NA ROTA DOS BÁLCÃS, O FIM DA ESPERANÇA DOS REFUGIADOS

Uma nova cortina de ferro se abate sobre a Europa

Um milhão de refugiados e de migrantes trilharam a rota dos Bálcãs ao longo de 2015. Enquanto a União Europeia negocia com a Turquia para tentar barrar as partidas, os fechamentos sucessivos de fronteiras cortam esse corredor humanitário informal para o qual continuam se dirigindo dezenas de milhares de seres humanos f
por: Jean-Arnault Dérens e Simon Rico

Idomeni, fronteira greco-macedônia. Ao final de uma pequena estrada de terra, em uma planície fustigada pelos ventos que descem das montanhas, levanta-se o último acampamento grego, acuado entre os campos e uma pequena estação de fretados. Basta caminhar por algumas centenas de metros ao longo da estrada de ferro para chegar às grades que marcam a entrada da Macedônia. Os policiais entreabrem a porta que dá acesso ao acampamento macedônio de Gevgelija, deixando passar os refugiados em grupos de cinquenta. Com o fechamento progressivo da “rota dos Bálcãs”, a Macedônia endureceu as condições de acesso: em novembro de 2015, apenas os cidadãos afegãos, iraquianos e sírios eram aceitos como refugiados; os originários de todos os outros países eram considerados “migrantes econômicos”. Depois, em janeiro, os afegãos também passaram a não ser aceitos. No início de março, os sírios originários de Alepo ainda podiam passar, mas não aqueles vindos de Damasco.

A capacidade do acampamento de Idomeni é de 1,5 mil pessoas, mas há milhares a se amontoar nas pequenas barracas, sobrevivendo em condições extremamente precárias. Quando a Eslovênia anunciou o fechamento de sua fronteira (ver mapa), em 8 de março, à meia-noite, a mesma questão apareceu em todas as bocas: como continuar a viagem? Será preciso recorrer à rede de traficantes humanos, agora que o corredor humanitário foi completamente cortado? Ninguém, em todo caso, cogita voltar atrás, em direção à Turquia.

Evzoni, na estrada de Tessalônica, na direção da Macedônia. A alguns quilômetros de Idomeni, o último posto de gasolina antes do posto de fronteira se tornou o antro dos traficantes humanos desde novembro de 2015. “Vim de Atenas. Dei 700 euros a um guia para ir até Belgrado”, explica Brahim T., argelino de cerca de 30 anos. Centenas de pessoas dormem todas as noites em algum lugar da estrada; os mais ricos, dividindo em muitos um modesto quarto de hotel, e os outros, em prédios abandonados. Todos estão conectados à internet graças a seus telefones. Essas comunicações são vitais para contatar os traficantes, estudar os itinerários, falar com a família.

Aqui, há apenas homens, ou quase. A maioria vem do Magreb ou do Irã: eles não têm nenhuma chance de serem aceitos como refugiados. À noite, tentam em pequenos grupos forçar o arame farpado que cerca a fronteira entre a Grécia e a Macedônia. Larbi H., originário do sul do Marrocos, já tentou diversas vezes: “Existem buracos nas barreiras, mas é preciso tomar cuidado, porque os soldados macedônios esperam um pouco mais longe. Eles nos esperam, batem em nós e nos mandam de volta para a Grécia”.

Veles, centro da Macedônia. A casa de Lenče Zdravkin tem vista para a estrada de ferro. Desde 2011, ela vê passar migrantes que caminham ao longo dos trilhos; na época, o acesso aos trens era proibido para eles. Cidade industrial adormecida, Veles se encontra quase na metade do caminho entre as fronteiras da Grécia, no sul, e da Sérvia, no norte. “Comecei a dar água para eles, biscoitos, roupas… Oferecia para que descansassem por uma hora na sombra, lavassem os pés. Muitos tinham medo, se escondiam da polícia, mas rapidamente meu endereço circulou nas redes sociais.” Essa mãe de família de cerca de 50 anos foi uma das primeiras na Macedônia a se mobilizar em favor dos migrantes e dos refugiados. “Alguns pensaram que eu estava louca por cuidar assim das pessoas que passavam. Depois, os vizinhos, os moradores da cidade começaram a trazer comida, cobertores.” Na primavera de 2015, todos os dias, dezenas de pessoas faziam uma parada em Veles. Lenčcontinuou seu engajamento como voluntária no acampamento de Gevgelija. Mesmo após o fechamento da rota dos Bálcãs, ela ainda vê refugiados passando a pé. “Se proibimos os migrantes de passar legalmente, eles não têm outra escolha a não ser continuar avançando escondidos. Eu tinha acreditado que a Europa traria soluções humanitárias, permitiria às pessoas viajar dignamente. Ao contrário: estamos de volta aos piores momentos da clandestinidade.” De sua janela do primeiro andar, ela espreita de novo as sombras furtivas que avançam ao longo dos trilhos.

 

Voluntários tchecos e eslovacos

Lojane, nos flancos do Kadarak, região albanesa da Macedônia. No pé dos picos que as separam do Kosovo, as cidades de Vaksince e Lojane têm vista para a estrada, a ferrovia e o posto de fronteira de Tabanovce, entre a Macedônia e a Sérvia. Há muito tempo, a polícia macedônia não entra mais nesses vilarejos, antigos locais de resistência da guerrilha albanesa, ponto de encontro de diversos tráficos. Lojane por muito tempo foi uma etapa obrigatória: os migrantes esperavam a noite para tentar passar clandestinamente para a Sérvia, dormindo em casas em construção ou nos matagais próximos da fronteira, na “selva” local. Com a organização do corredor humanitário, os fluxos se desviaram durante diversos meses em direção ao vale. Mas os “ilegais”, os “migrantes econômicos” aos quais o acesso a esse corredor era recusado, retomaram o caminho da montanha. “A violência aumentou na mesma proporção das restrições impostas pela União Europeia”, lamenta Francisca Baptista da Silva, porta-voz dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Sérvia. Em maio de 2015, uma rede de sequestradores dirigida por um afegão apelidado de “Ali Babá” foi desmantelada, permitindo a libertação de diversas dezenas de refugiados. Depois disso, os “negócios” recomeçaram.

Preševo, sul da Sérvia. A emigração continua sendo uma solução econômica para os 50 mil habitantes da cidade, majoritariamente povoada por albaneses, que se encontra no fundo de um vale pobre, espremido entre o Kosovo e a Macedônia. A polícia registra a identidade dos refugiados e pega suas impressões digitais em uma fábrica de tabaco agora fechada, como a quase totalidade das empresas da cidade. A crise dos refugiados favoreceu a chegada maciça de dinheiro vivo. Transporte em ônibus para a Croácia, alimentação, telefonia celular: uma economia paralela inteiramente voltada para eles se instalou durante o pico das chegadas, entre junho e novembro. Shkëlzen K., que possui um minimercado bem na frente do centro, afirma ter triplicado seu ganho em 2015. O bairro da estação tinha então se tornado um acampamento a céu aberto. Milhares de pessoas dormiam nas calçadas enquanto esperavam para ser identificadas e obter uma autorização de passagem com validade de 72 horas emitida pelas autoridades sérvias, indispensável para a continuação da rota rumo à Croácia. O centro de registro continua aberto, mas as chegadas se tornaram mais raras.

Dimitrovgrad, fronteira sérvio-búlgara. Para alguns, a chegada à Sérvia tem o gosto de uma primeira vitória, de uma libertação. A cada dia, de cem a trezentos afegãos chegam a essa região abandonada. Vindo da Turquia, eles atravessam a pé a Bulgária, andando à noite, se escondendo. A viagem dura duas semanas para os mais fortes e sortudos. Quase todas as narrativas se assemelham. Elas evocam os espancamentos sistemáticos pela polícia búlgara, que rouba dos refugiados suas economias e seus preciosos telefones. Quase sem forças, Javeed, adolescente de 15 anos, titubeia de cansaço perto do centro de acolhida onde a polícia sérvia emite as autorizações. Duas grandes barracas permitem se abrigar do frio, mas nunca há lugar suficiente para todos. Voluntários vindos da Suíça distribuem sopa e cobertores. “Só os afegãos podem fazer essa viagem”, diz um amigo de Javeed. “Estamos acostumados a andar na montanha; os sírios não conseguiram nos acompanhar.” Os afegãos que atravessam a Bulgária também são os mais pobres dos refugiados, aqueles que não podem pagar os traficantes humanos. A continuação de sua viagem se tornou bem mais aleatória depois que os países europeus pararam de aceitá-los.

Šid, fronteira sérvio-croata. Entre o meio de setembro e o fim de outubro de 2015, mais de 200 mil refugiados passaram da Sérvia para a Croácia empregando o pequeno posto de Berkasovo/Bapska, nas colinas que acompanham os meandros do Danúbio. Durante esse período, quase mil voluntários tchecos e eslovacos se sucederam na fronteira, oferecendo comida e reconforto. “Estamos aqui porque temos vergonha de nosso presidente, vergonha de nosso governo”, explicou Pavel H., cristão evangélico de cerca de 50 anos que acampava em Berkasovo com militantes anarquistas. “Queremos mostrar que nem todos os tchecos são a favor do fechamento das fronteiras.” Em seguida, a passagem se organizou na estação da cidade vizinha de Šid, onde os policiais sérvios e croatas velavam conjuntamente o embarque dos refugiados na direção do centro de acolhida croata de Slavonski Brod. “Como se diz ‘por favor’ em árabe? Você aí, o croata, você sabe?”, solta ao colega um funcionário sérvio que tenta orientar uma família síria. A chegada dos refugiados contribuiu para restabelecer as relações “funcionais” entre os inimigos de ontem. 

Subotica, fronteira sérvio-húngara. De 1945 a 1989, essa cidade, a última da Sérvia antes da Hungria, era colada na cortina de ferro que cortava a Europa em duas. Em 2011, a cidade se tornou um nó essencial da rota dos Bálcãs. Os migrantes se agrupavam nas cercanias de uma antiga fábrica de tijolos abandonada. Redes de traficantes humanos garantiam a transferência até a Hungria. No inverno de 2014-2015, não menos que 100 mil kosovares se aproveitaram dessas redes em um êxodo tão repentino quanto efêmero. Depois do bloqueio total da fronteira pela Hungria, em 14 de setembro, mais ninguém passava por Subotica; mas, com a instalação da distinção entre “refugiados” e “migrantes econômicos”, a selva atrai novamente os candidatos ao exílio. Hakim T., originário do Marrocos, espera uma transferência de 1.200 euros para pagar a passagem pela fronteira. “Devo ser levado de carro, o guia vai me mostrar uma abertura nos arames farpados e alguém vai estar me esperando do outro lado. Não é tão difícil assim.” Apesar dos perigos bem reais – violência, roubo e prisão caso seja pego –, as passagens clandestinas recomeçaram aos poucos à medida que as vias “legais” se fechavam.

 

Sveta Lucija, fronteira croata-eslovena. Uma memorável partida de vôlei aconteceu nesse pequeno posto de fronteira dos confins da Ístria. Em 19 de dezembro de 2015, para protestar contra a construção de um muro de arame farpado ao longo das fronteiras eslovenas, os cidadãos dos dois países se encontraram dos dois lados da cerca. Os militantes e os esportistas não são os únicos a se opor a essa barreira: as associações de caçadores denunciam também o obstáculo que ela representa para os animais. Nem o desmantelamento da Iugoslávia nem a adesão da Eslovênia à União Europeia em 2004 tinham levado à construção de uma cortina de ferro como essa.

 

Grécia e Albânia

Šentilj, fronteira austro-eslovena. Foi nesse local que explodiram os primeiros enfrentamentos das guerras iugoslavas, em junho de 1991, quando a Defesa Territorial Eslovena retomou das unidades do Exército Popular Iugoslavo o controle das fronteiras com a Áustria. O posto de Šentilj/Spielfeld é o principal ponto de passagem entre os dois países, o verdadeiro cadeado da rota dos Bálcãs. Durante todo o outono de 2015, ele permaneceu fechado para a circulação de veículos, enquanto a cada dia milhares de refugiados esperavam para poder passar rumo ao norte. Em 19 de fevereiro, a Áustria introduziu quotas, limitando o acesso ao seu território a oitenta solicitadores de asilo por dia, e a 3,2 mil refugiados, que deviam provar que seu destino final era um terceiro país. Nesse mesmo dia, Viena reunia os chefes da polícia da Eslovênia, da Croácia, da Sérvia e da Macedônia para colocar em funcionamento um procedimento único de registro dos refugiados em trânsito. Alguns dias depois, a Áustria organizou um encontro regional dos chefes de governo – deixando de convidar a Grécia, que denunciou imediatamente uma iniciativa “unilateral e pouco amistosa”. Sem reação verdadeira da União Europeia, a Áustria e seus aliados do “grupo de Visegrád” (Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Polônia) se libertavam das regras do espaço Schengen e terminavam o fechamento da rota dos Bálcãs.1

Kafasan, nas margens do lago de Ohrid, fronteira albano-macedônia. Mesmo que os fluxos provenientes da Turquia estejam diminuindo, as dezenas de milhares de pessoas bloqueadas na Grécia procuram novas rotas. Duas parecem possíveis: uma poderia passar pela Romênia e a Ucrânia; a outra, pela Albânia. A partir desse último país, os refugiados poderiam passar para Montenegro, depois para a Bósnia-Herzegovina e para a Croácia, ou então tentar chegar diretamente à Itália atravessando o Mar Adriático. Há meses, as autoridades de Tirana esperam sua chegada. No início de março, elas começaram a empregar unidades especiais da polícia nos confins do país, na fronteira grega e nas cercanias do posto de Kafasan, na fronteira com a Macedônia, entre Podradec e Struga. Controlar todas as vias de passagem nas montanhas albanesas será, no entanto, difícil, e o país pode rapidamente se transformar em um novo beco sem saída. 



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