Saudade de Rosa e Sertão
Segundo Adélia Bezerra de Meneses, apresentadora e co-autora do livro, “Germano Neto conta que leu o Grande Sertão: Veredas e partiu para o sertão, câmara fotográfica em punho, em busca da ‘luz’ de Guimarães Rosa, luz que se derrama sobre a paisagem, as coisas e o povo sertanejo”. E, de fato, ele trouxe do lugar imagens de luzes e cores belíssimas: dos céus, das águas, das árvores, dos buritis, dos recantos, das casas pobres, do gado, dos homens, das mulheres, das crianças.
As imagens são de um sertão onde a cultura – casas, caminhos, sepulturas, objetos – não agride e se harmoniza ainda com a natureza. As casas têm as formas e as cores que se acomodam às da região, os caminhos contornam as árvores e os acidentes, e as pessoas mimetizam as cores da terra e o brilho do céu nos olhos e nas feições. De modo que, aqui, o lugar, o sertão, não é o mundo, mas o seu contrário, pelo menos daquele de nossa experiência. Isso não quer dizer que o lugar saia idealizado nas fotos. Elas combinam com muito equilíbrio, na escolha dos conteúdos e nos recortes, o interesse estético pelo belo com o interesse documental pelo específico. Elas nos dão a beleza e o conhecimento do lugar, a partir de alguém de fora interessado em captar o seu objeto bucólico e voltar para mostrá-lo aos iguais de fora.
Atrás do fotógrafo foi a estudiosa, motivada pelas imagens, para dentro do sertão verbal de Guimarães Rosa, em busca de recortes textuais que fizessem um contraponto com as fotos. O resultado não foi homogêneo, varia em cada caso, os fragmentos de texto se compõem ou se casam mais ou menos com as imagens. Isso talvez seja porque, como tendência, se as fotos captam as manifestações de um lugar, os recortes textuais são genéricos e podem ser válidos para qualquer parte, talvez o mundo. O que não quer dizer que não haja fragmento que reforce a foto e foto que ilustre o texto. Mas não é isso que predomina e nem parece ter sido a intenção de Adélia. A orientação, a meu ver, foi a de manter a independência de um e outro, de modo que cada um dialogasse e enriquecesse o outro com as suas autonomias e singularidades. Nesse sentido, tiveram muito êxito e produziram um conjunto instigante.


