Uma televisão que incomoda - Le Monde Diplomatique

O FATOR AL-JAZEERA

Uma televisão que incomoda

setembro 14, 2011
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A secretária de Estado Hillary Clinton reconheceu no início de 2011: Al-Jazeera é uma emissora profissional, e os Estados Unidos perderam a guerra da informação. Ao levar para os lares imagens das insurreições árabes, essa emissora de televisão tem papel decisivo nas reviravoltas atuais da região

Todas as terças-feiras, às 21h05 do horário universal, um número cada vez maior de espectadores de língua árabe se prepara para assistir ao debate “A direção oposta”, que coloca frente a frente dois interlocutores defendendo propostas contraditórias. Esse programa, que se assemelha ao “Crossfire” norte-americano, é o mais popular da Al-Jazeera, o canal de televisão por satélite do mundo árabe, que tem o mérito de oferecer a seus telespectadores informações não censuradas, assim como os comentários mais livres que jamais puderam ouvir em sua língua. A Al-Jazeera alvoroçou um cenário audiovisual estreito, fragilizando as rédeas com as quais os governos prendem a população.1

O apresentador do programa “A direção oposta” é Fayçal al-Kassim. Descendente de uma família de camponeses pobres da região do Jebel, na Síria, Kassim sempre foi fascinado pelos meios de comunicação. Aos 39 anos, goza de uma popularidade com a qual jamais poderia ter sonhado quando, aos 14 anos, realizou sua ambição juvenil de visitar as instalações da Rádio Damasco, nem mesmo durante os sete anos que passou na seção árabe da BBC, provavelmente a fonte de informações mais respeitada do mundo árabe antes da criação da Al-Jazeera.

 

Democracia “de cima para baixo”

Em 1995, o sheik Hamad Ben Khalifa El Thani, do Qatar, derrubou seu pai com um golpe de Estado não violento.2 O acontecimento não chegou a ocupar as manchetes: com uma população autóctone de cerca de 100 mil habitantes, o emirado é o menor dos países árabes, e Doha, sua capital, a mais entediante do mundo. Porém, o novo soberano logo agitaria o país com uma democratização “de cima para baixo”, criando um canal por satélite destinado aos países árabes.

O que não é de espantar, nessa torre de Babel que se tornou a região. Além dos inúmeros meios de comunicação locais que controla ou manipula, cada governo deve possuir seu próprio canal de difusão pan-arabista. A Arábia Saudita é quem domina essa nova ordem da comunicação, uma vez que a família real e seus aliados do mundo dos negócios investiram bilhões de dólares em gigantescas emissoras “offshore”, como a MBC, em Londres, ou Orbit e ART, em Roma.

No entanto, o conteúdo tarda a evoluir: qualquer que seja o país é sempre a mesma propaganda, e os noticiários ficam servilmente dominados pela agenda do presidente, do monarca ou do emir. “É o jornalismo do ‘bom-dia’ e do ‘até logo’”, explica Kassim, “que consiste em enumerar as personalidades que o Guia recebeu e das quais se despediu”.

A programação desses canais é uma das mais baixas formas de distração: intermináveis “série-novelas” egípcias, filmes estrangeiros dublados, jogos de perguntas e respostas, entrevistas superficiais, variedades e alguns programas insinuantes no plano sexual. Um pouco como se quisessem impedir os árabes de pensar em política. E, se os conflitos que afligem a “família” árabe são conhecidos, as emissoras se esforçam para respeitar a Carta de Honra árabe, promulgada em 1965 pela Liga Árabe, destinada principalmente a calar uma imprensa libanesa que era, na época, notoriamente corrupta, mas também refratária.

O senhor do Qatar tomou a decisão absolutamente inédita de que seu governo financiasse o novo canal, porém dando-lhe independência total. “Não temos exército nem tanques, lembra um jovem arquivista qatari, só a Al-Jazeera.” Esse é um trunfo que serviu para conquistar toda a região, mais pela pena que pela espada. E com apenas trezentos funcionários. O que não deixaria de surpreender o presidente Mubarak, por ocasião de uma visita: “E pensar que toda essa confusão saiu desta lata de sardinhas!”.

Não sem certa ironia, ninguém contribuiria mais para o sucesso desse Davi, que o Golias dos meios de comunicação, o “irmão mais velho” do golfo: a própria Arábia Saudita. Até então, ela havia financiado, por meio da Orbit, os novos serviços árabes da BBC. Mas quando, em 1996, a BBC teimou em difundir um filme que fazia críticas ao reino, a parceria terminou. Kassim e dezenove funcionários desempregados foram atraídos pelo salário e liberdade prometidos pelo Qatar. Um compromisso cumprido de maneira que nenhum deles esperava. Kassim constatou que não recebia praticamente nenhuma diretriz a respeito do conteúdo dos programas. “Aqui, eu lido com questões que nunca poderia esperar abordar quando trabalhava na BBC.”

Uma equipe de cidadãos de praticamente todos os países árabes juntou-se aos ex-funcionários da BBC. A Al-Jazeera está no ar 24 horas por dia. A emissora revelou a existência de um público com sede de rigor e seriedade. “De acordo com uma ideia comumente aceita, jovens e mulheres não se interessam por programas sérios. Mas as cartas que recebo provam que eles apreciam os nossos”, explica Kassim. Essa estratégia dirigida para um público de qualidade permitiu que a Al-Jazeera vencesse a concorrência. Efetivamente, uma pesquisa realizada no ano 2000 mostrou que a sua rival mais próxima, a MBC, financiada pela Arábia Saudita, estava bem atrás, seguida curiosamente pela ANN, baseada em Londres e que pertence ao irmão dissidente do finado presidente sírio, Hafez al-Assad.

 

Crescimento exponencial

Os árabes anglófonos que assistiam CNN têm agora um programa equivalente, na própria língua, que atende às suas preocupações com um entusiasmo e pertinência que nenhuma emissora estrangeira poderia igualar. Dessa forma, o número de espectadores cresceu exponencialmente. “Geralmente, somos os primeiros a divulgar as notícias e, quase sempre, os primeiros a obter as análises dos comentaristas importantes”, declarou o redator-chefe, Salih Nagm.

Mas o carro-chefe da Al-Jazeera continua sendo o programa de debates sobre atualidades. Ao contrário das outras emissoras árabes, seus programas são realizados ao vivo, sem filtrar questões constrangedoras. “Lancei ‘A direção oposta’ porque achava necessário divulgar o ponto de vista dissidente, virtualmente reduzido ao silêncio no mundo árabe por mais de meio século.” E, de fato, de um dia para outro, os porta-vozes dos inúmeros grupos de oposição encontraram uma tribuna que podia alcançar todas as regiões do mundo. Poucas coisas são tabu, nem mesmo o questionamento da legitimidade de tal ou tal regime. Nem o Islã escapa de algumas alfinetadas.

Durante um duelo verbal sobre poligamia, que se tornou famoso, a feminista jordaniana Tujan Faiçal conseguiu enfurecer a escritora Safinaz Kazem, ex-marxista convertida ao islamismo, a tal ponto que esta última abandonou o programa em plena transmissão, batendo a porta. O que também aconteceu com Reda Malek, leigo, ex-primeiro-ministro argelino, diante das provocações de um militante islâmico. Kassim tornou-se tão célebre na região quanto um dirigente político, a ponto de ser assediado pela multidão onde quer que vá. Quando o seu programa começa, as ruas das grandes cidades ficam desertas, como ocorreu na Síria, seu país natal, quando dois de seus convidados debateram o tema: “Assad abandonou a causa palestina?”.

Nem o estilo nem o conteúdo da Al-Jazeera podem ser comparados ao programa “A voz dos árabes”, emitido do Cairo e principal instrumento de propaganda nos anos de apogeu da era Nasser. Entretanto, muitos acham que é sua mais direta sucessora. Por exemplo, a cobertura do bombardeio de Bagdá, em dezembro de 1998, provavelmente levou os estudantes sírios a invadir a embaixada norte-americana em Damasco; mas, por outro lado, permitiu que o governo compreendesse que não deveria intervir. Dizem que vários dirigentes árabes pró-ocidentais teriam telefonado ao presidente Bill Clinton para preveni-lo que, se os bombardeios continuassem, seria possível ocorrer um levante popular.

 

Incômodo ao poder

Talvez por isso, o mais odiado dos chefes árabes, o presidente Saddam Hussein, foi praticamente o único a sofrer ataques da Al-Jazeera sem protestar, avaliando que mais importantes que os insultos contra ele eram as reportagens solidarizando-se com o sofrimento do seu povo. Em contrapartida, os outros dirigentes, em particular o presidente tunisiano Ben Ali, queixam-se regularmente. O Ministério das Relações Exteriores do Qatar recebeu centenas de queixas oficiais. A Síria insinua que a Al-Jazeera está a serviço do “inimigo sionista”. Já o governo do Kuwait sustenta que a emissora é um instrumento do Iraque. O príncipe Nayef, ministro do Interior saudita, afirma que ela é “brilhante e precisa, mas, sendo um filhote da BBC, não passa de um presente envenenado”. A Jordânia e o Kuwait fecharam o escritório que a emissora tinha em seus países. A Argélia organizou um corte de energia elétrica durante um programa que abordava um tema sensível. A Arábia Saudita pressionou o único funcionário saudita da emissora a se demitir e tentou forçar os publicitários do país a suspender qualquer atividade comercial com a Al-Jazeera.

Os ataques não emanam somente dos governos. Em reação aos “insultos” contra o Islã, do alto de seu púlpito, líderes religiosos protestam todas as semanas. Alguns jornais culpam violentamente Kassim. Foram escritos milhares de artigos dedicados exclusivamente às suas atividades. Seu irmão, cantor bastante famoso que vive e trabalha no Egito, foi vítima de uma campanha desencadeada pelo jornal de maior tiragem, Akhbar al-Yawm, com o objetivo de expulsá-lo do país. Um editorialista jordaniano chegou a declarar que “a língua desse homem deveria ser cortada”.

O Qatar resiste ao rolo compressor. “O sheik Hamad não gosta de ser intimidado”, explicou recentemente uma personalidade oficial. O Ministério das Relações Exteriores comunica diretamente à Al-Jazeera todas as reclamações que recebe. De acordo com o diretor-presidente da emissora, Mohammad Jassim, a resposta sempre é: “Se acharem que nossas declarações estão erradas, têm sempre o direito de resposta”. É claro que existe um limite para as provocações que a Al-Jazeera pode lançar contra os governos árabes, especialmente o da Arábia Saudita, cujas ambições hegemônicas representam uma ameaça permanente para seu minúsculo vizinho, o Qatar.

Apesar de tudo, a liberdade da Al-Jazeera continua sendo muito superior à de seus concorrentes, que só podem reagir de duas maneiras. A primeira consiste em oferecer cada vez mais programas de baixo nível. Mas isso acaba contribuindo para revelar o caráter esquizofrênico da relação que, aos olhos de muitos árabes, a Arábia Saudita mantém com o Islã. Para reduzir seus custos faraônicos, a MBC está se mudando de Londres para Dubai. Por que não escolheu a Arábia Saudita? “Não seja ridículo”, brinca um apresentador islâmico moderado. “Se os ulemás sauditas vissem, num canal nacional, uma mulher seminua como as que se veem nos canais por satélite, ficariam furiosos. Enquanto os seios descobertos vierem de outro país, as aparências estarão salvas.”

Outra reação consiste em plagiar a Al-Jazeera. “Chegam ao ponto de imitar a forma da minha mesa”, conta Kassim, “mas no que se refere ao conteúdo ainda estão bem longe. Estou convencido que uma das principais causas do atraso do qual padece o mundo árabe é a ausência de liberdade de imprensa. Nossa sociedade esconde a sujeira embaixo do tapete há tempo demais. Uma imprensa livre talvez permita, um dia, a emergência da democracia no mundo árabe”.



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