EDITORIAL

Vem aí um novo golpe?

O fato de Lula liderar as intenções de voto para 2018 cria um impasse para os donos do dinheiro que afastaram o PT do governo. Eles não deram um golpe para assistir, pouco mais de dois anos depois, à vitória de Lula e à volta do PT. Assim, abre-se um novo leque de possibilidades.

por: Silvio Caccia Bava
30 de agosto de 2017
Crédito da Imagem: Claudius

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O recurso que deve ser apresentado pelos advogados de Lula ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª região, em Porto Alegre, sobre a condenação sem provas de que o ex-presidente seja dono do tríplex do Condomínio Solaris, no Guarujá, pode, eventualmente, anular sua condenação e deixá-lo em condições de disputar as eleições de 2018. Mas, se os juízes Leandro Paulsen, Victor Luiz dos Santos Laus e João Pedro Gebran Neto, tidos como linha-dura e com a mesma perspectiva de Sérgio Moro, reafirmarem a sentença deste último, Lula se tornará ficha-suja e ficará de fora das eleições do ano que vem.

No cenário em que Lula pode ser candidato a presidente nas eleições de 2018, ele tem grandes chances de ganhar se observarmos os dados da última pesquisa Vox Populi/CUT, realizada no fim de julho, que o coloca na liderança das preferências do eleitorado com larga margem de vantagem sobre todos os demais candidatos pesquisados e crescendo em relação à pesquisa anterior. Na sondagem espontânea, isto é, sem apontar candidatos, Lula tem agora 42% da preferência do eleitorado. Bolsonaro, 8%. Marina, 2%. Moro, 1%. Ciro, 1%. Joaquim Barbosa, 1%. Doria, 1%. Alckmin, 1%. Aécio, 0%. Brancos e nulos, 16%. Não sabe/não respondeu, 25%.1 É importante observar o quanto a população está desacreditando nas eleições ou não sabe quem escolher. Se somarmos brancos e nulos e não sabe/não respondeu, teremos 41% dos entrevistados.

Essa situação cria um impasse para os donos do dinheiro que afastaram o PT do governo. Eles não deram um golpe para assistir, pouco mais de dois anos depois, à vitória de Lula e à volta do PT. Assim, abre-se um novo leque de possibilidades. A primeira delas é manter a condenação de Lula de qualquer jeito, mesmo sem nenhum crime, como foi feito com Dilma. Mas isso não assegura que o resultado das eleições mantenha a oligarquia financeira no controle da máquina pública. Mesmo impedido de disputar as eleições, Lula será um grande eleitor, e é preciso considerar que as políticas antipovo do governo Temer e a falta de uma forte liderança de direita levam a população a votar na oposição.

Outra possibilidade, já aventada no Congresso, é que, em nome de uma economia de recursos, a reforma política unifique as eleições municipais com a eleição federal, empurrando tudo para 2020. Os atuais mandatos seriam prorrogados. Mas aí fica o problema do que fazer com Temer, que poderia ser substituído por Rodrigo Maia (DEM-RJ), o atual presidente da Câmara dos Deputados. Na avaliação dos mesmos conservadores, Maia não tem perfil para cumprir essa missão.

A alternativa mais recente é a de Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que encaminhou aos presidentes da Câmara e do Senado proposta para introduzir o parlamentarismo no Brasil. Neste cenário, Lula pode ganhar, mas não governa.

Por fim, resta a via de reforçar o autoritarismo, simplesmente adiando as eleições de 2018, para quando não se sabe.

Todas essas possibilidades, arquitetadas pelas elites endinheiradas e seus representantes na política, não dão conta da complexidade do momento político brasileiro. A polarização produzida pelas políticas antipovo, o verdadeiro ataque aos direitos das maiorias, mudou o cenário. O atual governo não conta com apoio de mais de 5% da população, e não são só os trabalhadores que estão bravos em razão das reformas trabalhista e da Previdência, do corte nas políticas sociais e nos salários; as classes médias estão enfurecidas com a perda de seu poder aquisitivo, com o medo do desemprego, por terem sido manipuladas, embarcado num movimento anticorrupção e terem sido enganadas. Tudo isso até o momento está represado. Essa tensão toda ainda não encontrou seu canal de expressão.

Seria um erro das oposições, daqueles que defendem a democracia e os direitos, apostar todas as fichas na eleição do ano que vem. E se não houver eleições? Outro erro seria manter uma política de conciliação com aqueles que estão esfolando o povo.

O verdadeiro desafio para as oposições é buscar o contato com as pessoas comuns, mergulhar na sociedade e disputar a hegemonia apresentando as alternativas de como podemos sair da crise e construir um Brasil que coloque a economia a serviço do bem-estar de todos, assegure boas condições de vida e apresente um futuro promissor para os jovens, garantindo emprego, salário, saúde e educação.

O esforço de mobilização da sociedade já começou. As caravanas de Lula fazem parte dessa disputa. A iniciativa Vamos!, da Frente Povo Sem Medo, vai no mesmo sentido.2

O jogo está sendo jogado e a participação de cada um será determinante para sabermos o resultado…

Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil
{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 122 – stembro de 2017}


1 Pesquisa Vox Populi/CUT. Disponível em: <www.cartacapital.com.br/politica/cut-vox-populi-sentenca-de-moro-impulsiona-lula-candidato>.

2 Site: <www.vamosmudar.org.br>.

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10 Comments

  • Ótimo editorial, o cenário alem de complexo possui alguns elementos que começa a fazer o povão entender o que foi o golpe, a sustentação da grande mídia começa a cair em descredito, claro que não resolve o problema a massificação e repetição diária ainda produz muito efeito, mais começa a atingir de verdade as condições sociais e diretamente aos que mais dependem dos estado, o trabalhador comum, assalariado, que tem o quadro de desemprego intensificado, e seus reflexos, a barriga começa a roncar, e o cidadão comum a desconfiar dos atores do golpe, que agem articulados como um cartel, e que o seu orgulho e ódio ao PT e as esquerdas em geral não condizem com o que comprou e abraçou vindo das mídias tradicionais, e que os rastros delas mostram um comprometimento, uma aliança como os atores do golpe, que os movimentos “espontâneos” de 2013/14, em verdade eram bem articulados.

  • Amo a lucidez do Silvio Caccia Bava, mas a ideia de que buscar uma saída democrática de conscientização do povo com a mídia que temos… é só pensar nesta saída para o Haiti ou o México. O movimento Vamos e Povo Sem Medo são duas aglomerações de quem coloca o desejo de disputar uma eleição à frente da urgência em que o país se encontra. Até que a esquerda seja derrotada numa eleição, o que temos é um golpe e golpe não se administra, golpe se DERRUBA. Ou derrubamos o golpe agora e restituímos a presidente eleita ao cargo, com afastamento dos golpistas e “férias” para o congresso até as novas eleições (2018)… Ou vamos buscar alternativas compatíveis com o México e o Haiti, que é o que nos tornaremos.

  • Havendo eleições, a esquerda precisa invadir o Congresso, através do voto…Só tendo maioria no parlamento as forças progressistas terão governabilidade…

    • Só há uma saída para recuperar a democracia e a autoestima desse sofrido povo: anular o golpe, Dilma retorna, anular os atos desse governo ilegítimo e convoca eleições imediatamente, sendo q ela mesma não concorra a presidência mas podendo concorrer em outro cargo. Seria a saída digna e democrática de reencontrar a nação brasileira.

  • Faz muito que estou comentando este fato aqui exposto……..Está nas mãos do povo BRASILEIRO agir !!!!! Nada de esperar para ver…..Neste caso específico não
    funciona. Se o POVO se unir conseguiremos arrancar esse governo fajuta, mentiroso, corrupto e vendedor do BRASIL!!!!!!!!
    O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO!!!!! ACORDEM!!!!! AINDA DÁ TEMPO…..MAS TEMOS QUE AGIR!!!!! AGIR UNIDOS!!!!!!!!

  • Muito boa análise, parabéns! Cabe ressaltar que a mídia teve e continua tendo um papel fundamental no golpe dado em 2016 no governo da presidente Dilma Rousself. Outros dois pontos que estão sendo banalizados sãos os poderes legislativos e judiciário. Tanto o congresso quanto o supremo estão uma zorra, para não dizer outra coisa. O Lula tinha razão há dois anos atrás quando disse “temos um supremo totalmente acovardado”. E foi exatamente isso que vimos. O trabalho ainda continua árduo, mas a única saída para esse imbróglio todo são as urnas em 2018.

  • ESSE GOLPE SOFRIDO PELA PRESIDENTE LEGITIMAMENTE ELEITA FOI UM DOS MAIORES RETROCESSOS NA RECENTE DEMOCRACIA BRASILEIRA. ESSAS OLIGARQUIAS QUE COMANDAM O PAÍS NÃO VÃO LARGAR O OSSO. NÃO HÁ PROJETO DE PAÍS E SIM DE PODER. ESTAMOS PAGANDO UM PREÇO CARO POR TODA ESSA INSANIDADE DOS NOSSOS GOVERNANTES. O PIOR DISSO TUDO É NÃO CONSEGUIR ENXERGAR UMA LUZ NO FINAL DO TÚNEL. TINHA CÁ ALGUMAS RESTRIÇÕES AO GOVERNO DILMA, MAS ELA DEVERIA TER CUMPRIDO SEU MANDADO ATÉ O FIM. AGORA ESTAMOS TOTALMENTE FORA DOS TRILHOS E JOGAMOS UM BALDE DE ÁGUA FRIA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, ALGO QUE LUTAMOS TANTO PARA CONSEGUIR.

  • Não existe separação de poder, então não é democracia. Uma denuncia criminal sendo barrada numa câmara? É sinal de que os poderes não são independentes. Denuncia criminal é para ser julgada num tribunal de justiça. Criminoso não pode governar.

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