Podemos: “Políticas de austeridade são terreno fértil para extrema-direita”

ENTREVISTA

“Políticas de austeridade são terreno fértil para extrema-direita”, diz fundador do Podemos

Acervo Online | Espanha
por Raul Galhardi
24 de Maio de 2019
compartilhar
visualização

Juan Carlos Monedero afirma que Europa precisa recuperar base de sua legitimidade, a redistribuição de renda, e que extrema-direita aposta no medo para crescer nas eleições europeias

As eleições para o Parlamento Europeu, que ocorrem entre os dias 23 e 26 de maio, podem marcar o avanço definitivo de radicais de direita sobre o continente europeu. É o que afirma o cientista político e um dos criadores do partido político espanhol Podemos, Juan Carlos Monedero.

“As crises nos colocam num modo de sobrevivência, na luta de todos contra todos. Neste contexto, as propostas da direita são mais intuitivas que as da esquerda porque são marcadas pelo medo: elas oferecem alguém para odiar, alguém fraco para culpar, e um sentimento oco de pertencimento a um grupo. (…) O fascismo é o plano B do capitalismo em crise”, analisa.

Monedero, que foi um dos cinco fundadores do Podemos, saiu da direção do partido em 2015 após uma série de conflitos internos e com a imprensa, mas continua a militar na legenda. Nesta entrevista, ele discorre sobre as eleições europeias, o avanço da extrema-direita no continente, o resultado das eleições espanholas, e analisa o processo de criação e crise do seu partido, além de tecer comentários sobre a Internacional Progressista, movimento político que integra políticos de esquerda do mundo inteiro como o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, com quem teve conversas no início deste ano.

 

A extrema-direita conquistou 12 cadeiras nas eleições de Andaluzia e 24 nas eleições espanholas. Ela está no poder na Itália, Hungria, Polônia e em outros países europeus. A expectativa é de que a ela avance nas eleições para o Parlamento Europeu que acontecem agora. Porque a direita radical tem conseguido capitalizar a insatisfação do eleitorado de maneira mais contundente do que a extrema-esquerda?

Porque as crises nos colocam na balsa da Medusa de Gericault: num modo de sobrevivência, na luta de todos contra todos. Neste contexto, as propostas da direita são mais intuitivas que as da esquerda porque são típicas de momentos marcados pelo medo: elas oferecem alguém para odiar, alguém fraco para culpar, e um sentimento oco de pertencimento a um grupo (“Você é espanhol! Você é italiano! Você é brasileiro!”).

O discurso da direita ativa um “retorno para a selva”, onde é permitido atirar contra quem você acha que o ameaça e as classes médias empobrecidas são muito frágeis diante desse discurso. O mesmo acontece com setores populares que melhoraram um pouco de vida: eles “chutam a escada” para que ninguém mais suba. Vamos adicionar a isso o medo da mudança que alimenta a mídia e temos a receita que está funcionando há tanto tempo.

 

Como as esquerdas e forças democráticas europeias pretendem barrar o crescimento da extrema-direita nas eleições europeias? Há riscos para a integridade do bloco caso ela conquiste maioria?

A Europa tem que recuperar a base de sua legitimidade, que é a redistribuição de renda. As políticas de austeridade da UE (União Europeia) são o terreno fértil para a extrema-direita. Ela continua a crescer porque o ciclo da crise econômica ainda está em aberto. Além disso, ela recebe o apoio de Steve Bannon e os EUA nunca gostaram de agrupamentos regionais. Eles sempre preferem negociações bilaterais com cada país.

O fascismo é o plano B do capitalismo em crise. Portanto, a perspectiva de uma Europa dominada pela extrema-direita é uma realidade, embora seria essa mesma extrema-direita que acabaria com a União Européia.

 

Nas eleições espanholas, a extrema-direita ressurgiu pela primeira vez desde 1982. No entanto, foi o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) o partido vitorioso. Isso parece mostrar mais uma vitória do medo contra o retrocesso do que a vitória de uma esquerda que pode impulsionar mudanças estruturais. Você concorda com essa afirmação? Por que a esquerda tem se mostrado incapaz de se apresentar como uma alternativa real de mudanças?

 O PSOE é um tipo de mal menor previsível. Devido ao sistema eleitoral, quem vota no PSOE sabe que seu voto está garantido e que há mais chances de eleger alguém. Por outro lado, os votos para o Podemos geram maior incerteza e é verdade que em muitas províncias as vagas não eram garantidas. É uma espécie de profecia autorealizável.  Além disso, em contextos de medo, é mais fácil para as pessoas serem conservadoras ou reacionárias. Elas querem as certezas do passado. Não podemos esquecer que a direita tem 100% dos meios audiovisuais e praticamente todos os jornais e rádios.

 

O Podemos surgiu em 2014 como uma consequência das manifestações de 2011 ocorridas na Espanha. Cresceu, chegou a se tornar o terceiro maior partido do país, e agora sai dessas eleições menor do que entrou com apenas uma das cinco lideranças originais ainda à frente da agremiação. A que você credita esta crise do partido? Porque o Podemos não está conseguindo conquistar o eleitorado, ou, como você disse na sua carta de 2015, “converter a indignação social em indignação política”?

Cinco elementos agiram nisso. Em primeiro lugar, a pressão da mídia. O PP (Partido Popular) no governo formou uma polícia política – que está sendo julgada agora – para construir falsas evidências contra o Podemos. Metade da Espanha acreditou nessas mentiras, no financiamento da Venezuela e do Irã, na conivência com o terrorismo, nas fraudes para financiar campanhas. Todas as queixas contra o Podemos foram arquivadas, mas a calúnia deixou sua marca.  Depois, há o tema catalão, onde o árbitro no conflito entre independência e centralismo recebeu golpes de ambos os lados. Terceiro, a ascensão da extrema-direita levou a um voto muito “útil” no PSOE. A nossa divisão interna alimentada pela mídia também influenciou. Finalmente, há os nossos próprios erros, no qual o principal deles foi não termos conseguido construir um forte movimento partidário.

 

Você acredita que o Podemos deveria ter continuado a ser um movimento ao invés de ter se transformado num partido?

Não. Você tem que pegar os aparatos estatais e tentar evitar os preconceitos de classe, gênero e raça com os quais eles estão marcados.

 

O que o motivou a sair da direção do Podemos?

 Deixei o executivo porque não sou uma pessoa que vive bem nos aparelhos. Eu prefiro criá-los do que habitá-los. Em segundo lugar, como eu fui o primeiro centro dos ataques midiáticos, havia camaradas, que hoje estão fora, que diariamente pediam minha saída do executivo. Em vez de me apoiarem, eles usaram essa pressão contra mim em debates internos. Em terceiro lugar, o partido estava focado na vida institucional e midiática e não estava dedicando esforços à parte movimentista. Era “pão para hoje e fome para amanhã”. Eu queria sair e no final foi a melhor decisão para todos.

Dos cinco fundadores do Podemos, todos são oriundos do meio acadêmico e quatro são homens, sendo apenas uma mulher. Você acredita que a falta de representatividade de outros segmentos da sociedade e de camadas populares pode ter sido um dos fatores que distancio o Podemos do eleitorado?

É possível, mas o Podemos não poderia ter resistido a muita dissensão interna no seu início. Ele existiu porque, como nas histórias, juntaram-se muitas circunstâncias que tornaram possível um final feliz. A amizade inicial daqueles que começaram o Podemos foi um elemento importante. Também compartilhamos influências. Todos conhecíamos a realidade latino-americana, havíamos militado à esquerda, nos movimentos sociais, havíamos fracassado de maneira semelhante.  Nós existimos porque o movimento 15M gerou a repolitização da sociedade e a possibilidade de uma história alternativa à da crise. Depois, houve a presença midiática de Pablo Iglesias e, em muito menor grau, a minha. Havia uma certa rede social construída com a Frente Cívica, uma associação de esquerda que queria superar o sectarismo da esquerda e que me levou a toda a Espanha antes do Podemos. Depois houve o fracasso de todos os partidos de esquerda, do PSOE, e também da Esquerda Unida. O poder estava na rua. Você só tinha que organizá-lo.

 

Você considera que o excesso de protagonismo de Pablo Iglesias pode ter sido um dos fatores que prejudicaram o desenvolvimento do partido?

O 15M triunfou porque não tinha memória, programa, estrutura política ou liderança. Essa flexibilidade fez dele transversal e deu a ele sua força colossal, mas ele também falhou porque faltaram memória, programa, estrutura e liderança. O Podemos veio para remediar isso.  A luta entre democracia e eficiência é um clássico da esquerda. Eu acho que é uma contradição a andar. Se não há exigências sobre o comportamento individual, a democracia afunda. Na democracia participativa, apenas uma pessoa pode dinamitar uma assembléia. Os exércitos são eficientes porque são hierárquicos. Porém, não é legal pertencer a um exército a menos que você queira ser um general. Do lado contrário, um excesso de horizontalidade mata a democracia. A solução está em um lugar de diálogo entre as estruturas e as bases que tenha ao mesmo tempo capacidade executiva e capacidade de diálogo. Eu imagino isso como a Wikipedia. A magia não está no líder, mas na direção. Portanto, é claro que devemos pensar numa liderança onde as pessoas identifiquem a mudança, mas também em órgãos colegiados que garantam uma troca constante entre a periferia e o interior dos partidos e instituições. Sem essa “mística amável” dessa liderança, é impossível reinventar a esquerda. A política tem um excesso de testosterona.

 

Você teve um encontro com o ex-candidato do PT à Presidência do Brasil Fernando Haddad no começo deste ano para discutir a Internacional Progressista. Como estão as discussões em torno desta entidade?

 Precisamos reinventar as Internacionais. As antigas, guiadas pelas diferenças, não valem mais a pena. Aquelas que são muito abertas, como o Fórum Social Mundial, não funcionam. Mais uma a cavalgar contradições.  A direita está em Davos, em Bildelberg, no FMI, no Banco Mundial, na OMC e no Goldman Sachs. Agora também na OEA. A esquerda não tem áreas de encontro com capacidade de fazer força. À direita, os interesses os unem e, à esquerda, como sempre, os ideais os separam. Teremos que inventar essas novas Internacionais, porque nenhum dos grandes problemas que a esquerda deve enfrentar, as desigualdades, as mudanças climáticas, a robotização da economia, as migrações, os maus-tratos e as desigualdades sofridas pelas mulheres, têm uma solução dentro do estados nacionais. E atualmente, os organismos supranacionais estão de volta às mãos da direita, seja a União Européia, a OEA ou as Nações Unidas.

*Raul Galhardi é jornalista.



Artigos Relacionados

Guilhotina

Guilhotina #51 – Daniel Santini

Previdência social

Lições das reformas previdenciária e tributária suíças

por Bruno Mäder Lins e Saul Carvalho Isaias
Meio Ambiente

O vexame do governo Brasileiro na COP 25 e a luta da juventude

por Randolfe Rodrigues
Isentões

A arte da moderação imprudente: pensando o doisladismo

por Renata Nagamine
Sábio-ignorante

Dois argumentos de Ortega y Gasset contra a direita brasileira – que o cultua

por Vinícius Mendes

Três memórias da ditadura e a escalada subhumanista

por Virgínio Gouveia
Educação

A BNCC: dilemas, contradições e desafios

por Giam C. C. Miceli
PODCAST

Guilhotina #50 – Armando Boito