Curando em diáspora, em busca de imagens que ainda não vi
A curadoria audiovisual é uma prática de mediação que promove diálogos entre filmes e, a partir deles, com o público. Quando o cinema de autoria negra propõe narrativas e imagens que se apartam desses lugares-comuns, o arcabouço de perspectivas se expande não apenas no imaginário de quem se reconhece nas telas, mas também em quem sequer havia se perguntado sobre suas próprias percepções acerca de pessoas negras
Um casal passeando em um parque de bicicleta num dia de sol1. Uma musicista tocando Frédéric Chopin em um piano de cauda2. Uma super heroína resistindo a forças maléficas em um futuro distópico3. Poderia não ser nada de novo no fronte se o casal não fosse constituído por duas mulheres negras gordas, se diante do piano não se iluminasse uma pele negra retinta, se a arma da bicentenária protagonista não se tratasse de sua agulha hacker de bordado. Estes filmes me brindaram com imagens até então inéditas perante meus olhos, fato que se repete incessantemente enquanto realizo curadorias com foco em cinema afrodiaspórico.
O cinema negro não tem como única função a denúncia, tampouco tem como obrigação fabricar soluções para problemas sociais. No entanto, esse cinema tem a imensa capacidade de engendrar possibilidades de existência ao colocar luz, câmera e ação sobre as tantas negritudes existentes. O cinema afrodiaspórico não costuma se inferir como universal e aponta exatamente para a multiplicidade de perspectivas e experiências.
A partir da representação, de sua falta ou deturpação em obras audiovisuais, é possível mapear o lugar da pessoa negra na sociedade. Ou melhor, o lugar no qual uma minoria hegemônica e detentora dos meios de produção tenta manter qualquer identidade lida como dissidente. Há também dados em diferentes áreas que atestam as tentativas de manutenção desse lugar de subalternidade, desde violência obstétrica à violência policial, perpassando racismo recreativo. Tudo isso foi e é constantemente replicado, algumas vezes como forma de denúncia, mas outras tantas apenas por ser o status quo.
Quando o cinema de autoria negra propõe narrativas e imagens que se apartam desses lugares-comuns, o arcabouço de perspectivas se expande não apenas no imaginário de quem se reconhece nas telas, mas também em quem sequer havia se perguntado sobre suas próprias percepções acerca de pessoas negras. Os conflitos cotidianos, as “pequenas alegrias da vida adulta”4, o sucesso em todas as suas formas, fabulações sobre futuros possíveis, e tantas outras histórias e imagens que já estão gastas quando se trata de personagens hegemônicos ganham frescor quando são outras e outros sujeitos protagonistas.
Refiro-me, no entanto, a uma produção ainda incipiente quando comparada à filmografia brasileira. De acordo com mapeamento realizado pelo Instituto Nicho54, presente na publicação Cinemateca Negra5, apenas 1.104 filmes foram dirigidos por pessoas negras entre 1949 e 2022, sendo 83% dessas obras realizadas após 2010. Isso reflete o impacto do desenvolvimento de tecnologias mais acessíveis, da multiplicação de cursos livres de audiovisual e da implementação de ações afirmativas em editais de fomento. Isso ecoa também o aumento na quantidade de curadores negres colaborando em festivais já estabelecidos, e o surgimento de novas mostras e festivais.
A pesquisa que originou a plataforma Mapa do Cinema Negro6, promovida pela empresa BREU CC, surge a partir do questionamento sobre de que maneira o cinema realizado por pessoas negras chega ao público, ou quais seriam as oportunidades de difusão para esta cinematografia. A obtenção dos dados sobre festivais, mostras e cineclubes vocacionados demonstrou que a criação destes se deu como uma “resposta ativa ao fato de a produção audiovisual negra ter historicamente uma presença ínfima e apagada, quando não inexistente, nos circuitos tradicionais de festivais de cinema.”7
Ainda que a produção de filmes de autoria negra esteja em movimento ascendente, contrariando o arrefecimento da atenção coletiva à inclusão e diversidade potencializada pelo movimento “Black Lives Matter”, as janelas disponíveis para exibição são bem menores que a quantidade de obras realizadas. Fazer um filme é, inevitavelmente, entrar em disputa pela possibilidade de ser assistido.
Há algo de insubmisso em ser um corpo dissidente que pratica o ofício da curadoria. Tem origem no desassossego e nasce da falta, do anseio por aquilo que não se viu. Deriva da percepção de que existe um repertório assimétrico de representação nas telas e fora delas, e da compreensão de que quem sempre determinou o que seria visto não tem interesse em revisitar seus próprios parâmetros. Se enraíza na certeza de que a excelência não está ausente, mas foi historicamente sub-reconhecida. Curadores e pesquisadores negres acumulam repertório, pensamento crítico e rigor suficientes para construir relações entre obras audiovisuais que outros olhares não foram capazes de construir.
A importância da presença de pessoas afro (e indígenas, quilombolas, pessoas de ascendência asiática, pessoas com deficiência, pessoas idosas, mulheres e pessoas LGBT+, enfim, sujeitos historicamente sub-representados) neste elo da cadeia audiovisual se dá pelo fato de que identidade é uma das bagagens que levamos para construção de pensamento, e é inevitavelmente afetada pelo tensionamento que se dá entre o racional e o sensível. Quero dizer que as categorias e critérios que criamos para dar conta de obras audiovisuais jamais serão neutros, pois são atravessados por nossas percepções de nós mesmas e do mundo. Assim, sujeitos cujas identidades foram sistematicamente encurraladas em estereótipos têm maior propensão a apontar e corrigir quando este padrão está sendo repetido.

Estive na estreia mundial do mais recente longa-metragem de André Novais Oliveira, Se Eu Fosse Vivo… Vivia, no 76º Festival de Berlim. Dois meses depois, programei sua estreia latino americana no 65º Festival Internacional de Cine de Cartagena de Indias. Durante a estreia brasileira, que aconteceu na aguerrida 59ª edição do festival de cinema nacional mais longevo do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, André expressou algo que ressoa profundamente com minha experiência como curadora: em tom jocoso, informa sua vontade de “assistir ao filme com a cadeira virada, olhando para vocês [o público]. Mas queria ver o filme também. Vou decidir na hora”. Ver o trabalho de pesquisa e programação desaguar nos olhos da audiência é ratificar a importância da mediação que a curadoria promove. Há sessões nas quais se faz evidente que um filme pode se comunicar com uma alma.
Pesquisar cinema contemporâneo afrodiaspórico autoral é deparar-me constantemente com esse desejo de testemunhar um filme impregnar-se no público, adentrando para além de suas retinas, preenchendo cada célula do corpo, dissolvendo certezas e recriando realidades. Reconheço o papel fundamental que o audiovisual tem na construção de olhares para o mundo por ter sido eu mesma profundamente afetada por ele. E sigo me afetando. Enquanto isso, programo filmes como quem cura fissuras ancestrais, buscando potencializar imagens que desestabilizam estruturas hegemônicas e bailam com aquilo que delas escapa.
Bethania Maia é curadora, programadora e produtora audiovisual. Cofundadora do Rastro – Festival de Cinema Documentário e da empresa Vaporosa Cultural, atua na difusão de narrativas afrodiaspóricas no Brasil e exterior.
Notas de Rodapé
1Minha História é Outra. Direção: Mariana Campos. Brasil, 2019.
2Manhã de Domingo. Direção: Bruno Ribeiro. Brasil, 2022.
3Hacker Leonilia. Direção: Gustavo Fontele. Brasil, 2025.
4EMICIDA. Pequenas alegrias da vida adulta. In: AmarElo. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2019.
5AUGUSTO, Heitor (org.). Cinemateca Negra. São Paulo: Instituto NICHO 54, 2024.
6MAPA DO CINEMA NEGRO. Mapa do Cinema Negro. Disponível em:
https://mapadocinemanegro.com/. Acesso em: set. 2026.
7FRANCISCO, Clébson. Sobre. Mapa do Cinema Negro. Disponível em:
https://mapadocinemanegro.com/sobre/. Acesso em: set. 2026.

