ENTREVISTA

Fernanda Teixeira Ribeiro: ‘tenho um prazer enorme em criar um pequeno inferno e trabalhar para torná-lo crível’

Autora de Cantagalo é a terceira entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor

A mineira Fernanda Teixeira Ribeiro, autora de Cantagalo (Todavia), obra vencedora do Prémio Revelação Literária UCCLA-CM Lisboa, é a terceira entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor.

Ao longo da entrevista, a autora fala sobre seu processo de construção de personagens, ressalta a influência de Jane Austen, Érico Veríssimo e Jorge Amado em sua vida e conta sobre sua relação diária com a escrita.

Confira na íntegra:

A primeira frase de Cantagalo é, para mim, uma das mais marcantes da literatura brasileira contemporânea: “As santas conhecem as mulheres pelo nome de solteira, ouviu dizer quando menina, muito antes de se casar e entender o porquê”. Em que momento do processo de escrita do livro surgiu essa frase? Quando decidiu que ela abriria o romance?

Essa frase surgiu em uma das muitas reescritas do romance, talvez na última. Depois de tanto reescrever, indo e voltando no texto, eu sentia que faltava uma peça, e essa lacuna estava na abertura do romance. Eu queria expor, já na primeira frase, a aflição de uma mãe que apronta o filho para uma visita decisiva para o futuro do menino. Essa mulher acredita ter feito uma má escolha no passado, quando ainda solteira, e deseja outro caminho para o filho. Eu buscava uma frase capaz de transparecer a aflição essencial dessa mulher e de introduzir o leitor no universo do romance, rural, antigo e permeado por religiosidade. Eu sentia que essa frase existia, mas ainda não conseguia encontrá-la. Continuei trabalhando em outras partes do texto, fiz pausas e, numa manhã, ela surgiu com clareza. Para ser colocada exatamente ali. A partir dela, reescrevi o primeiro e segundo capítulos, fiz muitos outros ajustes, e senti que o livro encontrava sua unidade.

Quais são as dores e as delícias de construir uma narrativa com muitas personagens?

O desafio é encontrar a voz de cada um deles: suas maneiras de se expressar, seu léxico particular, não apenas de palavras, mas de crenças e autoenganos. Uma viúva proprietária de terras vai interpretar o mundo e se expressar de maneira diferente de um parente empobrecido que a culpa por não ter dinheiro, como acontece entre Praxedes e Julião, em Cantagalo. É assim que procuro compreender meus personagens.

É muito bom, e é o que mais gosto de fazer: desenvolver essas pessoas e ver como uma julga, justifica, despreza, admira ou simplesmente é indiferente à outra. Tenho um prazer enorme em criar um pequeno inferno e trabalhar para torná-lo crível. O trabalho duro, para mim, está na linguagem: manter a estrutura de pé, criar a coesão do romance. Quanto aos personagens, é só delícia, até a dor. Gosto de ir moldando gente diversa, testando sua coerência e também me abrindo para sua incoerência.

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?

Se há uma obsessão, é a relação entre indivíduo, tecido social e tempo. Em Cantagalo, por exemplo, existe uma tensão constante entre o que cada personagem deseja e o lugar social que ocupa: mulher, mãe, filha, proprietário de terra, trabalhador, criança bastarda.

Fora da literatura, creio que esse interesse também se manifesta na minha atuação como pesquisadora e na vida, de forma geral. Sou de observar muito e de tentar compreender por que as pessoas fazem o que fazem. A literatura talvez me permita exercitar pontos de vista, colocando os personagens em situações sociais e de época que moldam e entram em conflito com seus desejos.

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?

Eu gosto de reler toda a obra de Jane Austen, em especial Persuasão e Mansfield Park. Neste último, em particular, descubro um gosto novo a cada leitura. A meu ver, Jane Austen conseguiu usar a falta de brilho dos protagonistas – sendo que conhecemos tão bem sua capacidade de criar personagens carismáticos – para construir antagonistas fascinantes de tão sensuais, amorais e escandalosos, lançar luz sobre inúmeras questões éticas e, ao mesmo tempo, fazer tudo parecer “literatura para moças”.

A autora Fernanda Teixeira Ribeiro – Foto: Max Tango

Com ela aprendo muito sobre subtexto e sobre como falar de algo sem dizê-lo de maneira explícita. Sem contar que é sempre um prazer ler Jane Austen, independentemente das camadas que encontramos, ou achamos que encontramos, em sua obra.

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?

Ana Terra, primeiro volume de O Tempo e o Vento, e Capitães da Areia. Era quase uma criança quando li esses livros e volta e meia releio e ainda aprecio. O Érico Veríssimo e o Jorge Amado criaram em mim o hábito de ir à biblioteca, desde cedo. Pela proximidade de prateleiras conheci muitos outros autores de literatura brasileira, depois passei para estrangeiros. Era algo muito natural, hoje percebo. Gostava dessa serendipidade de dar com livros. Não me importava com quem era o autor. Pegava um livro atrás do outro e, quando eu gostava, me interessava em saber qual era o nome na capa apenas para pegar outro livro daquele autor ou autora. Assim eu fui me tornando leitora, muito ao acaso, guiada por curiosidade e prazer.

Quanto a me tornar uma escritora, creio que foi e também não foi um caminho mediado por ler muito ou pelo encanto com alguma obra específica. Eu tinha e tenho algo dentro buscando um canal para atuar no mundo. A leitura aprofundou minha afinidade com a palavra. Ou, vai saber, talvez essa afinidade tenha vindo antes e tenha me levado aos livros. A escrita se fez instrumento.

Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?

Temos de celebrar os clubes de leitura e seus mediadores. Um destaque especial para a iniciativa Leia Mulheres, presente em tantas cidades do Brasil e fundamental para aproximar escritoras e leitores. Conseguir publicar um livro traz muitas alegrias e, para mim, a maior é poder encontrar leitores. Os encontros com os clubes, presenciais ou online, são uma revelação, mostram o quanto a obra se torna coletiva depois de lida e debatida.

Eu celebro em especial o movimento Rolê dos Livros, que incentiva a leitura em comunidade e a conversa sobre livros em locais públicos de São Paulo. Tomara que essa experiência se espalhe por outras capitais. Celebro também os festivais literários, assim como seus organizadores e todas as pessoas envolvidas em sua realização. São eventos que exigem muito trabalho e dedicação.

Sobre preocupação, creio que deveríamos, em um mundo ideal, nos preocupar para valer com os próprios livros: o texto, as intenções, a arte. Que publicação, divulgação e circulação sejam questões que surjam apenas depois de o livro estar pronto, e não diretrizes para sua feitura. Concentrar nossa energia nesse ofício artesanal, que exige tempo e dedicação, deveria ser a nossa preocupação principal.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?

Entre autores que gostaria de ver mais conhecidos, destaco alguns nomes de fora do Sudeste. Na prosa, o baiano Abáz: Massaranduba (ed. Senac) tem uma regionalidade que aparece de forma orgânica nas escolhas de linguagem. A curitibana Julia Raiz: Toda Cabeça de Irmão (ed. Telaranha) é um romance de estrutura limpa e conteúdo cheio de sujidades. O goiano Leandro Quintanilha, autor do livro de contos Objetos Pessoais (ed. Patuá), dá voz a móveis e objetos que observam as pessoas ao redor, criando perspectivas pouco convencionais. Na poesia, Nilson, autor de Pequeno Caderno Maranhense (ed. Cepe), constrói uma poesia histórica sobre a formação do Maranhão, com um trabalho de linguagem muito cuidadoso.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?

Eu não acho que seja um conselho, mas uma ideia que apreendi de pessoas que acreditam na própria vocação e se dedicam a ela: escrever demanda escolhas conscientes tanto dentro como fora dos livros. Desenvolver a escrita, como desenvolver qualquer outra aptidão, exige uma rotina em que haja tempo e energia física e mental para experimentar e trabalhar da melhor maneira possível. Isso envolve renúncias. São poucos os artistas que conseguem se dedicar exclusivamente à própria arte, sem preocupações financeiras e cotidianas que concorram com o tempo e a energia necessários para o trabalho artístico. Essa dificuldade costuma ser ainda maior para as mulheres. Ainda assim, acredito que é possível fazer escolhas que criem esse espaço e, aos poucos, o ampliem. A satisfação de se dedicar ao que assumimos como vocação é enorme.

Aprendo muito com artistas fiéis ao próprio caminho, não apenas escritores. É um desafio, mas também um norte, desprender a escrita do ego. É claro que, como autora, quero ser lida, que meus livros sejam adquiridos e circulem, mas não vou condicionar meu fazer artístico a isso. Por exemplo, receber um prêmio é excelente e abre portas, mas de maneira alguma vou orientar meu trabalho por critérios especulativos sobre o que pode ou não ser premiado.

Penso que até as ideias ruins são bem-vindas se, por meio delas, conseguimos nos conhecer melhor como artistas e afirmar nossos próprios caminhos. Uma ideia que não funciona para mim é a de que um bom romance passa necessariamente por planejamento detalhado e uma fidelidade feroz a ele: há autores que planejam cada capítulo antes de escrever e têm metas claras de escrita. Para mim não funciona. Eu tenho muita disciplina, me dedico quase todos os dias à escrita, mas o planejamento acaba comigo. Preciso ir descobrindo a história, os personagens, os desfechos e a linguagem que tudo isso pede enquanto escrevo.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.

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