REPORTAGEM

FLIPEI festeja a capacidade dos livros de trapacear com a língua e piratear o sistema

Festa literária reúne editoras independentes, escritores e ativistas para discutir o mercado editorial e o contexto político atual Brasil afora 

“A língua é, simplesmente, fascista”, anunciou Roland Barthes em sua aula inaugural da cadeira de semiologia literária no Collège de France. O aforismo provocador pretendia apontar para a forma como a língua está a serviço de um poder. Como ouvir a língua fora do poder? Para Barthes, a resposta está nas formas de trapacear com ela: “no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura”. A definição que o crítico formula para a literatura ressoa com os modos de provocação da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, a FLIPEI, que chega à sua oitava edição neste ano inspirada nas flotilhas que rumaram a Gaza nos últimos meses para piratear a linguagem e as formas de combate político em nível local e global, sem deixar de lado seu caráter literário. 

Com o propósito não apenas de refletir, mas também de inspirar mudança social por meio do cuidado coletivo e de uma ousadia criativa e política, esta edição da FLIPEI acontece entre os dias 5 e 9 de agosto no Espaço Cultural Elza Soares, na região central de São Paulo. Os debates reúnem pesquisadores e jornalistas de diferentes partes do mundo, como a estadunidense Ruth Wilson Gilmore, o indiano Vijay Prashad, o israelense Gideon Levy e os chilenos Flavia Córdova, Almendra García-Huidobro e Vicente Montecinos. No cenário nacional, destacam-se os ativistas e políticos Luiza Erundina, Txai Suruí e Thiago Ávila, além de teóricos como Cida Bento, Vladimir Safatle e Christian Dunker. 

Foto: Divulgação

Apesar da prevalência de um pensamento teórico e ativista em detrimento de discussões estritamente literárias, é no livro que se centram as atividades. Explorando temas como o genocídio palestino, o colonialismo estadunidense no Oriente Médio e na América Latina, o abolicionismo penal, a tarifa zero do transporte em São Paulo e a legalização do aborto, a programação também reserva lugar para discussões sobre modos de incentivar a bibliodiversidade e novas formas de trabalho no mercado editorial brasileiro. 

Para Marcos Morcego, curador da FLIPEI, a tônica do evento é chamar atenção para o instante. “Queremos discutir o que é fundamental agora. Não queremos saber se mês que vamos ter comida. Precisamos comer agora. Precisamos nos locomover agora. Precisamos nos libertar das garras do colonialismo agora. Parece que as coisas não estão se movendo ou que estão caminhando para trás. Temos que empurrar para frente, e o livro é uma porta de entrada para essa luta. Não à toa, os números de leitores voltaram a aumentar nos últimos anos entre mulheres, negros, latinos e outras minorias”.

Sua defesa aos livros diz respeito ao poder da palavra impressa de colocar ideias no mundo e marcar a realidade. Ele dá às pessoas o poder de escrever, debater, grifar, subscrever e fazer circular conhecimento político e social. Mas a organização também entende a cultura e a política como algo que circula para além dos livros. Por isso, a partir deles, estruturam-se discussões sobre música, esportes e culinária.

Além de shows e conversas com artistas como o rapper FBC e o historiador e músico Rick Blackman, o evento conta com uma “Copa Rebelde” de pebolim e uma prática aberta de boxe. O esporte entra em cena neste ano de Copa do Mundo como “forma de  resistir, de contar a história e de perpetuar saberes”, define a curadora Jéssica Balbino. Enquanto o boxe é um esporte historicamente ligado à autodefesa e amplamente praticado nas periferias, o pebolim surge na programação como homenagem ao seu criador, Alejandro Campos Ramírez, poeta e militante anarquista espanhol, que inventou o jogo no hospital de Montserrat, em Valência, enquanto se recuperava de ferimentos da Guerra Civil Espanhola. Ao lado da “culinária rebelde” da Ocupação 9 de Julho do MSTC, que trata de alimentar quem vai à FLIPEI e evidenciar o papel social da comida, essas atividades articulam formas de aproximar grupos distintos, das crianças aos mais velhos, interessados em formas diferentes de unir lazer e reflexão. 

Foto: Divulgação

O contexto brasileiro se vê marcado politicamente pelas eleições presidenciais e estaduais que se aproximam. Com histórico de censuras e violência institucional tanto em São Paulo quanto em Paraty, onde se instalou até 2023, a FLIPEI não se acanha em afirmar que “a censura não vai parar ninguém”, nas palavras de Balbino. Em uma edição preparada com maior tranquilidade, o evento celebra as alianças que nutre desde o ano passado com instituições como o Espaço Cultural Elza Soares, que os abrigou depois da prefeitura proibir que usassem a Praça das Artes menos de uma semana antes da abertura em 2025. 

“As pessoas que estão no governo do estado e na prefeitura de São Paulo não são a favor da festa. Vemos bares fechando cada vez mais cedo e ruas perdendo calçadas para se construir uma cidade voltada para a especulação imobiliária e para os carros”, define Morcego. “A FLIPEI demonstra essa capacidade popular de mobilização firmando os pés no mesmo lugar para mostrar que é possível construir algo diferente.”

Ao lado de Morcego, que é comunicador e pesquisador em ciências sociais e de Balbino, que é jornalista, escritora e ativista cultural, o trabalho de curadoria desta edição foi feito por Cidinha da Silva, escritora e pesquisadora; e Pedro Silva, geógrafo e editor. Vindos de cidades e áreas do conhecimento distintas, a equipe trabalha ao lado de dezenas de editoras independentes para movimentar seus debates. 

Morcego destaca a importância das editoras no evento, que vêm publicando pessoas vivas que movimentam debates sociopolíticos relevantes no mundo todo. Outro fator que ele destaca é a entrada cada vez maior de pessoas marginalizadas nas universidades, processo resultante de políticas afirmativas, que ampliaram e diversificaram tanto a autoria quanto o público leitor. 

Para os organizadores, ser “independente”, como demarca o nome da feira, quer dizer “assumir um lado político em uma sociedade que é controlada pelos grandes capitalistas”. O adjetivo “pirata”, por outro lado, surge no momento em que a feira era concomitante à Feira Literária Internacional de Paraty, cuja programação oficial era restrita aos portadores de ingressos. Ele segue a festa até São Paulo, em que mantém o objetivo de seus organizadores de “hackear esse sistema” nas palavras de Balbino, criar outras formas de fazer literatura e pensamento crítico. “Junto com as editoras, damos espaço para as ideias que foram rejeitadas pelo monopólio por serem marginais ou revoltosas demais”, afirma Morcego.