Giovana Madalosso: ‘Não consigo acreditar em divindades, por mais que já tenha tentado, mas acredito na capacidade humana de sonhar, produzir e transformar’
Autora de livros como A Teta Racional e Tudo pode ser Roubado é a sétima entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor
Giovana Madalosso é autora do volume de contos A Teta Racional (Grua Livros), vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional, de Tudo pode ser Roubado (Todavia) finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, Suíte Tóquio (Todavia), finalista do Jabuti e recomendado pelo NY Times, e de Batida Só (Todavia).
Ao longo da entrevista, Madalosso fala sobre construção de personagens, o sucesso dos eventos literários e os riscos oferecidos pela Inteligência Artificial aos direitos autorais de escritores e escritoras e à literatura.
Confira na íntegra:
Batida só aborda temas como a esperança e a descrença. No Brasil de hoje, no que você tem fé? E qual aspecto você encara com mais ceticismo?
Tenho fé no que sempre tive: nas pessoas. Não consigo acreditar em divindades, por mais que já tenha tentado, mas acredito na capacidade humana de sonhar, produzir e transformar. O que encaro com cetiscismo é justamente a ausência desses exercícios; a apatia, a alienação, a falta de envolvimento de parte da população nas questões políticas, sociais e ambientais. Com apatia não há mudança. E precisamos nos reinventar, como nunca.
Nunca esqueci nenhuma de suas protagonistas, situação que confesso ser bastante incomum para mim. Quais são suas maiores preocupações no momento de construir personagens tão marcantes?
Minha maior preocupação na hora de construir personagens é não me preocupar. Se eu ficar pensando no leitor, ou mesmo excessivamente na estrutura do romance, posso acabar deformando esse elemento que é o ponto de partida da narrativa.
Não sento para construir personagens. Estou andando na rua e, de repente, penso “meu personagem tem um jeito de andar igual ao daquele sujeito.” Ou “essa profissão seria perfeita para tal personagem”.

A doença mental do Cícero, de Tudo pode ser Roubado, eu criei a partir da bula de um remédio que achei no banco de um táxi. Poderia ter dado a caixa de remédio imediatamente para o taxista, assim que a achei, mas senti que ali tinha alguma coisa. Dei uma olhada na bula e bingo, era exatamente o problema e o sintoma que faltavam para arrematar o personagem.
Como sempre digo para os meus alunos, é preciso deixar a pista de pouso aberta para as ideias pousarem, porque a gente nunca sabe quando elas aparecem. E só quando muitas ideais chegam, quando já fiquei meses ou até anos com o personagem sendo gestado na cabeça, é que vou tecendo melhor a história e passo a escrevê-la.
Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?
Infelizmente, a solidão. Digo infelizmente porque isso revela que fui muito só, em vários momentos da minha vida. E hoje, ainda que bem acompanhada, sigo tentando expurgar a solidão, que segue aparecendo sob novas formas, como a da doença, esse exílio forçado e doloroso ao qual viajamos sem companhia, e que optei por retratar no meu último livro.
Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?
Tenho relido poemas da Wislawa Szymborska e da Cristina Peri Rossi. O livro do Desassossego, de Pessoa. Tudo sobre o Amor, da bell hooks, porque quero amar mais e melhor. E Os Detetives Selgavens, sempre.
Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?
Como leitora e escritora: O Apanhador no Campo de Centeio. Li aos treze anos e mudou tudo para mim. Eu já escrevia, já queria ser escritora, e a voz singular e azeda de Holden Caulfield me mostrou que tudo (e muito) era aceitável e possível na literatura.
Em 25 de julho foi comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?
Temos muito o que celebrar. O aumento de mulheres, negros e indígenas nos catálogos das editoras – e o êxito desses autores –, e a proliferação dos clubes de leitura e das feiras literárias. A FLIP 2026 teve recorde de público. Ontem, dia 5 de agosto de 2026, assisti a uma mesa com Itamar Vieira Jr. e Bruna Lombardi em um teatro lotado com mais de mil pessoas.
Poderia dizer que devemos nos preocupar com a IA. E sob um certo aspecto, devemos: é preciso proteger nossos direitos autorais do sistema que mastiga livros e, consequentemente, artistas. Por outro lado, o sucesso das feiras me dá certeza de que não há Inteligência Artificial que substitua a presença e a força de um escritor.
Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?
Muitos, mas para ficar em um: Pedro Jucá.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?
O melhor: se for dar os primeiros capítulos do seu livro para alguém ler, que seja para um bom leitor. Dicas equivocadas podem te assombrar pelo resto do trabalho e comprometer o resultado final.
O pior foi de um editor que sugeriu trocar o título do meu livro de contos de A Teta Racional para algo mais suave como Seios Racionais. O cara não entendeu nada!
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.

