Afinal, o que é Literatura Periférica?
O que acontece quando aqueles que foram durante muito tempo personagens da literatura passam também a ocupar o lugar de autores?
No início do século XXI, a poesia ganhou força nas periferias das cidades, sobretudo em São Paulo, expoente do que hoje é conhecido como Literatura Periférica. Essa literatura iniciou sob a égide de Literatura Marginal, mas o termo não suportava o que realmente estava acontecendo, portanto seus autores e leitores de maneira orgânica o modificaram para o que julgavam estar mais próximo do que estavam realizando. Não se tratava apenas de uma nomenclatura, algo novo estava acontecendo.
Um fenômeno cultural ocorreu no início dos anos 2000, quando saraus, encontros culturais e muita poesia passaram a fazer parte do cotidiano das periferias. Os bares, até então, dos poucos espaços de encontros comunitários nos bairros, passam a ganhar novos significados, oferecendo espaço de voz aos artistas das periferias.
O sarau da Cooperifa (Cooperação Cultural da Periferia) se torna o principal expoente de representatividade. Fundado em 2001 por Marco Pezão e pelo poeta Sérgio Vaz, o sarau passou a reunir centenas de pessoas semanalmente para ler e ouvir poesia. Por si só, já é um dos maiores fenômenos culturais da história do Brasil, principalmente por se tratar de manifestações culturais independentes, de pessoas que estavam ali para muito mais do que apenas consumir cultura, circulando em seu próprio sistema literário.
Embora a poesia da periferia tenha se destacado dos anos 2000 para frente, ela já estava em construção, pelo menos desde 1988, ano em que o poeta Sérgio Vaz publicou seu primeiro livro, Subindo a ladeira mora a noite, sob forte influência do Hip Hop, que ganhava força no Brasil. Anos mais tarde, na prosa, Paulo Lins se destacaria com seu livro Cidade de Deus (1997), por sua narrativa cotidiana e violenta do bairro carioca.
Nesse contexto, essa literatura ganha corpo e estabelece uma diferença importante em relação à chamada Literatura Marginal.
Marginal ou Periférica?
Literatura Marginal foi um movimento iniciado na França, em meados de 1960, como forma de expressão cultural anti-ditadura e ganhou o mundo. No Brasil, esse movimento também se popularizou na classe média, principalmente entre os jovens universitários. Em 1975, Heloisa Buarque de Holanda publicou a antologia 26 poetas hoje, apresentando poetas marginais. Entre os autores estavam Vera Pedrosa, Ana Cristina César, Chacal, Torquato Neto, Roberto Piva, Roberto Schwarz, entre outros. Artistas cujo ideal era a resistência política por meio da arte, mas nenhum deles tinha o que diferencia a literatura aqui abordada, a vivência periférica.
Essa vivência não diminui em nada a importância dos poetas marginais, ao contrário, nos dá mais elementos para acreditar que a poesia seguirá se reinventando. O ponto central é que ser um artista marginal não te coloca à margem social, mas sim numa marginalidade no campo das ideias. O texto marginal é político por natureza, pensado para se opor ao sistema, que reflete sobre a sociedade e não compactua com as regras do “jogo”. Enquanto a Literatura Periférica é a identidade do artista advindo da periferia, sua experiência no território apresenta a ideia de que não se trata apenas de como se escreve, mas de onde se escreve.
Antonio Candido, no livro Vários Escritos (2013), nos deixou um texto intitulado “Direito à Literatura”, no qual coloca a leitura como direito inalienável ao ser humano. Ele defende que a literatura deixe de ser privilégio, que todos tenham o direito a ler Dostoievski. O que a Literatura Periférica reivindica é o direito de escrever. A leitura como eixo central, mas a escrita também como elemento democrático na sociedade.
É no Romantismo do século XIX que nasce a ideia de Literatura Brasileira, com os ideais nacionalistas, abolicionistas, indigenistas e a ideia do Brasil como nação livre. Em 1922, outro marco vai mudar nossa literatura, a Semana de Arte Moderna, que rompe inicialmente com os resquícios europeus em busca de uma arte genuinamente brasileira. O que inicia com Tarsila do Amaral, nas artes plásticas, atinge todas formas de expressões artísticas, até termos no “Manifesto Antropofágico” (1924), de Oswald de Andrade, que define como pensavam os modernistas. Além de Oswald, Mário de Andrade se tornaria o grande pensador do movimento, sendo reconhecido até hoje como o grande intelectual do Modernismo Brasileiro.
Mário de Andrade atuou como artista e pesquisador, para muitos o primeiro antropólogo brasileiro. Como secretário de cultura de São Paulo criou políticas até hoje praticadas no município, como a criação de bibliotecas infantis. Mário de Andrade, décadas antes da Literatura Marginal, escreveu um poema chamado “Ode ao Burguês”, em seu livro Paulicéia desvairada (1922), no qual desafia a burguesia paulistana, a culpa pelo fracasso do progresso brasileiro, brada contra os aristocratas e conclama morte à burguesia.
Um poema como esse é modernista pela forma, não há dúvida, mas também um texto marginal, forma de resistência política por meio da literatura. Afinal, ao ler o título do poema rapidamente “Ode ao burguês”, a pronúncia altera seu sentido, tornando-se na fala “ódio”, uma genialidade sem dúvida, que certamente não foi feita para agradar as elites de São Paulo. Mário de Andrade teria sido, nesse poema, um poeta Marginal?
É fundamental verificar nos textos as diferenças que marcam o lugar de onde se escreve quando falamos de Literatura Periférica, e não apenas Literatura Marginal. Para compreender melhor, vamos recorrer a dois poetas que ocupam espaços distintos na tradição literária brasileira: Manuel Bandeira e Sérgio Vaz. Manuel Bandeira, um dos maiores nomes do Modernismo Brasileiro, faz parte do cânone literário de nosso país, por isso, nossa escolha de incluí-lo nesta análise. Não para o contrapor, mas para marcar as diferenças, mesmo quando se trata do mesmo tema. Iniciaremos pelo poema “O Bicho” (1947), um dos seus textos mais conhecidos e estudados pela capacidade de síntese em sua crítica social.
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Certamente é um poema lindo, apesar de apresentar toda a miséria humana numa cena, infelizmente, conhecida pelos brasileiros até hoje. O texto é uma memória que deixou o eu poético marcado pelo que viu. Em sua lembrança viu um bicho, não um bicho qualquer, mas um que vive na imundice, abandonado, um cão que vive na rua, um gato ou rato, que apesar de causar uma aversão, não apresenta perigo iminente. Sua miséria era tanta que comia o que aparecesse, pois a fome era o grande perigo, até que por fim, a imagem muda de forma até que o bicho é reconhecido, por último, como um homem.
Um homem sem humanidade, dignidade, identidade, apenas um bicho. O eu poético, invoca Deus como quem clama por uma ajuda diante do susto e da miséria posta à sua frente. Repare o estranhamento que o distancia do homem que se forma à sua frente, um choque ao se deparar com a miséria que o paralisa ao ponto de não conseguir distinguir o que é bicho do que é gente. Manuel Bandeira merece todos os elogios por uma obra de tamanha profundidade. Para prosseguir com a análise verificaremos o poema “Gente Miúda” (2013), do poeta Sérgio Vaz.
Daniel não tinha documentos,
RG, certidão ou carteira profissional.
Não tinha sobrenome,
não tinha número, nem cidade natal.
Quase bicho, dormia na rua sobre as notícias
e acordava na sarjeta, na calçada ou no lixo.
Os dentes, em intervalos,
mastigavam as migalhas do mundo,
as sobras do planeta.
Era soldado
das tropas dos famintos.
Os trapos – farda dos miseráveis –
cobriam-lhe apenas o peito, a bunda e o pinto.
Sangrava de dia
o açoite do abandono.
Amigos? Só os cães
que o protegiam dos seres humanos.
Morreu
velho e abatido
depois de viver, todos os dias,
durante trinta e sete anos,
como se nunca tivesse existido.

O leitor reconhecerá a cena posta no poema de Vaz, trata-se do mesmo episódio narrado por Bandeira, porém na perspectiva do poeta da periferia e seu eu poético, que convive com a situação. O primeiro verso apresenta o personagem, Daniel, que apesar de não ter documentos, é um ser humano. Não é um bicho, mas fruto da miséria produzida pelo capitalismo.
Apesar de viver na rua e dormir na sarjeta, nas calçadas ou no lixo, vivendo como um bicho abandonado, ainda era gente: “quase um bicho”, pois o poema preserva a humanidade. Um soldado da tropa dos famintos, referenciando Os Miseráveis, de Victor Hugo, mas não o faminto que vai para a revolução derrubar o sistema em busca de uma vida melhor, esse soldado não acredita na humanidade, por isso, vive com seus cães, únicos amigos. Daniel é protegido pelos animais com os quais é confundido no poema de Bandeira, assim como Daniel das histórias bíblicas é protegido pelos leões na caverna, quando foi jogado para morrer como comida para eles.
Para a Literatura Periférica, não se trata apenas de apresentar a crítica social, mas também os elementos de onde se fala, evidenciando quais memórias esse lugar produz e demarcando o território como fator fundamental nessa produção de texto e linguagem. A periferia não aparece apenas como cenário, mas como contexto relevante socialmente para a existência do personagem. Daniel, com sua pouca humanidade sobrevivia pelas ruas e morreu após 37 anos como se nunca tivesse existido, como se nascesse e desaparecesse no ar, sem alegria na sua chegada ao mundo ou tristeza em sua morte.
O poema de Vaz, assim como o de Bandeira, nos coloca frente a frente com a miséria, com a contradição capitalista, com a reflexão social. Vivemos a época dos trilhardários e ainda tem gente com fome, como observou em seu poema Solano Trindade. No poema do poeta da periferia, o personagem não causa susto, pois é uma cena cotidiana. Daniel é conhecido, um sobrevivente do caos, um exilado social em seu país, mas não um bicho, um homem com nome e identidade, ainda que sem documentos, burocracia do capitalismo.
A beleza dos dois poemas aqui analisados é evidente, mas, colocados lado a lado, suas diferenças evidenciam que quando se escreve também se escreve de uma posição no mundo. O território interfere naquilo que é escrito, lembrado, experienciado e como isso é transformado em linguagem poética.
A Literatura Periférica não se limita a textos de crítica social, por mais que essa seja uma face importante dessa produção, pois a vivência dos autores promove uma crítica de outra perspectiva quando fala sobre a realidade. A pergunta sobre o que é Literatura Periférica talvez não seja a que realmente desejamos responder, mas ela evidencia sua questão central: O que acontece quando aqueles que foram durante muito tempo personagens passam também a ocupar o lugar de autores?
Desde 2020 a Literatura Periférica tem seu dia marcado no calendário da Cidade de São Paulo, dia 13 de outubro, data do falecimento de Marco Pezão, que nos deixou um ano antes, sendo a Lei 15.522/2020.
Márcio Vidal Marinho é doutorando em geografia humana pela Universidade de São Paulo, mestre em letras pela mesma universidade, com a dissertação “Cooperifa e a Literatura Periférica: poetas da periferia e a tradição literária brasileira”. Poeta, autor dos livros “Acabou a poesia do mundo: levaram, ao anoitecer, o que restava do amor” (2026), com o prefácio de Edi Rock, do Racionais MC’s; “Posso escrever os versos mais lindos essa noite” (2019), com prefácio de Mariana de Moraes, cantora, atriz e neta do poeta Vinícius de Moraes; e “21 Gramas” (2016), que recebeu Menção Honrosa da USP e tem o prefácio da imortal Heloisa Buarque de Holanda e do poeta Sérgio Vaz.

