MULHERES DOS TERRITÓRIOS AMAZÔNICOS E MARANHENSES

Das mãos das mulheres à mesa das famílias: a soberania alimentar floresce no Maranhão

Em um momento em que as mudanças climáticas e as pressões sobre os territórios rurais se tornam cada vez mais evidentes, a agricultura familiar continua sendo um dos pilares da produção de alimentos saudáveis no país 

Falar sobre soberania alimentar é falar sobre a vida que cultivamos todos os dias. É falar do alimento que chega à nossa mesa, do cuidado com a terra, do trabalho coletivo e da força das mulheres que mantêm vivas as tradições e garantem o sustento de suas famílias. No campo, aprendemos que produzir alimentos vai muito além do trabalho na roça: é um compromisso com o presente e com as futuras gerações. 

Eu vivo no Povoado Cabeceira do Magu, na zona rural de Santana do Maranhão (MA), uma comunidade formada por apenas 86 famílias, onde a agricultura familiar continua sendo a principal fonte de vida, renda e identidade. É aqui que cultivamos nossos alimentos, preservamos nossos conhecimentos e fortalecemos os laços comunitários que sustentam nosso modo de viver. 

Nossa produção nasce da diversidade. Plantamos mandioca, milho, feijão, abóbora, maxixe e criamos pequenos animais, garantindo que grande parte dos alimentos consumidos pelas nossas famílias seja produzida por nós mesmas. O excedente da produção também se transforma em renda e contribui para que as famílias permaneçam em seus territórios, vivendo do trabalho que realizam com dignidade. 

Foi dessa realidade que nasceu o Projeto Biscoito Magu, uma iniciativa construída pelas mulheres da comunidade. Utilizando a goma extraída da mandioca cultivada por nossas famílias, encontramos uma nova forma de fortalecer nossa autonomia econômica e complementar a renda familiar. Mais do que produzir biscoitos artesanais, produzimos oportunidades, fortalecemos a organização comunitária e valorizamos o trabalho das mulheres agricultoras. 

Foto: Repam Brasil

Cada etapa desse processo carrega história, conhecimento e afeto. Do plantio da mandioca à produção da farinha, da extração da goma ao preparo dos alimentos, preservamos saberes transmitidos entre gerações e reafirmamos a importância das mulheres na promoção da soberania alimentar em nossos territórios. 

Produzir alimentos de forma sustentável também significa respeitar os ciclos da natureza. Sabemos que a terra precisa ser cuidada para continuar nos alimentando. Por isso, mantemos práticas tradicionais de cultivo e buscamos viver em equilíbrio com o ambiente que nos acolhe. 

Mas manter esse modo de vida tem se tornado cada vez mais difícil. As mudanças climáticas já transformaram a nossa realidade. As chuvas estão mais escassas, os períodos de seca se prolongam e o calendário agrícola deixou de seguir o ritmo que conhecíamos há alguns anos. A produção da mandioca, que é a base da nossa alimentação e de nossa economia, vem sendo diretamente afetada. 

Também convivemos com os impactos provocados pelo avanço do desmatamento e da expansão das lavouras de soja no entorno da comunidade. A retirada da vegetação modifica o clima local, reduz a disponibilidade de água e compromete a produção agrícola das famílias que dependem da terra para viver. 

Foto: Repam Brasil

Além dos desafios ambientais, ainda enfrentamos dificuldades para acessar políticas públicas que fortaleçam a agricultura familiar. Muitas vezes, a burocracia e a falta de investimentos tornam mais difícil a permanência das famílias no campo. Foi justamente para enfrentar esses desafios que nos organizamos coletivamente por meio da associação de moradores, que continua sendo um espaço de resistência, solidariedade e construção de alternativas para a comunidade. 

Para nós, soberania alimentar significa muito mais do que produzir alimentos. Significa ter o direito de decidir o que plantar, preservar nossos modos de vida, fortalecer nossa autonomia econômica e proteger os territórios que garantem nossa existência. É poder viver daquilo que cultivamos, valorizando nossos conhecimentos e respeitando a natureza. 

Em um momento em que as mudanças climáticas e as pressões sobre os territórios rurais se tornam cada vez mais evidentes, a agricultura familiar continua sendo um dos pilares da produção de alimentos saudáveis no país. E quando as mulheres têm acesso ao trabalho coletivo, às oportunidades de geração de renda e ao reconhecimento de seu papel na comunidade, toda a sociedade colhe os frutos. 

Das mãos das mulheres à mesa das famílias, floresce a soberania alimentar. Ela nasce do cuidado, do trabalho compartilhado e da certeza de que cultivar a terra é também cultivar dignidade, autonomia e esperança para o futuro. 

 

Marinez da Conceição Firmino da Silva é agricultora familiar do Povoado Cabeceira do Magu, em Santana do Maranhão (MA). 

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