A soberania alimentar na comunidade Forquilha, no Maranhão
A crise climática não é um problema distante. Ela já afeta os territórios tradicionais e coloca em risco modos de vida que, há gerações, contribuem para a preservação da biodiversidade e para a produção sustentável de alimentos
Cultivar a terra é cultivar o futuro. Essa é uma verdade que aprendemos vivendo em comunidade, observando os ciclos da natureza e compreendendo que a soberania alimentar começa no cuidado com o território e com as pessoas que dele vivem. Produzir nossos próprios alimentos é garantir dignidade, autonomia e qualidade de vida para as famílias de hoje e das próximas gerações.
A comunidade Forquilha, localizada no município de Benedito Leite (MA), carrega no próprio nome a sua identidade territorial. Situada entre dois rios, em um encontro de águas e terra que lembra os galhos de uma árvore, nossa comunidade preserva um modo de vida construído ao longo das gerações, baseado no cultivo da terra, na partilha dos saberes e na produção de alimentos saudáveis.
Aqui, aprendemos que soberania alimentar é muito mais do que colocar alimento na mesa. Ela significa a possibilidade de viver com dignidade, produzindo aquilo que consumimos, preservando a natureza e garantindo que nossos filhos e netos possam continuar cultivando a terra que nos sustenta. Temos tudo o que é essencial para viver: água, terra, saúde para trabalhar e a graça de Deus para produzir nossos alimentos e construir uma vida em harmonia com o território.

A agroecologia faz parte do nosso cotidiano. Os conhecimentos que orientam nossa produção foram herdados dos nossos avós e continuam sendo compartilhados entre as famílias da comunidade. Produzimos mandioca, feijão, milho, abóbora, azeite de babaçu e mantemos viva a nossa tradicional casa de farinha, um espaço coletivo que fortalece a autonomia alimentar, econômica e cultural do nosso povo.
Também preservamos um patrimônio precioso: as sementes crioulas. Após cada colheita, selecionamos e guardamos sementes de milho, abóbora e outras variedades para serem compartilhadas entre vizinhos e familiares. Guardar sementes é preservar a memória do território, fortalecer os laços comunitários e assegurar a continuidade da nossa produção de alimentos.
No entanto, manter esse modo de vida tem se tornado um desafio cada vez maior. As mudanças climáticas já fazem parte da nossa realidade e impactam diretamente aquilo que cultivamos. Os ciclos das chuvas mudaram, os períodos de estiagem estão mais intensos e a quantidade de insetos que atingem as lavouras aumentou significativamente. Também observamos mudanças preocupantes nas palmeiras de babaçu, tão importantes para a nossa alimentação, nossa economia e nossa identidade cultural.

Essas transformações mostram que a crise climática não é um problema distante. Ela já afeta os territórios tradicionais e coloca em risco formas de vida que há gerações contribuem para a preservação da biodiversidade e para a produção sustentável de alimentos.
Mesmo diante das dificuldades, seguimos apostando na agroecologia como caminho para o bem viver. Continuamos cultivando a terra, preservando nossos conhecimentos e fortalecendo a organização comunitária. Acreditamos que prosperidade não é apenas crescimento econômico. Prosperidade é garantir que as futuras gerações possam permanecer em seus territórios, vivendo com dignidade, produzindo seus alimentos e preservando os saberes que herdamos dos nossos ancestrais.
A história da comunidade Forquilha revela que a soberania alimentar nasce do cuidado com o território, da valorização dos conhecimentos tradicionais e do compromisso coletivo de produzir vida em harmonia com a natureza. É nesse encontro entre terra, água e comunidade que cultivamos não apenas alimentos, mas também esperança.
Cultivar a terra é, acima de tudo, cultivar o futuro.
Adelina Andrade é moradora da comunidade Forquilha, em Benedito Leite (MA).

