Israel e Palestina: Até a próxima leva de ataques - Le Monde Diplomatique

Opinião

Até a próxima

Acervo Online | Palestina
por Felipe Minhoni
21 de maio de 2021
compartilhar
visualização

A vantagem do conflito permanente sob o ponto de vista da coalizão da direita israelense capitaneada pelo Likud consiste em inviabilizar a realização de concessões tradicionalmente ligadas às negociações de paz. Assim, o status de Jerusalém Oriental, o avanço dos assentamentos na Cisjordânia e o direito de retorno dos refugiados palestinos estão praticamente fora do debate público em Israel.

Uma intragável dose de intransigência permeia o conflito entre Israel e o território semiautônomo de Gaza. De um lado, o Hamas, organização política e militar que governa a Faixa de Gaza desde julho de 2007, tem como pilar fundamental a negação da legitimidade de Israel. Esta ala mais radical e islamista do movimento palestino soma-se a um grupo de países, dentre eles, Afeganistão, Coreia do Norte, Líbia e Somália, os quais se recusam a aceitar a existência do estado israelense dentro das linhas de demarcação estabelecidas em 1949. Muito além de divergir do consenso internacional, a Carta do Hamas de 1987 profere um sem-número de inverdades e declarações antissemitas, incluindo a afirmação de que os judeus sionistas estariam “por detrás” das revoluções Francesa e Russa, bem como das duas guerras mundiais[1].

Do outro lado da fronteira, a apenas 70 quilômetros de Gaza, o governo de Israel sob o comando do partido Likud vem conduzindo há décadas uma política míope de perpetuação do conflito árabe-israelense. Os apoiadores de Benjamin Netanyahu propõem a expansão dos assentamentos ilegais na Cisjordânia, promovem provocações em Jerusalém Oriental e recusam-se a reconhecer o Hamas enquanto entidade política. “Não se negocia com terroristas” é o lema enunciado pelos porta-vozes desta ideologia, ignorando numerosos casos bem-sucedidos de acordos de paz entre governos nacionais e grupos militantes ao longo da história.  Um exemplo que vem à ocasião, salvo as devidas distinções, é o da organização paramilitar judaica Irgun, predecessora política do partido Likud. Nos anos 30 e 40, era considerada terrorista pelos britânicos e pela própria Agência Judaica, mas posteriormente foi integrada ao exército israelense e seus membros anistiados.

De todo modo, a intransigência para com os islamistas seria um problema menor não fosse o Hamas o partido preferido de pelo menos um terço dos quase cinco milhões de palestinos, de acordo com pesquisas de opinião recentes[2]. Após mais de 15 anos das primeiras eleições parlamentares palestinas vencidas pelo Hamas, novas eleições vêm sendo organizadas sob crescentes tensões. No pleito vindouro, o passado parece se repetir: como em 2006, o Hamas desponta como facção favorita em Gaza e em partes da Cisjordânia. E, como em 2006, o presente ciclo eleitoral fornece o contexto para uma série de atritos entre o chamado Movimento de Resistência Islâmica[3] e o governo de Israel.

Carreata “Palestina Livre” pelas ruas da Fronteira entre Brasil e Uruguai (Rivera e Livramento ) (Crédito: Marcelo Pinto/A Plateia)

Naquela ocasião, o governo de Ariel Sharon, também Likud, havia empreendido uma retirada unilateral de colonos e soldados israelenses do território ocupado de Gaza, supostamente abrindo caminho para a autodeterminação dos palestinos. Seu propósito, conforme explicou um dos assessores mais próximos de Sharon, era outro: inviabilizar as negociações de paz, desvinculando uma área problemática da responsabilidade dos israelenses[4]. Animados com a ilusória perspectiva de novos acordos de paz e a possível formação de um estado palestino independente, a comunidade internacional, representada pelo Quarteto (Nações Unidas, União Europeia, Estados Unidos e Rússia) deu suas bênçãos para novas eleições parlamentares. Entretanto, contrariando todas as expectativas externas, não foi o conservador Fatah do então já Presidente Mahmoud Abbas, e sim o partido radical Hamas de Ismail Haniyeh quem se sagrou vitorioso, levando 45% dos assentos. A vitória eleitoral de 2006 deu início a um ciclo de hostilidades entre Hamas e Fatah que culminou com uma espécie de “autogolpe” dos islamistas em Gaza. A partir de então, esta permaneceu sob o controle do grupo, enquanto o Fatah manteve o controle da Autoridade Palestina sediada em Ramallah, na Cisjordânia.

Isolados politicamente a despeito de sua popularidade eleitoral, restou aos líderes do Hamas a opção de radicalizarem-se ainda mais, aprofundando suas hostilidades com o país vizinho. Ao longo dos anos seguintes, Gaza apelou para uma política de conflagração total da guerra contra o inimigo em busca de concessões e auxílio externo de teocracias regionais, como Qatar e Arábia Saudita. E assim foram intensificados os lançamentos de foguetes sobre cidades israelenses, dando início ao longo e permanente conflito Gaza-Israel.

Mais de uma década depois, o fantasma desta crise vem novamente vem bater à porta. No último dia 10, após um ultimato ignorado que exigia a retirada de tropas israelenses de Jerusalém Oriental, o Hamas lançou um salvo de foguetes sobre a cidade, iniciando a recente escalada militar. Em uma tentativa de influenciar a conduta de Israel sobre o que a comunidade internacional considera como território palestino ocupado, a Resistência desafiou as forças desproporcionalmente superiores do inimigo, aproveitando para associar seu nome à luta por direitos dos moradores expulsos no bairro de Sheikh Jarrah[5].

Como de praxe, as forças israelenses responderam à provocação com força total, obliterando alvos militares e boa parte da liderança do grupo sem demora. Também como de costume, vozes importantes da comunidade internacional se mostraram consternadas com as numerosas mortes de civis causadas pela resposta israelense, denunciando a desproporcionalidade da retaliação. Protestantes marcharam em Londres, Nova York, Paris e Berlim.

A reação popular e midiática ao conflito talvez fosse surpreendente caso estivéssemos diante de alguma novidade. Muito pelo contrário. Resumindo uma história longa, que inclui episódios de guerra em 2008-2009, 2012 e 2014, milhares de mortes palestinas e centenas de israelenses, trata-se apenas da política de manutenção do conflito em pleno funcionamento. Nas palavras do célebre general prussiano e teórico militar Claus von Clausewitz, a guerra nada mais é do que “a continuação da política por outros meios”[6]. Neste sentido, a prorrogação desnecessária do uso de meios extremamente violentos por Gaza e Israel visa a consecução de determinados fins pelos beligerantes. Dito de outro modo, é notório que a manutenção deste tipo de conflito de baixa intensidade entre o islamismo radical e a direita israelense pró-assentamentos é benéfico para ambos. Aprendendo com os exemplos do passado, seus líderes demonstram saber utilizar habilmente a ferramenta da violência para extrair excelentes ganhos.

É importante frisar este ponto, pois em Israel e ao redor do mundo prevalece a concepção equivocada de que o conflito é travado pela sobrevivência de um povo. A ideia de genocídio, embora seja propagada por extremistas em Jerusalém e em Gaza, não é aceita pela imensa maioria da população de ambos os lados. O que move as hostilidades é algo muito mais trivial – business as usual. Portanto, e surpreendentemente para alguns, não há sionistas conspirando com maçons para dominar o mundo no alto comando do exército israelense, assim como não há ninguém no Comitê Político do Hamas que realmente acredite na possibilidade da destruição do Estado de Israel.  O discurso racista de um Itamar Ben Gvir ou de um Fathi Hammad é essencial à perpetuação do conflito, mas opera de formas auxiliares: mobiliza as massas em torno de governos fracos e obstrui o debate público. Enquanto o povo se ataca nas ruas, profere xingamentos na televisão e através das mídias sociais, ambos os combatentes reivindicam vitórias estratégicas durante o esforço de guerra. E não sem razão.

A vantagem do conflito permanente sob o ponto de vista da coalizão da direita israelense capitaneada pelo Likud consiste em inviabilizar a realização de concessões tradicionalmente ligadas às negociações de paz. Assim, o status de Jerusalém Oriental, o avanço dos assentamentos na Cisjordânia e o direito de retorno dos refugiados palestinos estão praticamente fora do debate público em Israel. Além disso, as hostilidades com Gaza impossibilitam o ingresso de facções árabes não-sionistas nas coalizões de governo, pois nestes casos, afirma-se, as contradições no seio do gabinete prejudicariam a tomada de decisões militares.

Já para o Hamas, o conflito também é vantajoso, pois tanto as vitórias como as derrotas militares são garantias de aumento da popularidade. Quaisquer mortes e destruições de infraestrutura palestina na Faixa de Gaza, muitas das quais causadas por seus próprios foguetes, apenas reforçam suas teses. Uma Israel cruel e violenta é sem dúvidas a melhor propaganda para a Resistência. Soma-se a isso o fato de que a reconstrução é uma via importante de arrecadação de recursos estrangeiros e seu consequente desvio para finalidades militares. Por fim, vale lembrar que o permanente estado de guerra inviabiliza a organização de novas eleições, perpetuando o governo atual.

Diante desta conjunção de forças naturalmente hostis, é necessário estar atento às armadilhas do debate público. Simplificações do conflito propostas pela propaganda anti-Israel vêm contribuindo para o recrudescimento do antissemitismo moderno, tão perigoso quanto as teses de superioridade racial e cultural defendidas por judeus ultranacionalistas. Estas falácias geram a perpetuação do ciclo vicioso, tomando o lugar de questões fundamentais e pouco comentadas: por que se considera aceitável investir bilhões do orçamento público israelense para manter assentamentos ilegais que favorecem uma minoria? Por que a comunidade internacional fecha os olhos para o contrabando de armamentos e esquemas financeiros que possibilitam o uso de foguetes do Hamas contra civis? Quais países se beneficiam das hostilidades, estendendo seu poderio militar e diplomático para mediar o conflito?

Estes são alguns dos questionamentos a que se deve propor um debate verdadeiramente crítico e pacifista acerca do conflito entre Israel e a Faixa de Gaza. Até que sejam levados a sério, aguardaremos com angústia à próxima leva de ataques.

Felipe Minhoni, advogado e mestrando em Segurança Internacional pela Universidade de Tel Aviv.

[1] Hamas Covenant (1987), artigo 22. Disponível em inglês em: https://avalon.law.yale.edu/20th_century/hamas.asp

[2] Public Opinion Poll No. 78 (2020, December 27). Palestinian Center for Policy and Survey Research.

[3] Em árabe, Ḥarakat al-Muqāwamah al-ʾIslāmiyyah ou Hamas.

[4] Shavit, A. (2004, October 6). Top PM aide: Gaza plan aims to freeze the peace process. Haaretz.Com. https://www.haaretz.com/1.4710372

[5] Kingsley, P. (2021, May 19). Evictions in Jerusalem Become Focus of Israeli-Palestinian Conflict. The New York Times. https://www.nytimes.com/2021/05/07/world/middleeast/evictions-jerusalem-israeli-palestinian-conflict-protest.html

[6] Von Clausewitz, C. (2008). On war. Princeton University Press.



Artigos Relacionados

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Descolonize o sistema, liberte o futuro

Online | Mundo
por Paloma Costa, Samela Sataré Mawé, Marcelo Rocha e Gabriel Mantelli
CIDADES DO AMANHÃ

Mudanças climáticas: lutar contra quem?

por Rodrigo Faria G. Iacovini e Victor H. Argentino de M. Vieira
Guilhotina

Guilhotina #135 – Tiago Muniz Cavalcanti

CÂNONE DA LITERATURA PELA MARGEM

Exposição apresenta o projeto literário da escritora Carolina Maria de Jesus

Online | Brasil
por Bianca Pyl
GRITO DOS EXCLUÍDOS – III

A moradia é a porta de entrada para todos os outros direitos

Online | Brasil
por Graça Xavier
GRITO DOS EXCLUÍDOS – II

Bolsonaro e o golpe

Online | Brasil
por Frei Betto
GRITO DOS EXCLUÍDOS – I

Mais 590 mil mortes, consciência ética e lutas contra o bolsonarismo em São Paulo

Online | Brasil
por Samantha Freitas
FRATURAS EXPOSTAS PELA PANDEMIA

Saúde: inovar é preciso, produzir também

Online | Brasil
por Alexandre Padilha e Jandira Feghali