Samantha Prado, Autor em Le Monde Diplomatique

Guilhotina #114 — Caio Pompeia

Bianca Pyl e Luís Brasilino conversam com o antropólogo Caio Pompeia, autor do livro “Formação política do agronegócio”, lançado em fevereiro em parceria da editora Elefante e com O Joio e O Trigo. A obra detalha a trajetória do agribusiness no Brasil, do surgimento do conceito nos Estados Unidos ao governo Bolsonaro, analisando a postura …

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A crise do neoliberalismo pede a construção de um feminismo anticapitalista

A atual crise do neoliberalismo pede a construção de um feminismo anticapitalista. Esse é o tópico central da análise apresentada no manifesto Por um feminismo para os 99%, escrito por Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser. A obra foi publicada no Brasil em 2019 e, ao longo do mês de março, deu o tom …

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Por que os funcionários públicos japoneses se matam de trabalhar

Uma hora e trinta da madrugada. No bairro Kasumigaseki, em Tóquio, que reúne a maior parte das instituições do país, filas intermináveis de táxis rodeiam os prédios imponentes dos ministérios. Como perderam o último metrô, os funcionários caminham apertando o passo e se precipitam em direção aos carros, que desaparecem nas profundezas da noite. Essa …

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Miscelânea – Resenhas

NOVA GAZETA RENANA Karl Marx e Friedrich Engels, Expressão Popular   Fim de fevereiro de 1848. Ainda era inverno quando Paris sentiu o calor de um intenso processo revolucionário que irradiou por grande parte da Europa continental, entre o Atlântico e as fronteiras com a Rússia. Entre 1846 e 1848, a Europa ocidental e central …

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A história do sono

Nos primeiros dias do outono de 1878, Robert Louis Stevenson, na época com 27 anos, passou doze dias fazendo caminhadas nas Cevenas, cadeia de montanhas no centro-sul da França. Sua única companheira de viagem era uma mula com o nome de Modestine. Stevenson só publicou A ilha do tesouro e se tornou célebre na literatura …

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Na Itália, a austeridade volta pela janela

A Itália confirma sua reputação de laboratório político. Dez anos depois de Mario Monti e seu governo de tecnocratas, outro ex-funcionário da Goldman Sachs vem se instalar no Palácio Chigi. Como seu predecessor, e como Emmanuel Macron por ocasião da campanha presidencial francesa de 2017, Mario Draghi pretende superar a divisão entre direita e esquerda …

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Na Bélgica, um improvável banco ético

“Mudemos o banco para melhor”: em 21 de novembro de 2020, essa mensagem apareceu em letras garrafais nas telas dos cooperados conectados à assembleia geral do NewB, o novo banco belga “cooperativo”, “ético” e “sustentável”. Sobre um palco erguido para a ocasião, o atual presidente da instituição, Bernard Bayot, fez as vezes de mestre de …

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Mobilização contra os golpes imobiliários na Rússia

Para serem vistas pelos motoristas, barracas foram montadas na beira da estrada, e, para ajudar nas noites mais frias, os homens construíram um abrigo de madeira coberto com lonas e equipado com uma lareira. Dentro dele, uma cozinha e alguns beliches. No verão de 2020 – por exatamente 88 dias –, cerca de cinquenta membros …

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O difícil diálogo entre Washington e Teerã

Eleito, Joe Biden afirmou que a América estava “de volta” e que seu país estava “pronto para dirigir o mundo, e não dele se afastar; pronto para enfrentar seus adversários, e não rejeitar seus aliados; e pronto para defender seus valores”. A celebridade de reality show que o precedeu na Casa Branca havia prometido que …

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Guilhotina #110 -Tiago Santos Salgado

Neste episódio, Bianca Pyl e Luís Brasilino conversam com o historiador Tiago Santos Salgado, autor do livro “Democracy delivers: a intervenção dos EUA na Venezuela chavista” (https://bit.ly/39pSCbI), lançado em março pela editora Telha. A obra lança mão de documentos oficiais do governo norte-americano, vazados pelo Wikileaks, para investigar se houve ou não interferência de Washington …

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Sonia Guajajara e a luta das mulheres indígenas por espaço na política institucional

Sonia Guajajara é um dos maiores nomes da luta indígena da atualidade. Hoje coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Sonia tem marcado os últimos anos de luta e organização política no país, inclusive sendo a primeira mulher indígena a participar de uma chapa presidencial nas eleições de 2018 – ao lado …

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Reflorestar o pensamento: a saída feminista é coletiva e anticapitalista

“A transformação só vem a partir do coletivo com consciência política e ecológica. Precisamos de coragem para romper com o neoliberalismo, empatia e sensibilidade para reflorestar o mundo, começando por reflorestar o pensamento”. Com essa fala Sonia Guajajara fechou o debate “Feminismo, comuns e ecossocialismo”, ao lado da autora Silvia Federici e da mediadora Bruna …

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Evento promove ciclo de debates e curso sobre pensamento feminista negro

De 8 de março a 12 de abril, será realizado, de maneira virtual, o curso “Introdução ao pensamento feminista negro” e o ciclo de debates internacional “Por um feminismo para os 99%”. A programação conta com 24 pensadoras e ativistas de 5 diferentes nacionalidades. Todas as atividades são gratuitas e sem necessidade de inscrição prévia. …

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Miscelanêa

O FUTURO COMEÇA AGORA: DA PANDEMIA À UTOPIA Boaventura de Sousa Santos, Boitempo   O futuro começa agora: da pandemia à utopia é um texto denso e refletido, muito bem concebido e executado, atingindo rigorosidade analítica, responsabilidade política e sensibilidade pessoal, com profunda preocupação ética. No início, somos agraciados com um apanhado histórico das pandemias, …

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Alexei Navalny, profeta em sua terra?

“O combate heroico de Navalny não é diferente dos de Gandhi, King, Mandela e Havel.” Fazendo eco à imprensa ocidental, o ex-embaixador dos Estados Unidos na Rússia, Michael McFaul, não teme o exagero quando evoca o militante anticorrupção que desafia o presidente russo, Vladimir Putin.1 Tratado na Alemanha após sobreviver a uma tentativa de envenenamento …

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Alibaba, uma epopeia chinesa

“Todos sabemos que, quando você faz um empréstimo de 100 mil yuans, você morre de medo do banco. Quando você faz um empréstimo de 10 milhões de yuans, você e o banco morrem de medo. E quando você faz um empréstimo de 1 bilhão de yuans, é o banco que morre de medo de você.” …

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O Ícaro e a impossível democracia latino-americana

Em 2010, Alain Rouquié, um dos mais finos conhecedores da América Latina na França, concluiu um trabalho sobre o continente nos seguintes termos: “Após décadas de instabilidade e ditaduras, a democracia parece ter se enraizado em toda a região”. Tendo em mente a chegada ao poder de Michelle Bachelet no Chile (2006), Evo Morales na …

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“Somos todos gregos”

“Quem se lembra hoje da emoção que apenas o nome ‘Grécia’ despertava, entre 1821 e 1829?”, perguntava-se Edgar Quinet em 1857.1 O entusiasmo era intenso, queimava para aqueles que, tal como o poeta britânico Lord Byron, uniram o gesto à palavra a ponto de ir morrer junto aos muros de Mesolóngi. Seu objetivo: ajudar os …

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Os dentes dos pobres

Em 1970, um jovem dentista de Autun, bafejado pelos ventos do Maio de 68, se lançou em um projeto audacioso: abrir, em Saône-et-Loire, um consultório destinado aos pobres. Bernard Jeault conseguiu obter um empréstimo bancário e aliciar para a aventura quatro colegas, prontos como ele a trair o evangelho de sua profissão: a prática liberal …

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Quando a vitrine começa a rachar

Fevereiro de 2019. Aviões a jato cortam o céu claro dos Emirados Árabes Unidos, uma pequena federação localizada entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico. Confortavelmente instalado e cercado por líderes estrangeiros, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi,1 homem forte da federação e personalidade influente do mundo árabe, Mohamed bin Zayed al-Nahyan (conhecido como …

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Petróleo, a nova atração dos parques naturais africanos

Não há muita coisa capaz de conter a fome das companhias petrolíferas. Na África, 71% dos sítios naturais listados como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) estão sujeitos a concessões minerárias ou petrolíferas.1 A companhia francesa Total, que após uma campanha internacional feita por defensores do meio …

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GameStop, um populismo de plataforma

Apesar do caos que semeou nos mercados mundiais, a saga da GameStop não se resumiu a uma história de investidores individuais humilhando um punhado de fundos de investimentos arrogantes. Ela expressa um prolongamento imprevisível da invasão do Capitólio, em Washington, no dia 6 de janeiro passado. Os dois acontecimentos tiveram como protagonistas uma horda de …

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A opção trágica e violenta pela não ruptura. Até quando?

A história de um povo pode e deve ser contada por vários olhares e sujeitos. Afinal de contas, são vários sujeitos políticos que interagem com interesses e olhares diversos. O fio condutor para entender nossa história pode ser o da não ruptura. Lembrando que entender a história é entender o presente, pois ela nos fala …

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Consolidar a democracia para todes é urgente

Enquanto houver racismo, não haverá democracia. Manifesto Coalizão Negra por Direitos São vários os desafios e potencialidades para a formação de uma frente ampla contra o avanço dos setores conservadores representados pelo presidente Jair Bolsonaro. Entre esses desafios destaco a dificuldade de construir alianças em torno de um projeto político para o país. As diferentes …

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A frente ampla é para ontem

Dois mil e vinte e um será um ano muito ruim. Será novamente muito cruel em termos de sofrimento social e perda de vidas, e muito duro em termos econômicos e sanitários. Só que isso não tornará Jair Bolsonaro um candidato menos forte ou mais fácil de ser batido na eleição de 2022. Pelo contrário, …

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Cabe à esquerda derrotar Bolsonaro

É difícil olhar para o Brasil sem uma sensação de desespero. O governo mais destrutivo da história do país chegou à metade de seu mandato com a possibilidade de um impeachment praticamente descartada e chances ampliadas de reeleição. A condução criminosa – o adjetivo é apenas descritivo, sem caráter hiperbólico ou intenção polêmica – do …

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Por que não mudar de estratégia?

A crise da democracia tornou-se consenso, tanto no debate intelectual como na análise dos eventos que nos aterrorizam cotidianamente. Parece haver uma lacuna, porém, entre essas constatações e as ações efetivas para conter a crise. As esquerdas brasileiras, apesar de convergirem no diagnóstico de que vivemos uma regressão democrática, cuja ameaça mais grave é destruir …

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A juventude de Myanmar desafia a Junta Militar

“Depois dos calafrios de medo que nos assaltam à noite, nossas esperanças renascem de manhã.” Neste 14 de fevereiro de 2021, Lamin Oo, produtor de cinema de Myanmar, justapôs em sua conta no Twitter a fotografia de uma manifestação contra a ditadura e um vídeo com homens armados de bastões que se aproveitam da escuridão …

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Patentes, obstáculo à vacina para todos

Todos se lembram do dilúvio de boas intenções formuladas por ocasião do confinamento no primeiro semestre de 2020. Na sociedade generosamente refundada que se seguiria, as vacinas deveriam ser “bens públicos mundiais”. Ainda em novembro, Emmanuel Macron se perguntava gravemente: “Estaremos prontos, quando uma primeira vacina chegar ao mercado, para garantir seu acesso em escala …

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Um jornalismo de guerras culturais

Ele vai comprando a torto e a direito mídias e editores (Vivendi, Editis, Prisma), cobiça a Europa 1 e o Journal du Dimanche, corta empregos e despesas, estimula um jornalismo de aliciamento voltado para a extrema direita (CNews), implanta o terror nas redações – e ameaça processar o Le Monde Diplomatique por este ter investigado …

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Como Trump e a mídia devastaram a vida pública norte-americana

Antes da desregulamentação, as finanças norte-americanas funcionavam segundo o princípio do “3-6-3”: depósitos a 3%, créditos a 6% e partida de golfe às 3 horas da tarde… Essa tranquilidade foi abalada por um capitalismo de cassino, tão lucrativo quanto a conjuntura da época era favorável. Depois, as bolhas especulativas explodiram. A situação atual da mídia …

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A autonomia como projeto

Análise de conjuntura é uma avaliação de cenários para a ação política. Ela não é neutra, nem pode ser. Então, na luta antifascista, na luta contra o governo Bolsonaro, é preciso avaliar a correlação dos poderes, identificando as fraquezas dos inimigos, as capacidades de nossas forças e onde podemos atacá-los. É um cenário de confrontos, …

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O longo conflito do Ocidente com o Irã: qual o interesse dos EUA hoje?

Depois da Primeira Guerra Mundial, a dissolução do Império Turco-Otomano criou um imenso vácuo de poder no Oriente Médio que logo foi ocupado pelo domínio da França e Inglaterra, as nações vencedoras da guerra. Durante o conflito envolvendo a Tríplice Entente e a Tríplice Aliança, a Inglaterra contou com a ajuda das Revoltas Árabes para …

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Por um feminismo sindical ou um sindicalismo feminista?

Em O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras, bell hooks (com as iniciais em minúsculo por exigência da própria autora) afirma que o feminismo não deve ser um movimento exclusivo das mulheres, mas pode ser dos homens também. De forma muito didática a autora procura aproximar o feminismo das camadas populares a fim de …

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Autonomia do Banco Central toma lugar da pauta do povo

Sob intensa expectativa do país, a Câmara dos Deputados abre seus trabalhos na primeira semana de sessões legislativas do ano. O povo brasileiro a tudo assiste, com grande ansiedade e talvez com alguma esperança, por soluções para os problemas cruciais que afetam sua vida e a de seus entes queridos: uma pandemia que mata mil …

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Escritores africanos entre autoritarismos e a busca por liberdade

Em 1956, o escritor nigeriano Wole Soyinka não sabia que trinta anos depois, em 1986, receberia o Nobel de Literatura. Na época, ele pensava em se alistar para lutar do lado dos húngaros em sua revolta contra o que ele considerava uma agressão soviética. Era uma prova não só do seu interesse no drama da …

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“A culpa não é minha”: os imaturos no poder

Em um célebre texto sobre o Iluminismo, o filósofo alemão Immanuel Kant define a imaturidade como a baixa capacidade de uma pessoa utilizar seu próprio entendimento. Ela se torna esclarecida quando tem a coragem de ser crítica, acionar seu próprio entendimento para procurar o conhecimento e examinar o que lhe é transmitido. Adultos imaturos podem …

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Miscelânea

GOVERNO DE MORTES: UMA ETNOGRAFIA DA GESTÃO DE POPULAÇÕES DE FAVELAS NO RIO DE JANEIRO Juliana Farias, Papéis Selvagens A obra de Juliana Farias é um passo determinante das pesquisas sobre violência de Estado no Brasil. As duas principais características desse avanço se dão pelo estatuto metodológico dado ao “objeto” de sua pesquisa e, por …

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“Tem que trabalhar, senhora”

No fim dos anos 2000, Bouha Bechri, que mora no Alto Loire, perto de Puy-en-Velay, se separou do marido. Com quase 50 anos, marroquina, viera para a França a fim de se juntar ao marido e fora sempre dona de casa. Vítima de violência doméstica, “salvou-se da morte fugindo”, como se lembra uma de suas …

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No Equador, o banqueiro, o iogue e a esperança

A última campanha presidencial equatoriana foi marcada por um projeto: a continuidade do mandato de Rafael Correa, prometida por Lenín Moreno – antes de trair, um por um, seus compromissos.1 Quatro anos depois, todos os candidatos ao cargo supremo são unânimes num ponto: é preciso romper com o atual presidente, que não vai se candidatar. …

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Como o chimarrão argentino resiste à Covid-19

No século XVI, após terem fundado Buenos Aires, futura sede do vice-reinado do Río de la Plata, os conquistadores espanhóis, ávidos por riquezas, continuaram sua expedição nas águas verdes e turbulentas do Rio Paraná. Em vez de ouro e prata, ali encontraram os guarani, um povo ameríndio que saboreava uma bebida estranha, elaborada com uma …

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Na Índia, a maior greve do mundo

No final de novembro de 2020, centenas de milhares de camponeses instalaram-se às portas da capital indiana, Nova Déli, determinados a dobrar o governo. Não é a primeira vez que os agricultores ganham os holofotes da mídia e da política na Índia, seja por causa de tragédias como inúmeros suicídios, seja em razão do combate …

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Sangue e lágrimas nas luvas malaias

Kuala Lumpur, fim de 2019. Nessa noite, Selif S.1 janta em um pequeno restaurante de um bairro industrial da capital malaia. Ele nos confirma que o trabalho escravo é corrente na Malásia: “Todas as pessoas que conheço se endividaram por anos a fim de pagar os agentes de recrutamento que lhes arrumam emprego”. E, para …

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Praça Tahrir, um símbolo sitiado

Todas as vezes que Nader Fahmi1 cruza a Praça Tahrir, no centro do Cairo, seu coração acelera. O motivo não é nem a emoção nem a nostalgia da revolução de 2011 e seu fervor, mas o medo. “Se a polícia me para e pede que eu desbloqueie meu celular, posso ser preso”, sussurra o ativista …

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Após os anos de “desordem”, o governo egípcio procura recuperar a influência

No dia 3 de março, os serviços de segurança egípcios terão um motivo especial para impedir os protestos contra o governo do marechal-presidente Abdel Fattah al-Sisi. Nessa data, três anos terão se passado desde que o Supremo Tribunal Constitucional ratificou definitivamente a entrega das ilhotas de Tiran e Sanafir à Arábia Saudita. Decidida em 2016 …

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Pequenas poupanças arruinadas na Ucrânia

“Onde foi parar nosso dinheiro? Onde?” O desespero na voz de Maria Klimenkova, de 65 anos, é palpável. Essa contadora aposentada faz parte dos 160 mil cidadãos ucranianos, em sua maioria de classe média alta, cujas economias se volatilizaram durante a limpeza do sistema bancário feita entre 2014 e 2017 pelo Banco Nacional da Ucrânia …

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A Escócia sonha com a independência

Se a Covid-19 não interromper o calendário eleitoral, em 6 de maio de 2021 a Escócia se encontrará no centro das atenções do drama constitucional sem fim que o Reino Unido tem oferecido ao mundo nos últimos anos. O roteiro já está escrito: apesar da pandemia, a sexta eleição geral escocesa será disputada, ainda mais …

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O enigma do La Coubre

Na sexta-feira, 4 de março de 1960, por volta das 9h30, o cargueiro francês La Coubre atraca no cais de Havana. A bordo, cargas embarcadas nos portos de Hamburgo, Antuérpia e Le Havre com destino aos Estados Unidos, México e Haiti. Jean Le Fèvre é o imediato. Ele testemunha: quando autorizados a subir a bordo, …

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A corrida infernal dos pequenos produtores do campo

Em um prédio gigantesco de 5 mil metros quadrados, centenas de vacas que nunca pisarão em um pasto vagueiam sob grandes ventiladores umidificadores que giram silenciosamente. Em intervalos regulares, pequenos vagões percorrem a fazenda em seus trilhos, movendo-se de um silo de armazenamento a outro, misturando os alimentos e distribuindo ração. No estábulo, rebatizado de …

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Paranoias norte-americanas

A era Trump terminou numa apoteose de egoísmo, incompetência e violência. O presidente bilionário guardou o pior para o fim. Após perder a eleição de 3 de novembro de 2020, recusou-se a aceitar a derrota e atulhou os tribunais com dezenas de recursos – todos rejeitados até por juízes que ele havia nomeado –, alegando …

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A unidade em torno da política social neoliberal e regressiva de Paulo Guedes

É uma tarefa complexa analisar o comportamento político da classe dominante no governo Bolsonaro. Temos de encontrar os conceitos com os quais devemos proceder essa análise, verificar a forma adequada de mobilizá-los e buscar informações empíricas confiáveis e suficientes. Em primeiro lugar, é preciso saber se devemos falar em classe ou em classes dominantes. Dado …

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A frente neocolonial

O bolsonarismo é um fenômeno de múltiplas dimensões. Alguns autores procuram na teoria política semelhanças com outros fenômenos políticos, como o bonapartismo (Ricupero, 2019). Outros preferem buscar na psicanálise ou na psicologia de massas algumas referências para pensar o papel de Bolsonaro na política nacional (Souza, 2018). O que parece claro, no entanto, é que …

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As classes dominantes e o governo Bolsonaro

A natureza e a resiliência do governo Bolsonaro, bem como sua relação com as distintas frações da burguesia e outros segmentos sociais do “andar de baixo”, foram tratadas por mim em inúmeros artigos escritos entre 2018 e 2020.1 Resgatando as principais ideias e teses neles contidas, podemos resumi-las da seguinte forma: 1) Bolsonaro é expressão …

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Rumo ao Quinto Mundo?

Ainda não chegamos ao fundo do poço. Ou seja, a situação ainda pode piorar, e muito! A epidemia de Covid-19 vai cobrar muitas mais vidas, inclusive dos mais ricos, com o colapso na área de saúde vivido por Manaus se repetindo em outras cidades importantes do país. A fome está batendo à porta dos mais …

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“Calem a boca!”

Em 9 de janeiro de 2021, onze dias antes do fim do mandato de Donald Trump e quando até uma parte de seus mais fiéis republicanos o abandonaram, o Twitter encerrou sua conta e o Facebook a suspendeu. Os delitos do ex-presidente não eram, entretanto, piores que os da CIA ou de outros chefes de …

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A desigualdade em Minas Gerais

Assim como o Brasil, Minas Gerais convive com a alta lucratividade do setor primário ao mesmo tempo em que boa parte da população é pobre. Tal segmento, composto, em sua maior parte, pela indústria extrativa e agropecuária, é baseado nas terras. E a alta concentração destas explica o porquê dessa desigualdade.   Levantamento feito com base …

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O agro é tóxico!

Muita propaganda é lançada nos meios de comunicação hegemônicos e oligárquicos a respeito da “importância do agronegócio”. Nela vemos a descrição de que “o Agro é pop”, “o Agro é tech” e sem ele não teríamos comida suficiente para abastecer a população de uma maneira geral. No entanto, poucos se atentam que essa é uma …

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Grandes fortunas, pequenos impostos

Após anos sendo tratado sob a ótica de uma pauta improvável, longe da realidade, o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) ganhou espaço no debate público nos últimos meses, ainda que se suscitem dúvidas ou questionamentos acerca de seu potencial arrecadatório e de seu papel na redução das desigualdades. As discussões sobre as políticas econômicas e …

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Os tutores da nação

Em evento militar em Guaratinguetá (SP), no dia 27 de novembro de 2020, Jair Bolsonaro afirmou que “a liberdade do nosso povo passa por nós”, referindo-se às Forças Armadas. Em 9 de dezembro, em evento de confraternização de fim de ano no Clube da Aeronáutica de Brasília, cercado pelo Alto-Comando, ele voltou a exaltar seus …

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The Mandalorian: de guerreiro a novo proletariado de serviços

Para Adorno e Hockenheim os produtos da indústria cultural são feitos “de modo a vetar, de fato, a atividade mental do espectador, se ele não quiser perder os fatos que, rapidamente, se desenrolam à sua frente”. Isso porque essa indústria trabalha com o esperado. Ela busca atender a ânsia dos olhos compulsivos de um consumidor …

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Trump e o fechamento das fábricas da Ford no Brasil

A vitória de Trump em 2016 à presidência dos Estados Unidos representou o declínio da globalização nos moldes que ela emergiu na segunda metade do século passado. Eric Hobsbawm já havia previsto no livro Globalização, democracia e terrorismo que “as desigualdades geradas pela globalização descontrolada dos mercados livres, que crescem muito rápido, são incubadoras naturais de …

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Miscelânia

HISTÓRIA DO PRESENTE: CONCILIAÇÃO, DESIGUALDADE E DESAFIOS  Roberto Amaral, Expressão Popular  Um diário vivíssimo da luta de classes no Brasil. Esse livro, organizado pela Editora Expressão Popular, reúne cerca de sessenta artigos escritos por Roberto Amaral entre 2014 e 2020. Amaral é um dos poucos que desde 2014 percebia a crescente ameaça fascista na sociedade brasileira, por isso mesmo essa coletânea de artigos é instigante e precisa. O incansável militante vai à gênese da formação brasileira para explicar o Brasil de hoje, sempre atento às lições dos tempos de Getúlio, Lott, Brizola e Lacerda. Em cada movimento de resgate do passado para entender o presente, o autor submete o leitor a um coerente exame da história do país, confrontando a desigualdade social com o caráter antiprogresso de nossa classe dominante. Em essência, Amaral demonstra a reprodução e a vigência da relação entre casa–grande e senzala no Brasil de hoje.  Como explicar a força do bolsonarismo? Como explicar a fragmentação do campo progressista? Como explicar a desorganização da esquerda? Como se tivesse viajado no tempo, já em 18 de março de 2016 o autor escreveu: “o projeto em curso não se limitará à eventual deposição de Dilma, pois trata-se, através de golpe de Estado de novo tipo […], de implantar um governo politicamente autoritário, socialmente regressivo e economicamente neoliberal-ortodoxo, pró-Estados Unidos”. Há exemplo mais certeiro disso do que o atual governo Bolsonaro? Impossível não reconhecer a precisão e a lucidez política do ex-ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula, há mais de quatro anos, sobre qual é o projeto da classe dominante para o país.  Examinar e confrontar esse projeto autoritário e violento da casa–grande é uma necessidade civilizatória. É preciso entender o caminho até aqui percorrido para criar condições de mudarmos esse rumo. Se o programa neoliberal, derrotado nas urnas em 2014, foi adotado por Levy, Meirelles e segue com Guedes, é porque Cunha, Aécio, Temer, Moro, Villas Bôas e seus pares agiram como legítimos representantes da classe dominante antipovo e autoritária, instalando o regime da ditadura constitucional ao corromperem o Estado democrático de direito.  Então, qual é a saída? Como derrotar a corrupção e a violência da classe dominante que só fazem agudizar os problemas do povo? Diante desse caráter golpista da ordem burguesa, não resta outro caminho aos democratas: disputar a consciência das massas. É no debate com o povo de qual país queremos que reorganizaremos e construiremos a força social necessária para democratizar nosso Brasil. Além de um diário vivo, História do presente é bússola.    [Giovani del Prete] Bacharel em Relações Internacionais pela UFABC, é militante e trabalhador internacionalista junto a movimentos populares do mundo todo.      RESPONSABILIDADE E CORRUPÇÃO  Renato Polillo, Contracorrente  Não é exagero dizer que a Lei Anticorrupção fez emergir uma nova disciplina no ordenamento jurídico brasileiro: o Direito da Conformidade.  Um dos pontos mais debatidos sobre essa lei é a previsão de responsabilidade objetiva da pessoa jurídica – isto é, a possibilidade de responsabilização de empresas e entidades equiparadas em casos de ilícitos administrativos estabelecidos na lei, independentemente da comprovação de dolo ou culpa sobre os atos praticados em seu benefício por administradores, empregados ou intermediários.  É em meio a esse debate que Renato Polillo faz, em Responsabilidade e corrupção, um magistral estudo crítico sobre o tema. Suas páginas oferecem mais que uma análise da Lei Anticorrupção e da responsabilidade objetiva nela prevista; elas trazem também uma ampla investigação do próprio instituto de responsabilização da pessoa jurídica em nosso sistema jurídico.   Ele apresenta o funcionamento da Lei Anticorrupção por meio de um diálogo entre o direito civil e o direito administrativo, passando pelas bases históricas da criação da norma e do próprio combate internacional à corrupção, com análises críticas que estimulam a reflexão do leitor sobre como o Brasil vem combatendo os atos de corrupção aqui praticados, decorrentes de uma relação bastante complexa e ainda pouco transparente entre os sistemas corporativo empresarial e de governo.  Polillo alicerça sua obra em doutrina especializada, revisão acurada da legislação brasileira e elementos preciosos do direito internacional. Além disso, faz uso de jurisprudência atualizada dos tribunais superiores brasileiros, o que resulta em um material completo e de leitura indispensável para os que trabalham ou se interessam pela temática de combate à corrupção e responsabilidade empresarial.  O livro, portanto, lança luz sobre os aspectos obscuros que circundam a responsabilidade civil na Lei Anticorrupção, que ainda não conta com entendimentos jurisprudenciais sólidos ou com literatura vasta para a interpretação de seus dispositivos.    [Valdir Simão] Advogado e consultor em gestão pública e governança corporativa. Auditor-fiscal da Previdência Social e da Receita Federal do Brasil por 29 anos, ocupou vários cargos na administração pública, entre eles os de ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, ministro-chefe da Controladoria–Geral da União, secretário da Fazenda, presidente do INSS, secretário adjunto da Receita Federal e secretário executivo da Casa Civil da Presidência da República.    Novas narrativas da web   Sites e projetos que merecem seu tempo    Ópera e machine learning David Li é um artista digital que cria animações interativas, como um rosto elástico do personagem Morty, para o canal Adult Swim (animação que esteve no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica do Brasil em 2018), ou uma experiência de composição de óperas em tempo real por meio …

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O acordo UE-Mercosul e o Cerrado

Desde que foi anunciado o texto final do acordo de associação entre a União Europeia e o Mercosul, em junho de 2019, diversos debates tomaram corpo. De um lado, a visão corporativa, que enxerga com bons olhos o incremento dos indicadores econômicos como o PIB, resultado de mais exportações, e alguma preocupação com a concorrência …

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O torniquete presidencial peruano

“Voto cerrado.” Passava um pouco da meia-noite de 16 de novembro de 2020 quando a Assembleia Nacional do Peru encerrou a votação dos parlamentares sob uma torrente de aplausos. O deputado Francisco Sagasti – de direita – acabava de ser escolhido por seus pares para assumir a Presidência da República. Ele substituía Manuel Merino – também de direita –, que havia assumido …

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A Alemanha Oriental era antissemita?

No debate sobre racismo e xenofobia que agita a Alemanha, o antissemitismo ocupa um lugar especial. Seu eco às vezes ressoa ruidosamente, como em julho passado, durante o julgamento do autor do atentado à sinagoga de Halle, em 9 de outubro de 2019, que deixou dois transeuntes mortos.  Halle está localizada no território da antiga República Democrática …

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O retorno da Rússia à África: uma ilusão de ótica?

Outubro de 2019. Cerca de quarenta chefes de Estado lotam as ruazinhas da antiga Vila Olímpica de Sochi, balneário no Mar Negro que sediou os Jogos de Inverno de 2014. Realizada por iniciativa do presidente Vladimir Putin, a primeira Cúpula Rússia-África foi concluída com a proclamação de objetivos ambiciosos – a Rússia pretende duplicar o comércio com o continente em cinco anos – e com a promessa de um novo encontro, provavelmente em Adis-Abeba (Etiópia), sede da União Africana, …

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O impasse das políticas identitárias

A questão racial ressurgiu brutalmente no centro das notícias, em 25 de maio de 2020, quando as imagens do assassinato de George Floyd, filmadas por um transeunte com um smartphone, foram veiculadas em loop continuamente nas redes sociais e canais de notícias. O assassinato desse afro-americano por um policial branco em Minneapolis gerou uma grande onda de emoção e …

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Na Tunísia, as brasas persistentes do espírito de revolta

Novembro de 2020. A um mês do décimo aniversário do início da revolução tunisiana, que provocou a queda do regime de Zine al–Abidine ben Ali, em 14 de janeiro de 2011, a cólera popular que se exprimia já há diversos meses se amplificou. Em Kasserine, Gafsa, Sidi Bouzid, Jendouba, Gabes e em outros lugares dessas regiões esquecidas pelo poder e …

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Outro mundo impossível é possível

A primeira onda do vírus e a colocação numa redoma de metade da humanidade entre janeiro e junho de 2020 fizeram um eco incomum às aspirações latentes – na maior parte do tempo dispersas, raramente decisivas, frequentemente derrotadas – de uma parte da população que tem por objetivo construir um “mundo de depois” que não carregaria todos os pontos …

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Bomba de livre-cambista na Ásia

Diz-se que ela é fraca, dividida, ineficaz ou mesmo inexistente. A Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês) faz parte de uma daquelas organizações regionais que parecem fora dos radares diplomáticos, mesmo que reúna dez países (Myanmar, Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã) e 652 milhões de pessoas. Além disso, …

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A era das finanças autoritárias

Na manhã de 24 de junho de 2016, o mundo tomou conhecimento de que, à pergunta “O Reino Unido deve permanecer membro da União Europeia ou sair dela?”, 51,9% dos eleitores responderam “leave” (sair). Para muitos, esse resultado foi uma surpresa: a poderosa City, a Bolsa de Valores mimada por todos os poderes em Londres, parecia unânime em relação ao “remain” (permanecer). O que aconteceu? O patronato financeiro mais …

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Expurgo no Reino Unido

“Você deve achar que sou muito ingênuo”, canta Edwyn Collins na abertura do álbum favorito do líder trabalhista britânico Keir Starmer, You Can’t Hide Your Love Forever [Você não pode esconder seu amor para sempre]. “A verdade é que só vejo o que quero ver.” O ano de 2020, em que Starmer teve sucesso não apenas em assumir a chefia do Partido Trabalhista, mas também em realizar um expurgo interno que não poupou seus …

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Os estados desunidos da América

Se por um lado, em novembro de 2020, boa parte do mundo tinha os olhos voltados para a disputa à presidência entre Joe Biden e Donald Trump, por outro os norte-americanos sabiam que as diversas eleições (Congresso, Condados, referendos etc.) que se desenrolavam no mesmo momento em cada um dos cinquenta estados da Federação também tinham uma importância …

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O mito da biossegurança

Primeiro eles pararam de comer, em seguida tiveram uma forte febre. Criador de Jiangxi, no sudeste da China, Chen Yun possuía 10 mil porcos. Em uma semana, todos morreram da peste suína africana.1 Entre 2018 e 2019, o vírus acometeu todas as províncias do país, levando à eliminação da metade do gado porcino nacional. Originário da África, onde teria sido descoberto há mais de cem anos, o vírus dessa peste continua inofensivo para o ser humano, mas pode causar até 100% de mortalidade nos porcos. A partir da China, o vírus se propagou pelo Sudeste Asiático. Já causando estragos na Europa central, foi detectado na Bélgica em 2018. A França e seus vizinhos temem desde então sua chegada.  Para erradicar a epidemia, que avança, o Estado chinês apoia a construção de fazendas de no mínimo quinhentos porcos, seguindo os preceitos da “biossegurança”. “As fazendas familiares serão levadas ao desaparecimento, em benefício das criações industriais”, explica Jian Huang, especialista do Instituto Nacional do Porco, da França.2 A China aplica assim a resposta sanitária preconizada pelas instâncias internacionais em matéria de epizootias (epidemias que atingem animais), confirma Wantanee Kalpravidh, responsável pela saúde animal na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Ela nos apresenta a classificação das fazendas segundo sua suposta resistência ao risco infeccioso. “O setor 1 é uma criação densa e fechada, com uma produção intensiva e integrada à indústria. O setor 2, uma grande criação intensiva e fechada, mas não integrada à indústria. O setor 3 é uma fazenda intensiva média não integrada à indústria, e o setor 4, uma criação extensiva onde os animais, menos numerosos, vivem no exterior com, quase sempre, uma mistura de espécies.” Esses quatro setores correspondem a níveis decrescentes de biossegurança, do mais elevado ao mais fraco.  “Aumentar a produtividade” Segundo essa doutrina, a propagação de um vírus fica limitada quando os animais são criados em estabelecimentos fechados ou atrás de barreiras que impeçam qualquer contato com animais selvagens, suscetíveis de transmitir micróbios patogênicos. Devem ser nutridos com alimentos comprados no comércio e de qualidades sanitárias garantidas, em vez de produtos da fazenda. A biossegurança condiciona não apenas os gestos do criador em matéria de higiene (lavagem das mãos, troca de roupa na entrada de cada instalação, desinfecção dos veículos), mas também – o que levanta questões – as orientações técnicas e econômicas de sua exploração.  Essa abordagem, que leva a normalizar e compartimentar a produção, cria o impasse quanto ao risco causado pela escala industrial e pela concentração de animais em locais exíguos. As criações em massa são então apresentadas como uma solução para o problema que contribuíram para criar, pois, se a destruição da natureza e dos habitats selvagens – quase sempre para fins industriais – levou à transmissão de novos vírus,3 a aceleração das epizootias deve muito também à industrialização da pecuária, como sublinham diversos estudos.4 Na Tailândia, por exemplo, dados reunidos em 2004 indicam que “as probabilidades de epidemias de H5N1 e das infecções eram significativamente mais elevadas nas explorações avícolas comerciais de grande escala do que nos galinheiros”.5 Nas instalações industriais, a fraca diversidade genética e as recorrências maciças a tratamentos profiláticos provocam um enfraquecimento imunológico, ao passo que a concentração geográfica de criações, a densidade de animais e a multiplicação dos transportes favorecem a difusão de agentes patogênicos.    Esse episódio da peste suína não é inédito. Ao longo dos trinta últimos anos, as criações de porcos passaram por diversas crises: diarreia epidêmica suína, síndrome disgenésica (malformação de órgãos) e respiratória do porco, gripe H1N1. As criações de vacas experimentaram um ressurgimento da tuberculose bovina; as criações de aves, novos surtos de gripe H5N1 altamente virulentos; as de carneiros, um ressurgimento da febre aftosa etc. Segundo a Organização Mundial da Saúde Animal (criada em 1924 sob o nome de Gabinete Internacional das Epizootias, do qual conserva o acrônimo, OIE), o número de epidemias que atingem as criações quase triplicou ao longo dos últimos quinze anos. Isso não constitui um perigo apenas para a vida dos animais, mas também para a humanidade, pois algumas dessas doenças podem ser transmitidas ao homem – em especial a gripe H5N1, ainda que os casos tenham sido mais raros do que se temia.  “‘Quantos quilos de frango será que posso produzir? Quantos ovos?’ Os criadores devem se fazer essas perguntas”, prossegue Kalpravidh. “Devem aumentar a produção e a produtividade para obter mais benefícios, o que gera uma receita suplementar que lhes permite investir na biossegurança.” Para designar essa posição tomada em favor do desenvolvimento intensivo da pecuária em escala mundial, teríamos podido utilizar o termo “industrialização”. Ao oferecer-lhe certa respeitabilidade, o termo “biossegurança” se torna a referência indiscutível de um modelo econômico e social imposto. Seu enfoque universal se dirige a todas as criações do planeta.  “Com a gripe aviária de 2015-2016, as medidas de biossegurança se tornaram obrigatórias para os detentores de aves”, recorda um boletim da Academia Veterinária Francesa, fazendo referência à portaria publicada pelo Ministério da Agricultura em 8 de fevereiro de 2016.6 Os autores anunciaram em seguida: “No futuro, todas as cadeias alimentares, sejam elas extensivas ou intensivas, deverão integrar medidas de biossegurança”. Eles reconhecem que a integração dessas medidas às transumâncias [migrações de pasto] “fica, porém, a ser construída”.   Os criadores de animais em circuito curto ou ao ar livre encontram dificuldades para sobreviver. Ainda que menos expostos às contaminações, em razão da densidade mais baixa dos rebanhos e de ocorrerem menos interações com o exterior, são submetidos às mesmas normas. No ramo dos porcos, por exemplo, a regulamentação impõe desde 2020 uma cerca de 1,30 metro de altura ao redor das pastagens, bem como a desinsetização e a desratização do local de material por uma empresa externa a cada dois meses. Criadora em Haute-Garonne (França), Anne-Marie Leborgne fez o cálculo: “Para rentabilizar o investimento para a introdução das normas de biossegurança, preciso aumentar meus preços”. Na França, apenas um porco a cada vinte é criado ao ar livre. Essa agricultora de 39 anos vendia localmente 2 mil quilos de porco orgânico por ano. Para ter um rendimento satisfatório, trabalha meio período como professora na escola de seu vilarejo, Montbrun-Bocage, ao sul de Toulouse. Dois meses após a formação em biossegurança na Câmara de Agricultura, decidiu parar a criação. “Não me vejo vendendo uma costela de porco a 18 euros o quilo.”  Para sustentar os trabalhos de biossegurança, o conselho regional e a União Europeia oferecem uma subvenção que representa 30% do custo do material. Mas esta parece insuficiente a Benoît e Isabelle Dubois, dois criadores montanheses que estimam suas despesas em 400 mil euros, “sem contar o tempo de trabalho e de manutenção”. Eles não ganharam tanto em trinta anos de carreira. “Após pagar nossos custos, nos sobra 500 euros por mês para viver em duas pessoas.” Eles criam seus porcos em Brie (departamento de Ariège), em 90 hectares. “Com rochas em algumas partes e desníveis de 100 metros em 300 metros de comprimento, instalar uma cerca requer proeza.” Eles continuam a trabalhar em suas terras secas, mas, aos 60 anos, creem ser os últimos a criar porcos aqui. Não contratam estagiário para não criar falsas promessas em um jovem “de um projeto de instalação impossível”.  Enquanto as criações ao ar livre se veem enfraquecidas pela biossegurança, as indústrias de carne preservam sua economia, pois, durante as crises sanitárias, algumas criações escapam das restrições de deslocamento. Apenas as fazendas do setor 1 que se conformam às medidas de controle e de segurança podem obter o precioso passe livre por meio dos “compartimentos”, ou seja, populações animais distintas autorizadas à venda. Adotada por unanimidade em 2004 pelos 182 Estados-membros da OIE, a “compartimentação” foi em seguida integrada ao texto de lei de diversos países – Chile, Estados Unidos, Reino Unido, China, Austrália… – e, na França, por uma portaria ministerial de 16 de fevereiro de 2016, que favorece a grande indústria.  É o caso da France Poultry, por exemplo. Antes conhecida como Doux, essa empresa da Bretanha obteve o status de compartimento em 2017. Ela abate hoje 340 mil aves por dia e enche a cada semana de 70 a 80 contêineres no porto de Brest, sendo 93% de sua produção exportada. Esse modelo de indústria agroexportadora conta com instalações de criação de 35 mil pintinhos, cada um dispondo de 480 centímetros quadrados – ou seja, uma superfície inferior à de uma folha A4… Esses estabelecimentos pertencem aos criadores sob contrato com a France Poultry; comprometem-se a trabalhar exclusivamente para a empresa, segundo um manual de especificações muito estrito de biossegurança que faz delas “bolhas sanitárias”, segundo o dirigente da empresa, François Le Fort.  Um estudo publicado em 20187 mostrou, no entanto, que os contatos frequentes entre as granjas de um mesmo compartimento implicam diversas possibilidades de transmissão do vírus em caso de epidemia de gripe aviária. Além disso, embora a compartimentação possibilite evitar as contaminações pela fauna selvagem, estas podem ocorrer por outros vetores de troca com o exterior: pessoal, água, ar, comida. Ainda que todos esses fluxos sejam enquadrados por normas estritas, a prática cotidiana revela falhas. Desse modo, estudando oito fazendas que aplicam um protocolo de biossegurança, que havia selecionado com as associações de avicultores de Quebec, Manon Racicot, pesquisadora do Departamento de Epidemiologia da Universidade de Montreal, listou não menos que 44 erros frequentes.8 A densidade dos animais, a quantidade das entradas e saídas desses sistemas, a dependência de múltiplos atores da cadeia de produção e uma má compreensão dos princípios sanitários pelos empregados invalidam as pretensões da biossegurança. A “bolha sanitária” continua sendo um mito.  Ao não imporem nenhum limite à indústria, a biossegurança e seus grupos livres da lei ordinária ameaçam o equilíbrio sanitário dos animais e dos homens. Representam também uma deriva democrática, o “caso a caso” substituindo o interesse geral. No processo de reconhecimento de um compartimento para a exportação, ocorrem duas etapas que transformam a administração em servidora dos industriais: uma granja deve primeiro ser aprovada pelas autoridades veterinárias de seu próprio país; em seguida, cada país importador assina um acordo bilateral. Durante essa segunda etapa, o Estado exportador negocia com o país importador a fim de fazê lo aceitar as candidaturas. A diplomacia carrega assim a bandeira de uma companhia privada. O Estado não apoia mais sua população agrícola, um ramo de alimentos ou uma particularidade regional: torna-se embaixador de uma marca e de seus produtos. Quando a França advoga pelas atividades da France Poultry, ela defende o interesse público ou interesses privados? Nem a OIE nem o Ministério da Agricultura quiseram responder a essa pergunta.    *Lucile Leclair é jornalista. Autora de Pandémies, une production industrielle (Pandemias, uma produção industrial), Seuil, Paris, 2020.    1 Huifeng He, “China’s ‘heartbroken’ pig farmers torn apart by pork price spike and African swine fever” [Os criadores de porco de “coração partido” da China, quebrados pelo aumento do preço da carne suína e pela febre suína africana], South China Morning Post, Hong Kong, 12 set. 2019.  2 “Des experts dressent un sombre tableau de l’élevage porcin chinois” [Especialistas criam um quadro sombrio da criação de porco chinesa], AFP, 11 set. 2019.  3 Ler Sonia Shah, “Contre les pandémies, l’écologie” [Contra as pandemias, a ecologia], Le Monde Diplomatique, mar. 2020.  4 Jessica H. Leibler, Marco Carone e Ellen K. Silbergeld, “Contribution of company affiliation and social contacs to risk estimates of between-farm transmission of avian influenza” [Contribuição da afiliação de empresas e contatos sociais para estimativa de riscos da transmissão da gripe aviária entre fazendas], PLOS One, 25 mar. 2010. Disponível em: https://journals.plos.org.  5 Jay P. Graham et al., “The animal-human interface and infectious disease in industrial food animal production: Rethinking biosecurity and biocontainment” [A interface animal-humano e as doenças infecciosas na produção da indústria de alimentos de origem animal: repensando biossegurança e bioconcentração], Public Health Reports, v.123, n.2 (suplemento), maio-jun. 2008.  6 Didier Guériaux, Alexandre Fediaevsky e Bruno Ferreira, “La biosécurité: investissement d’avenir pour les élevages français” [A biossegurança: investimento do futuro para as criações francesas], Bulletin de l’Académie vétérinaire française, n.2, Paris, 2017.  7 T. J. Hagenaars et al., “Risk of poultry compartments for transmission of highly pathogenic avian influenza” [Risco dos compartimentos de aves para a transmissão de gripe aviária altamente patogênica], PLOS One, 28 nov. 2018. O modelo de simulação do estudo foi elaborado para uma região densamente populosa de criações, como a Bretanha.  8 Manon Racicot et al., “Description of 44 biosecurity errors while entering and exiting poultry barns based on video surveillance in Quebec, Canada” [Descrição de 44 erros ao entrar e sair de celeiros de aves baseado em vídeos de câmeras de segurança em Quebec, Canadá], Preventive Veterinary Medicine, v.100, n.3-4, jul. 2011. 

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A produção social de doenças e de crises

Até aqui, o agronegócio não parou durante a pandemia de coronavírus e se vangloria de ser responsável por ter evitado uma crise econômica que chegou a ser anunciada como a pior da história, com prognósticos que apontavam para uma queda superior a 8% do PIB no Brasil. Com isso, reforça-se a ideologia vitoriosa do assim chamado “agro”, que se coloca como a cura …

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Pan-demônio e Sars-Cov-2

O trocadilho entre as palavras “pandemia” e “pandemônio” parece-nos cada vez mais apropriado quanto mais avançamos nos meses e nos deparamos com uma angústia que arrebata a humanidade de uma forma jamais vista. Muitas perguntas nos rodeiam. Entre elas: o que há de específico neste momento da humanidade que poderia estar na raiz da disseminação de um vírus com a “virulência” que tem se …

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Geopolítica da fome

No início do século XX, as duas grandes guerras explicitaram a importância estratégica dos alimentos para os Estados nacionais. Como em outros conflitos armados, a pilhagem de alimentos dos países ocupados foi acompanhada de estratégias como bloqueios navais e cercos militares para debilitar a disponibilidade de alimentos dos inimigos. Não se tratava apenas de prejudicar os suprimentos alimentares das forças militares, mas de utilizar os alimentos como armas …

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Covid-19 na trilha do trabalho precário e vulnerável: o caso dos frigoríficos

Comumente se apregoa o caráter democrático da contaminação causada pelo coronavírus (Sars-CoV-2) causador da Covid-19, que supostamente não diferenciaria gênero, etnia e conta bancária, atingindo toda a população. Afirmamos, em contraposição, que a preservação da saúde em meio à pandemia é uma questão que reforça desigualdades estruturais.1 Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de junho de 2020, indicou que, entre as pessoas que disseram ter algum sintoma de síndrome respiratória, 68,3% eram …

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A pandemia e o agronegócio no Brasil

A estratégia diversionista praticada pelo governo Bolsonaro de tola não tem nada. Suas peças se orientam por táticas de contrainteligência. A confusão dirige e antecipa a imagem do inimigo da vez, enquanto qualquer responsabilidade é dirimida em um malabarismo macabro, nascido do obscurantismo e do desejo de morte. Foi assim nos episódios do derramamento de …

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Lições aprendidas sobre a democracia brasileira

Internacionalmente, a democracia moderna expressa a proposta de um pacto social entre as classes. Por meio da Constituição e das leis, ela estabelece as regras de negociação dos interesses diversos, por vezes contraditórios, presentes na sociedade. Os espaços de negociação são o Congresso, as Assembleias Legislativas, as Câmaras Municipais. As decisões se tomam por maioria, e as eleições – no Brasil, de quatro em quatro anos, tanto …

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Quem será o próximo inimigo?

O cartão de Anders Fogh Rasmussen não esperou pela véspera do Ano–Novo. O ex-secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) resumiu assim a missão que esta deverá cumprir, segundo ele, assim que Donald Trump tiver deixado a Casa Branca: “Em 2021, os Estados Unidos e seus aliados terão uma oportunidade que se apresenta apenas uma …

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Passando a boiada de reformas estruturais

O governo federal anunciou a proposta de revisão da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a nova proposta de modelo assistencial em saúde mental, no Brasil, tendo como base o documento “Diretrizes para um Modelo de Atenção integral em Saúde Mental no Brasil – 2020”, elaborado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Associação Médica Brasileira …

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A história que Bolsonaro gosta

Bolsonaro é um péssimo professor de história. Certa vez, ele afirmou que os portugueses nunca pisaram em África e que os negros entregavam os seus para serem escravizados. Não poderia estar mais errado, mas sua ficção histórica encontra mentes e corações, além de servir a um propósito político. Ao negar o papel dos europeus no …

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O estado de exceção e a impunidade de rebanho

A resposta política do governo Bolsonaro à crise deflagrada pelo coronavírus tem vindo das mais variadas formas. Em todas elas, porém, através do ataque às instituições, desprezo ao conhecimento científico, desrespeito às diretrizes dos órgãos de saúde internacionais e criminosa negligência à saúde da população, em especial a dos mais velhos e das populações vulneráveis. …

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Bolsonaro e o não plano para vacinação

Recorrendo ao dicionário, podemos definir plano como um substantivo que se define por um “Conjunto de operações programadas para um determinado fim” ou também como “Programa que envolve medidas governamentais para atingir um objetivo”. O “plano” que foi apresentado no dia 16 de dezembro pelo governo Bolsonaro pode ser chamado de tudo, menos de um …

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Um grave retrocesso no combate à tortura no Brasil

Que ninguém se engane. O episódio de espancamento até a morte de João Alberto Silveira Freitas pelos seguranças do supermercado Carrefour tem muito a ver com a recente decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que permitiu as audiências de custódia por videoconferência. Ambos os eventos estão relacionados com a violência institucional praticada por agentes …

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Nós, mães e familiares de vítimas de terrorismo do Estado, dizemos não às audiências por videoconferência

Colocada em prática em todos os estados brasileiros em 2015, a medida que estabelece as audiências de custódia prevê que a pessoa acusada se apresente a um juiz ou uma juíza em até 24 horas do momento da prisão em flagrante. Com a proposta de redução das prisões provisórias e o combate e prevenção à …

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Eleições, migrações e pandemia: impactos e desafios

Em meio à maior pandemia do século, as eleições municipais brasileiras foram mantidas. Em São Paulo, maior cidade da América do Sul, o prefeito eleito no segundo turno foi Bruno Covas (PSDB), que possui, além dos desafios usuais do mandato, o compromisso de seguir conduzindo as políticas de gestão pandemia de Covid-19, que assola o …

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Responsabilidade com a população passa pela otimização do setor público

Ao longo dos anos, o setor público tornou-se alvo de campanhas difamatórias e perseguição de classes da sociedade. O papel essencial de servidoras e servidores, demonstrado mais uma vez ao longo da atual pandemia, ficou de lado. Os trabalhos realizados e usufruídos por todos os brasileiros, que inegavelmente utilizam em algum grau o serviço público, …

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Audiências de custódia presenciais são as únicas dignas deste nome

“existe um abismo semântico que separa a expressão ‘presença’ da ‘ausência’, efetivada na prática com as audiências virtuais”. Luiz Henrique Almeida   Da previsão à realização Toda pessoa privada de liberdade tem o direito de ser conduzida à presença de um juiz imediatamente após a prisão. É o que prevê a Convenção Americana de Direitos …

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Sem filtro, sem make: bolsonarismo e estetização da política na era do selfie

Imagem 1, 18 de junho de 2020. Sofá, lareira, poltronas, rack, TV de plasma, fitas de VHS, abajur, flores de plástico, tapete, ventilador, telefone sem fio, aromatizador de ambiente. Azulejo cerâmico lustrado. Lareira revestida com tijolo aparente. Oratório de madeira escura. Raquete mata-mosquito. A casa de final de semana. Primo, cunhada, amigo da filha. Um …

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A análise das análises, ou, por que os institutos de pesquisa erraram tanto

Para além dos festejos mal disfarçados da grande mídia nacional perante o que a maioria dos jornalistas interpretam como derrota da esquerda, e sobretudo do PT, nas eleições municipais, reside um enigma ainda não decifrado: por que os institutos de pesquisa erraram tão sistematicamente na previsão dos resultados do segundo turno das eleições?  É normal …

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O lucro acima da vida

Desde o início da pandemia em março de 2020 a população do Rio de Janeiro, especialmente a que vive nas favelas e periferias, sofre com a falta de água. Nos últimos vinte dias, a situação piorou e mais de 1 milhão de pessoas, da Baixada Fluminense e das zonas Oeste e Norte e algumas áreas …

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Um novo arranjo territorial periférico e metropolitano à vista?

Parece haver um certo consenso entre pesquisadores, militantes e moradores de que os territórios periféricos da metrópole de São Paulo já não são mais aqueles da época de seu aparecimento na cidade e que deram origem aos conhecidos movimentos sociais urbanos entre as décadas de 1970 e 1980. Sejam as pesquisas, sejam as práticas políticas, …

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Miscelânea

SABERES DOS POVOS DO CERRADO E BIODIVERSIDADE Fruto de um amplo processo colaborativo, o livro é uma ode aos povos do Cerrado, verdadeiros guardiões e multiplicadores das riquezas dessa imensa região. Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Macro-Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani …

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A tirania da benevolência

“Informação coronavírus: vamos nos proteger uns aos outros.” A frase, que evoca ao mesmo tempo um preceito bíblico e o slogan de uma companhia de seguros, parece revelar uma verdade evidente, essas sentenças cheias de bom senso espontâneo que não podem ser questionadas. Parece de fato difícil responder com um “por quê?” tempestuoso. Quem poderia …

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As ilusões do decrescimento

Às vezes esquecemos que os seres humanos nem sempre são impotentes perante os desequilíbrios que eles provocam. Nos anos 1980, a ameaça ecológica se encarnava no “buraco da camada de ozônio”, esse gás que nos protege dos raios solares, mas cuja presença se reduzia na atmosfera. Anunciador de cânceres de pele, epidemias de imunodeficiência, degradação …

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O desastre. E depois?

“Evitar as falências.” Durante a coletiva de imprensa, em 3 de novembro de 2020, o presidente do Centre National de la Musique (CNM) chegou rapidamente ao que hoje é prioridade. Desejado durante muito tempo e criado juridicamente em janeiro, o estabelecimento público que mal acabou de ser instalado foi obrigado a se ocupar de problemas …

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Quem vai parar a máquina repressiva?

Os assassinatos de Conflans-Sainte-Honorine e de Nice, perpetrados em outubro por jovens fanáticos que afirmam pertencer a um islã fantasioso, deram um novo impulso a todos aqueles que, em nome da “guerra contra o terrorismo”, exigem a suspensão mais ou menos duradoura de nossas liberdades públicas. E, mesmo que algumas vozes tenham se levantado para …

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A capa de toureiro da liberdade universitária

As elucubrações do ministro francês da Educação Nacional, Jean-Michel Blanquer, a propósito do “islamoesquerdismo” na universidade tiveram um efeito que, provavelmente, não desagrada nem ao seu autor nem à sua colega, a ministra do Ensino Superior, da Pesquisa e da Inovação, Frédérique Vidal. Enquanto o criticado projeto de lei de programação da pesquisa (LPR – …

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A indestronável monarquia britânica

Tendo percorrido as ruas de Londres em júbilo no dia da coroação da rainha em 1953, os sociólogos Michael Young e Edward Shils qualificaram o evento de “grande ato de comunhão nacional”. Fazia todo o sentido, escreveram eles, como “experiência não individual, mas coletiva”, que unia milhares de famílias em um fervor popular que lembrava …

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Fantasmas em torno de uma “ofensiva chinesa” nas Nações Unidas

“É possível contar nos dedos de uma mão os altos funcionários chineses nas Nações Unidas. E não é por falta de cargos de responsabilidade.” O ano é 2005. Wang Jingzhang, diplomata chinês aposentado que por muito tempo foi secretário do Comitê de Sanções para o Iraque, da ONU, queixa-se na imprensa de seu país.1 A …

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A lua de mel entre os países do Golfo e Israel

Em 23 de outubro, após vários meses de discussões e de mediação norte-americana, Israel e Sudão concordaram em estabelecer relações diplomáticas.1 Esse entendimento sucedeu àqueles alcançados entre Tel Aviv e duas monarquias do Golfo, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Bahrein, com a assinatura dos Acordos de Abraham em 15 de setembro. Em poucas …

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A emergência de uma indústria farmacêutica africana

Atenção para a cloroquina falsificada! Produtos semelhantes ao Nivaquine, como o Nirupquin e o Samquine, estão circulando em vários países da África ocidental em diferentes embalagens, avisou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 9 de abril de 2020.1 Com a pandemia de Covid-19 e a divulgação de vídeos do virologista francês Didier Raoult, …

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As redes “feministas” das maiores empresas cotadas na Bolsa de Paris

No dia 2 de dezembro de 2016, no Centro Internacional de Deauville, Emmanuel Macron apresentava em inglês seu programa para a igualdade entre mulheres e homens. “Permitir que as mulheres tenham acesso à liderança nos negócios ou na política é absolutamente essencial.” Na plateia, uma maioria composta por mulheres de negócios e da vida política. …

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A vingança do campo

Impossível não percebê-los no metrô parisiense. “Alès, a capital onde não falta ar”, “Sologne, ar”, “Seine-et-Marne, a verdadeira grande aposta”…: desde maio, esses anúncios estão expostos nos corredores e nas plataformas para incentivar os usuários a mudar de vida, com particular insistência na linha 1, aquela que leva ao bairro empresarial de La Défense. Não …

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Periferias de São Paulo: conjuntura e pós-pandemia

As condições de produção de uma tragédia1 Para compreender a aterradora quantidade de vítimas do novo coronavírus é necessário dar um passo atrás no tempo. No momento imediatamente anterior à chegada do vírus ao Brasil, pelo menos quatro crises estavam postas: econômica, política, social e sanitária. Essas crises foram desencadeadas por uma série de decisões …

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Emergência climática e o futuro das cidades

“Pensar globalmente e agir localmente.” Essa frase, que circula livremente entre grupos de acadêmicos, ativistas, servidores públicos e também entre a iniciativa privada, tem influenciado diferentes áreas há anos, de teorias sociológicas a agências de publicidade e propaganda. Seu berço vem dos movimentos socioambientais e da sociologia da globalização. A ideia por trás dela é …

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Um trumpismo sem Donald Trump

Após vários dias de suspense, Joe Biden finalmente venceu Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas, mas a vitória tímida não representa o repúdio definitivo que os democratas tinham ardentemente desejado. Na verdade, as eleições se revelaram até desastrosas para eles. Apesar do pé de meia impressionante coletado para financiar sua campanha (US$ 1,5 bilhão em …

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O grande desfile de lágrimas

Chegou a hora das lágrimas nos Estados Unidos. Os juízes estão chorando. Os comentaristas de televisão estão chorando. Os partidários do perdedor da eleição presidencial estão chorando. Os partidários do vencedor da eleição presidencial estão chorando. Eles escrevem colunas sobre os orgasmos lacrimais que lhes foram proporcionados por este ou aquele líder. É uma questão …

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A amarga vitória democrata

A maioria dos ativistas democratas ficou muito decepcionada em 3 de novembro, noite em que seu candidato venceu a eleição presidencial norte-americana. Para eles, quase nada saiu como planejado. É certo que Donald Trump perdeu, mas por pouco, já que algumas dezenas de milhares de votos adicionais em um punhado de estados (Geórgia, Wisconsin, Arizona, …

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A implosão do sistema político

É voz corrente que o desencanto e a frustração marcam o momento histórico que vivemos. O sistema político do país é mal avaliado pelos brasileiros e brasileiras, mas essas posturas podem estar mudando se olharmos para os resultados das eleições municipais deste ano. Os últimos dados das pesquisas do Latinobarómetro, de 2018, dizem que o …

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O fator Bolsonaro e seu significado nas eleições municipais

O assunto mais recorrente nos comentários sobre as eleições municipais tem sido o fator Bolsonaro. Ele pode ser pensado de duas maneiras: em primeiro lugar, pela eficácia do presidente em produzir efeitos eleitorais para os candidatos a prefeito que apoia Brasil afora, em segundo, por seu significado como sinalizador de tendências para as eleições de …

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No Amapá, para cada pedido de ajuda, dúzias de balas de borracha

Vítima de uma crise instaurada pelo apagão energético que deixou treze dos dezesseis municípios do Amapá sem eletricidade, a população do estado reivindica que providências sejam tomadas pelo poder público. Foram quatro dias na escuridão absoluta – de 3 a 7 de novembro –, até que a energia fosse parcialmente restabelecida, em um sistema de …

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Banco Central Autônomo: o “Jurassic Park” econômico

O arcabouço institucional neoliberal e a teoria convencional estão aquém dos desafios da atualidade. A emergência de novas potências econômicas, a crise ambiental, o crescimento da pobreza e a nova onda tecnológica já estão entre nós e reconfiguram o mundo. Uma verdadeira revolução intelectual e institucional se insinua em diversos lugares para lidar com e liderar as mudanças. Já se fala abertamente em temas há pouco proibidos, como o planejamento econômico, as políticas monetárias e fiscais ousadas, a …

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A nova velha política de drogas em debate

No dia 6 de novembro aconteceu a segunda audiência pública para discutir o Projeto de Lei n. 676/2019, que dispõe sobre a criação de uma Política Estadual de Drogas para o estado do Rio de Janeiro. Coordenada pela deputada estadual Mônica Francisco (PSOL), esse encontro, assim como o primeiro, contou com a participação de outros parlamentares, principalmente …

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Trump, Biden e Bolsonaro: o que está por vir?

Desde terça-feira, 3 de novembro, as eleições norte-americanas ocupam a cena política global. No sábado, com definição clara da contagem de votos em praticamente todos os estados, Joe Biden, do Partido Democrata, foi declarado vitorioso, sendo o primeiro candidato a derrotar um presidente norte-americano em exercício nos últimos 25 anos. Sua vice, Kamala Harris, será em breve proclamada …

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A nova corrida do Chaco

Antes do golpe policial-militar-religioso representado por Jeanine Áñez nas eleições bolivianas em 2019, um movimento que o precedeu estabeleceu um precedente muito importante. Onze anos antes desta ruptura institucional em escala nacional, um conjunto de lideranças cívicas se reuniu, buscando opor-se ao governo central de Evo Morales. Em nome do processo de descentralização promovido pelo …

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A explosão social chilena e os debates em torno da Constituição

No dia 15 de outubro de 2019, uma terça-feira, os moradores e os turistas de Santiago se depararam com a estação de metrô Universidad de Chile fechada no meio da tarde. Conectando duas importantes linhas, a 1 e a 3, a interrupção do serviço dessa estação de baldeação não era comum, a não ser em …

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A ciência confirma novamente a importância da restauração da Mata Atlântica

Um estudo internacional liderado pelo pesquisador brasileiro Bernardo Strassburg e publicado na renomada revista Nature chamou a atenção novamente para a restauração de ecossistemas. A partir de uma sofisticada modelagem matemática planetária, ele identificou as áreas prioritárias para a restauração que combinam a conservação da biodiversidade, a mitigação de mudanças climáticas e os custos para …

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