier, “Les deux Marrakech” [As duas Marrakesh], Le Monde Diplomatique, ago. 2011.



4. Ler “Comment Sciences-Po et l’ENA deviennent des ‘business schools’” [Como a Sciences Po e a ENA se transformaram em business schools], Le Monde Diplomatique, nov. 2000.



5. Ver “Les rallyes” [Os bailes], Le Monde Diplomatique, set. 2001.


EDIÇÕES ANTERIORES

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *