PETROBRAS

A falta de um caminho sólido para uma transição energética justa

No que tange ao papel da Petrobras como indutora da neoindustrialização e da transição energética, o novo plano de negócios revela lacunas preocupantes

Embora a Petrobras reafirme sua intenção de liderar a transição energética, o Plano de Negócios 2026-2030 da empresa aponta em outra direção ao reduzir a alocação de recursos para projetos estruturantes de longo prazo. A queda dos preços internacionais do petróleo e o foco em resultados de curto prazo resultaram em recuos significativos nos investimentos voltados à transição energética. De modo que a diminuição desses aportes, somada à priorização da rota orgânica, pode restringir substancialmente o potencial da companhia de promover o adensamento produtivo via novas rotas tecnológicas, essenciais para uma transição justa e para o desenvolvimento nacional.

O Capex (Despesa de Capital) total previsto no PN atual apresentou variação marginal em relação ao anterior, passando de US$ 111 bilhões para US$ 109 bilhões. A recomposição interna das carteiras, porém, indica ajuste na estratégia de gasto. O Capex em avaliação aumentou de US$ 13 bilhões para US$ 18 bilhões, enquanto o Capex em implementação recuou de US$ 98 bilhões para US$ 91 bilhões (-7,1%). Contudo, o Plano introduziu um novo critério de categorização dos projetos em implantação, segmentando-os em duas carteiras. A “Carteira em Implantação Base” concentra os projetos com orçamento aprovado, mesmo sem sanção, somando US$ 81 bilhões. Já a “Carteira em Implantação Alvo” adiciona projetos condicionados à análise de financiabilidade, no valor de US$ 10 bilhões. Dessa forma, o montante efetivamente assegurado para execução corresponde a US$ 81 bilhões, configurando redução de 17,3% frente aos US$ 98 bilhões previstos no PN anterior.

Embora a redução real seja significativa, a distribuição dos recursos preserva o core business da companhia e sustenta a expectativa de lucratividade, inclusive porque também projeta compensar a queda das receitas de petróleo por meio da ampliação da produção. O resultado é um cenário relativamente confortável para o mercado, que lê no plano sinais de austeridade frente ao horizonte recessivo e, ao mesmo tempo, condições para manter a geração de retornos no curto prazo. No entanto, no que tange ao papel da Petrobras como indutora da neoindustrialização e da transição energética, o novo plano de negócios revela lacunas preocupantes. Essas indefinições assumem especial relevância após a COP 30, ocasião em que o Brasil tomou a frente das pressões para que o mundo amplie os compromissos com a agenda climática e acelere a descarbonização global, particularmente propondo um mapa do caminho para a transição energética.

Crédito: Divulgação Petrobrás (janeiro 2012)

O plano atual destinou US$ 13 bilhões a projetos de transição energética, valor que é cerca de 20,2% abaixo dos US$ 16,3 bilhões previstos no plano anterior, o que reduz a participação dessa rubrica no Capex total de 15% para 12%. Outras grandes petroleiras como Equinor, BP, Shell, também reduziram aportes em projetos de transição e redirecionaram investimentos para Exploração e Produção. Esse movimento reflete uma conjuntura global marcada por incertezas financeiras, regulatórias e geopolíticas que elevam a imprevisibilidade dos empreendimentos de baixo carbono e reforçam a atratividade do setor de óleo e gás.

O novo plano indica aumento de 7% para 8% na participação da transição energética no Capex em implantação, o equivalente a cerca de US$ 7,3 bilhões destinados a essas iniciativas. As alterações até aqui mencionadas, isoladamente, não indicam uma grande redução do peso da transição energética no planejamento da Petrobras, ainda que sua relevância permaneça bem pouco expressiva. Entretanto, a redistribuição dos recursos entre os componentes da rubrica – mitigação de emissões, energias de baixo carbono, bioprodutos e PD&I em baixo carbono – reafirmam a priorização de uma rota tecnológica cuja eficácia em promover a transição energética justa deve ser melhor avaliada.

Em relação ao plano anterior, no PN 2026-2030, os investimentos destinados à mitigação de emissões e às energias de baixo carbono foram reduzidos para US$ 4,3 bilhões e US$ 3,1 bilhões, indicando retrações bastante expressivas de 18,9% e 49,1% respectivamente. Vale dizer que, apesar da redução nos investimentos em descarbonização operacional (escopos 1 e 2),[1] a companhia já registra resultados expressivos até 2025 e segue com metas ambiciosas, como limitar as emissões em 55 MtCO₂e[2] e alcançar Near Zero Methane até 2030, avançando em direção ao Net Zero em 2050.

Em contraste com as reduções mencionadas, os aportes em PD&I em baixo carbono e bioprodutos alcançam US$ 1,2 bilhão e US$ 4,8 bilhões, representando aumentos de 3,8% e 9,2%, respectivamente. O etanol e o biorrefino mantiveram as dotações do plano anterior, de US$ 2,2 bilhões e US$ 1,5 bilhão. A novidade foi o aumento dos investimentos em biodiesel e biometano em quase 50%, passando de US$ 600 milhões para US$ 1,1 bilhão. Essa expansão alinha-se ao “Belém 4x” firmado durante a COP 30, que prevê quadruplicar a produção global de combustíveis sustentáveis até 2035, acelerando a descarbonização de transportes e aviação. Importa, ainda, ressaltar que o PN 2026-2030 não especifica o papel da Petrobras Biocombustíveis (PBio) nos aumentos projetados, tampouco sinaliza medidas voltadas ao seu fortalecimento.

O maior enfoque dado aos bioprodutos confirma a orientação, já sinalizada em 2024, de priorizar a “molécula” no horizonte de curto e médio prazo. Há lógica nessa escolha, uma vez que se apoia na trajetória consolidada do país em biocombustíveis e em suas vantagens comparativas.[3] Contudo, um direcionamento excessivamente concentrado nesse segmento pode limitar o aproveitamento das oportunidades de agregação de valor associadas a outras rotas tecnológicas, capazes de ampliar a base produtiva nacional e fortalecer a competitividade brasileira nos mercados emergentes de combustíveis verdes. Além disso, caso a cadeia de biocombustíveis não esteja articulada a uma estratégia nacional de industrialização e descarbonização da economia, essa priorização pode gerar efeitos mais restritos, precarização do trabalho, e reafirmar desequilíbrios regionais.

A ampliação da produção de bioprodutos é fundamental para o cumprimento dos mandatos de mistura obrigatória de etanol e biodiesel no Brasil até 2030[4] e pode contribuir para a transição energética ao atuar em favor da redução das emissões nos transportes, no escopo 3, as mais elevadas da cadeia. Entretanto, seu impacto efetivo depende de como se dará a fusão entre “o petróleo e o agro brasileiro”.

Para atender ao aumento projetado da demanda por biocombustíveis, o PN 2026-2030 indica que a Petrobras pretende firmar parcerias com agentes capazes de operar em larga escala, ou seja, grandes players do agronegócio – o que tende, entre outros efeitos, a limitar a participação da agricultura familiar. Assim, no curto prazo, expandir a produção de insumos para biocombustíveis significa ainda reproduzir práticas agrícolas vigentes, que respondem por parcela significativa das emissões nacionais, levantando dúvidas sobre sua contribuição líquida para a mitigação. Além disso, potenciais efeitos colaterais – como avanço da fronteira agrícola, competição com a produção de alimentos e intensificação de desigualdades regionais – também precisam ser considerados nesse cálculo.

Outro elemento que autoriza a relativizar a importância que a Petrobras dá à transição energética é a projeção da entrada das energias de baixo carbono no portfólio da empresa. Embora o PN 2026-2030 preveja a entrada da geração solar e das eólicas onshore a partir de 2026, o nível de investimento projetado para esses segmentos suscita dúvidas sobre a possibilidade de um avanço consistente das renováveis no horizonte do plano. Tanto na rubrica de transição energética quanto na carteira de “gás e energias de baixo carbono”, observa-se retração expressiva dos aportes.

A maior redução concentrou-se nas eólicas onshore e na solar, cujos investimentos caíram de US$ 4,3 bilhões no PN 2025-2029 para US$ 1,8 bilhão no plano atual (-58,1%), reduzindo sua participação de 33,1% para 13,9% no total destinado à transição energética. Além disso, as eólicas offshore foram deslocadas para além de 2031, fora do horizonte do plano, e o hidrogênio de baixa emissão de carbono (HBEC) passou a ser previsto somente a partir de 2029. Ambos os segmentos também registraram cortes: os recursos previstos para HBEC recuaram dos já tímidos US$ 500 milhões para US$ 400 milhões, e as eólicas offshore deixaram de receber alocação financeira. Já iniciativas de captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS) mantiveram o mesmo nível de investimento, limitado aos modestos US$ 900 milhões, com início de implementação previsto apenas a partir de 2028.

A carteira de “Gás e energias de baixo carbono” confirma a tendência de redução desses aportes. A alocação, que era de US$ 11 bilhões no plano anterior, recuou para US$ 9 bilhões no PN 2026-2030, levando a participação no Capex total de 9,9% para 8,2%. Olhando para a projeção de aumento da oferta de gás sinalizada, intui-se que a queda decorre justamente do menor peso das energias de baixo carbono dentro da carteira.

A Petrobras, enquanto principal empresa de energia do país, pode exercer papel central na descarbonização da economia. A companhia busca se posicionar como “líder da transição energética justa”, mas, no plano atual, essa diretriz aparece vinculada à “adição energética”, ao aumento da produção de biocombustíveis e, até, à “ampliação da frota do Sistema Petrobras”. Embora tais iniciativas possam ser vetores da transição justa, o planejamento quinquenal carece de maior precisão quanto aos mecanismos capazes de assegurar impactos positivos sobre os trabalhadores e as cadeias produtivas nacionais. Sem essa definição, a proposta de “transição justa” permanece genérica e com efetividade limitada.

Operando, majoritariamente, sob uma lógica de resultados de curto prazo e sem estabelecer vínculos sólidos com uma política nacional de industrialização, o foco ampliado em bioprodutos pode reforçar um setor primário-exportador, caracterizado por altas emissões e baixa capacidade de geração de emprego. A redução relativa de prioridade às renováveis e ao HBEC pode, por sua vez, significar a renúncia a oportunidades estratégicas que fortaleceriam a posição internacional do Brasil em cadeias de valor emergentes.

O adiamento de decisões estratégicas preocupa. Dado que a produção de petróleo deve manter seu pico até 2034 e que os projetos de baixo carbono possuem longos ciclos de maturação, a baixa intensidade de investimentos nesse período de elevada rentabilidade reduz a capacidade futura da empresa de conduzir uma transição energética consistente e justa, bem como limita seu papel na neoindustrialização brasileira. Diante dessas lacunas, torna-se imperativo que a Petrobras apresente um plano estruturado para a transição energética, com metas, instrumentos e diretrizes claras, alinhado às prioridades nacionais de desenvolvimento.

 

Fernanda Brozoski é pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e doutora em Economia Política Internacional (PEPI-UFRJ).

[1] O marco regulatório recente estabelece metas crescentes de mistura obrigatória de biocombustíveis: a gasolina deverá conter 30% de etanol anidro (E30) e o diesel 15% de biodiesel (B15), com possibilidade de elevação para 35% e 20%, respectivamente, até 2030. No setor aéreo, o CORSIA determina que, a partir de 2027, as emissões acima da média de 2019-2020 em rotas internacionais sejam compensadas, alinhando a aviação ao objetivo de crescimento neutro em carbono até 2035.

[2] Sigla para milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente.

[3] Como extensa área agricultável, condições climáticas favoráveis, elevada capacidade de produção e escala, e renovabilidade das matérias-primas, entre outras.

[4] Escopo 1 como emissões diretas de fontes controladas (ex.: queima de combustíveis fósseis); Escopo 2 como emissões indiretas de energia adquirida (eletricidade, calor, vapor); Escopo 3 como demais emissões indiretas na cadeia de valor (transporte, uso de produtos finais).

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