MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Debate sobre integridade da informação evidencia desafios na disputa pela verdade

Comunicação popular aponta um caminho de diálogo com territórios e comunidades enquanto sociedade civil pressiona por políticas estruturantes

Em uma manhã de segunda-feira, no dia 10 de novembro de 2025, os olhos do mundo se voltaram para a cidade de Belém do Pará, um dos cartões-postais da Amazônia brasileira. A data marcou o início da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, o principal encontro de negociação das decisões globais para adaptação e mitigação da crise climática.

Sob forte expectativa internacional, a conferência iniciou com um discurso em que o presidente Lula fez um apelo contra o negacionismo: “Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam os algoritmos, semeiam o ódio e espalham medo. Atacam as instituições, a ciência e as universidades. É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas”, disse o chefe do Executivo.

A fala do presidente é simbólica de um movimento crescente em torno da integridade da informação, um debate que foi impulsionado no Brasil durante os esforços de preparação para a conferência climática. Apesar da preocupação com a desinformação e o negacionismo, para Letícia Capone, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e diretora de pesquisa do Instituto Democracia em Xeque, a integridade da informação traz um olhar mais aprofundado, envolvendo também os ecossistemas e as dinâmicas comunicacionais. “Não se trata somente de ter qualidade da informação, mas é uma percepção mais ampla que envolve a observação de grandes ecossistemas, trabalha a dimensão da publicidade, a dimensão do jornalismo”, explica.

Na esteira da COP, o governo brasileiro deu uma série de passos na agenda de integridade da informação, entre elas o lançamento da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima, em conjunto com as Nações Unidas e a Unesco durante a Cúpula do G20, encontro das maiores economias mundiais, em novembro de 2024, e, em âmbito nacional, a Rede de Parceiros pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima (RPIIC), uma articulação que reúne organizações da sociedade civil, instituições acadêmicas e grupos de pesquisa.

Na análise da Agnes Franco, que faz parte do secretariado da RPIIC, além da conferência climática, a difusão de desinformação em diferentes episódios recentes acendeu um alerta para o tema no Brasil. “O que tem acontecido é que diversos atores da sociedade têm sentido os efeitos diretos da desinformação na área de economia, na saúde, na própria política pública. Então, o resultado que a gente vê são diferentes instituições em âmbito nacional e internacional colocando o tema como relevância. Isso já era esperado”, aponta.

A COP da disputa contra o greenwashing

A COP não foi apenas palco de afirmação de compromissos com a integridade informacional. Ela também evidenciou, de forma contundente, que o campo da informação é, em si, uma arena de disputa. Ao longo das negociações, multiplicaram-se episódios que expuseram tensões profundas entre diferentes projetos políticos e econômicos. Práticas de greenwashing, nas quais grandes corporações promovem uma imagem ambientalmente responsável sem mudanças substantivas em seus modelos de negócio, estiveram amplamente presentes, seja em campanhas institucionais, seja em espaços de lobby dentro da conferência.

Em uma carta aberta assinada por mais de 400 organizações e indivíduos, divulgada durante a conferência, a Ação Climática contra a Desinformação (CAAD, em inglês) chamou a atenção para a manipulação do discurso público pela indústria dos combustíveis fósseis, que continua a organizar e a financiar campanhas de desinformação. “Ao criar uma falsa percepção de divisão e apatia da população, essas campanhas sabotam a adoção de políticas climáticas eficazes e desacreditam ativamente as soluções de energia renovável, atrasando a impreterível transição energética”, diz o documento.

Durante a COP, empresas do setor de combustíveis fósseis, por exemplo, intensificaram estratégias de comunicação voltadas à promoção de soluções tecnológicas controversas, frequentemente apresentadas como alternativas suficientes para mitigar a crise climática, apesar das críticas de especialistas quanto à sua eficácia e escala. Em paralelo, houve tentativas sistemáticas, lideradas por delegações de países fortemente dependentes da exploração de petróleo e por grupos políticos conservadores, de esvaziar ou eliminar referências a temas como gênero, justiça climática e direitos humanos nos textos oficiais.

É justamente nesse contexto de disputa que a presença de comunicadores populares e independentes na COP 30 assume relevância estratégica. Diferentemente de edições anteriores, a conferência registrou uma participação mais robusta de coletivos de comunicação de base, mídias comunitárias e iniciativas independentes, muitas delas oriundas de territórios diretamente impactados pela crise climática, como comunidades indígenas, ribeirinhas e periféricas.

Essa presença não foi apenas simbólica. De acordo com Cecília Amorim, diretora da Agência Carta Amazônia, de Belém, ela contribuiu também para tensionar a cobertura tradicional da mídia hegemônica, frequentemente concentrada em atores institucionais e negociações diplomáticas, ampliando o espectro de vozes e narrativas presentes no debate público. “A comunicação popular é importantíssima para fortalecer o movimento de luta das comunidades tradicionais e a COP em Belém foi um exemplo disso. Os jovens comunicadores na linha de frente, ouvindo as lideranças, trazendo as reivindicações. E isso me dá muita esperança”, pontua.

Para Amorim, o movimento por comunicação popular e independente na Amazônia tem crescido, para além da conferência, como resposta às violações do direito à comunicação na região. “Quando a gente fala na Amazônia, a gente tem vários problemas muito graves de concentração de mídia. São estados onde o controle da narrativa sempre esteve nas mãos de poucas famílias e as poucas vozes que se opunham a essa hegemonia sofrem perseguição política, financeira e muitas vezes física. Só que, com a popularização da internet, fica mais difícil deles controlarem isso, e vários veículos independentes começam a surgir”, destaca.

No artigo “Comunicação popular e clima: quando o território toma a palavra”, produzido em parceria com o Intervozes, Paulie Amaral, da Associação Cultural Na Cuia, também de Belém, reforça que redes de comunicadores populares se articularam ativamente durante o período pré-conferência para construir ecossistemas comunicacionais baseados na solidariedade, no cuidado e na partilha de saberes. “Quando as periferias, os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos contam suas próprias histórias, o mundo não apenas escuta, ele se transforma”, sustenta.

Crédito: Intervozes

COP também de legados e desafios

Para Madalena Vieira, da Abaré Escola de Jornalismo, a COP-30 impulsionou processos formativos importantes. “Oficinas, encontros e articulações entre comunicadores criaram um ambiente propício para a troca de saberes e o fortalecimento de redes. Esse legado formativo é um dos aspectos mais promissores da conferência, na medida em que aponta para a construção de uma infraestrutura social de comunicação capaz de sustentar, no longo prazo, uma agenda de integridade da informação ancorada nos territórios”, destaca.

No entanto, os desafios do pós-COP são significativos. Historicamente, grandes eventos internacionais tendem a concentrar recursos, atenção e oportunidades em períodos específicos, seguidos por fases de retração. No campo da comunicação, isso se traduz na redução do financiamento para iniciativas independentes e comunitárias, comprometendo a continuidade dos processos iniciados durante a conferência.

A pergunta que se coloca, segundo Vieira, é como transformar o impulso gerado pela COP em políticas estruturantes. “Isso passa, necessariamente, pelo reconhecimento da comunicação como um direito e como um componente central da ação climática. Implica também a formulação de políticas públicas que garantam financiamento contínuo, formação permanente e condições de trabalho dignas para comunicadores populares, especialmente aqueles que atuam em contextos de maior vulnerabilidade”, reforça.

Na mesma linha, Letícia Capone aponta a necessidade de ampliar ações e políticas públicas com alcance territorial. “A gente tem um desafio, particularmente aqui no Brasil, em relação a como a gente vai garantir que a integridade da informação atinja de forma democrática, distribuída, plural, todos os territórios. O Brasil é um país de dimensões continentais, com muita desigualdade quando a gente toca no que concerne a comunicação, que acaba trazendo um ponto muito grande de vulnerabilidade, porque a gente não tem como garantir que todos vão exercer o seu direito a receber informações de qualidade da mesma forma”, reflete.

Agnes Franco, que também é doutoranda em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP), acrescenta a importância de retomar as discussões em torno da regulamentação das plataformas digitais, mesmo diante de um cenário social menos favorável. “[A regulação] é importante para evitar que em situações de emergência climática, de crise climática, a gente tenha novamente a propagação de desinformação, acontecendo de forma desenfreada e sem nenhum mecanismo de defesa em relação a isso.”

Além da regulação, processos de formação e educação sobre as redes são imperativos. A pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação”, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e que investigou as dinâmicas informacionais de usuários de internet brasileiros de 16 anos ou mais, sinalizou pontos de atenção referentes à dificuldade de compreensão de aspectos centrais do funcionamento de redes sociais e mecanismos de busca, com destaque para o entendimento da existência e operação de sistemas algorítmicos de classificação e distribuição de conteúdos e lógicas de impulsionamento de publicações e resultados.

Os riscos da desinformação

Em 2024, uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado apontou que 72% dos usuários de redes sociais já viram notícias que desconfiam serem falsas e 81% dos entrevistados afirmaram acreditar que a disseminação de “fake news” pode impactar “muito” os resultados das eleições. A pesquisa também aponta que 78% das pessoas consideram “muito importante” o controle das notícias falsas nas redes sociais e 81% defendem que as empresas devem ser responsabilizadas pela disseminação de notícias falsas, além de adotar medidas como filtros, moderação e políticas de uso sobre conteúdos publicados nas plataformas digitais.

No entanto, apesar dessa percepção sobre a desinformação no ambiente digital, o Brasil tem avançado pouco no processo de regulamentação. Apresentado como um marco no combate à desinformação e responsabilização das plataformas, o Projeto de Lei 2630/2020, batizado de “PL das Fake News”, segue parado na Câmara dos Deputados. Em 2022, os parlamentares não alcançaram o número de votos necessários para aprovação da urgência em sua tramitação e, desde então, o projeto não avançou.

Enquanto isso, o crescente desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial eleva os riscos da desinformação. O NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), testou uma série de metodologias para identificar deepfakes durante a pré-campanha eleitoral de 2024, mas encontrou uma série de dificuldades na coleta de dados e reconhecimento de conteúdos sintéticos nas redes sociais e aplicativos de mensageria. O estudo mostrou que a autodeclaração do uso de IA e as técnicas de revisão algorítmica não são suficientes, ao passo que as big techs têm encerrado ferramentas de transparência.

Integridade para além da informação

A discussão sobre integridade da informação ganha contornos ainda mais complexos quando articulada à pressão por megaprojetos de infraestrutura e à expansão de fronteiras fósseis no país, que também se amplificaram após a realização da COP 30. Sob forte assimetria, a disputa informacional se intensifica em torno de temas como a exploração de petróleo na foz do Amazonas, defendida pela Petrobras e pelo governo federal, e projetos de grande impacto no Nordeste, incluindo a instalação de data centers, responsáveis por um uso intensivo de recursos hídricos no Semiárido.

Nesse cenário de disputa, movimentos sociais e coletivos de comunicação popular têm reforçado a necessidade de ocupar não apenas o ambiente digital, mas também os espaços físicos de mobilização. Experiências recentes mostram que a presença nas ruas continua sendo central para a construção de consensos e para o enfrentamento de narrativas hegemônicas. A integridade da informação, nessa perspectiva, não se limita ao combate à desinformação, mas passa também por assegurar a capacidade de organização social e da construção coletiva de sentidos.

Esse desafio é ainda maior diante da escassez de políticas públicas que fomentem o trabalho de mídias independentes, comunitárias, populares e do jornalismo, em geral. Um levantamento publicado em 2025 pelo Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ) apresenta algumas dificuldades dessas mídias em obter financiamento, tais como a burocracia e grande concorrência em editais, recursos pontuais e com duração limitada, além do alinhamento ao perfil e exigências dos financiadores.

Além disso, o estudo também aponta que a filantropia é o principal meio de financiamento das mídias comunitárias. No entanto, a pesquisa indica que mais da metade dos recursos da filantropia internacional é direcionada a apenas nove organizações brasileiras de jornalismo enquanto 26% das iniciativas ouvidas não possuem qualquer financiamento. Portanto, a dificuldade no acesso a recursos e formas de garantir sua sustentabilidade, seja através de políticas públicas ou financiamento do terceiro setor, criam ainda mais barreiras para a diversificação dos meios de comunicação, aumentando o terreno do oligopólio midiático e fragilizando alternativas à desinformação.

Mais do que um princípio técnico, trata-se de um processo político. Garantir a integridade da informação implica reconhecer o direito das comunidades de produzir e circular suas próprias narrativas, em um ecossistema informacional que seja plural e distribuído. Isso exige a atuação articulada de múltiplos atores, mas também o fortalecimento de infraestruturas comunitárias de comunicação. Sem isso, o risco é que decisões estratégicas sobre o futuro ambiental do país continuem sendo tomadas a partir de fluxos informacionais concentrados, que pouco dialogam com os territórios diretamente afetados.

 

Gabriel Veras é natural do Amazonas, jornalista e educador popular, membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e da Abaré Escola de Ativismo.

 

Este artigo faz parte da série “Relatório Direito à Comunicação 2025”, produzido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. O relatório, divulgado anualmente, traz reflexões, análises e contribuições para o debate ligado ao direito à comunicação, a partir dos principais fatos que marcaram o Brasil.

Leia mais sobre o tema: