AMAZÔNIA

O bolsonarismo e as geografias da destruição

Em artigo do especial Lula × Bolsonaro 2026, Bruno Malheiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Pará, analisa a política para a Amazônia dos dois últimos presidentes e explica o que está em jogo nestas eleições 

O bolsonarismo não nasceu nas urnas. Antes de se tornar força eleitoral, já se constituía nas fronteiras do capitalismo brasileiro pela expansão de uma racionalidade territorial que subordinava a terra, a natureza e as relações sociais à acumulação privada, legitimando a destruição dos bens comuns e desqualificando outras formas de organizar a vida. Em 2018, os mapas da soja, da pecuária e da mineração convergiam com aqueles em que Jair Bolsonaro obtinha seus melhores resultados eleitorais. Não era coincidência cartográfica: essas fronteiras articulavam-se a circuitos políticos e culturais – de festas agropecuárias a clubes de tiro e redes religiosas – que difundiam a defesa irrestrita da propriedade, a promessa da prosperidade e o empreendedorismo de si. A homogeneização das paisagens pelas commodities alcançava também os comportamentos e as narrativas sociais, fragilizando vínculos com a terra, com a memória e com a vida coletiva. Afinal, o “agro” tornou-se “pop” e passou a ocupar lugar central na produção de sentidos no Brasil. 

A destruição da Amazônia é a expressão mais brutal dessa racionalidade territorial. Florestas derrubadas, rios contaminados, territórios invadidos e povos expulsos ou assassinados não são desvios do desenvolvimento, mas resultados de processos que subordinam a vida à acumulação privada e desqualificam outras formas de organizar o território. Esses processos sustentam relações de poder que ampliaram a força, a capilaridade e a legitimidade da extrema direita, encontrando nas eleições de 2018 uma via de acesso ao Estado. 

Ilustra: Lila Cruz

O governo Bolsonaro e a destruição da Amazônia como política de Estado 

Entre 2019 e 2022, essas geografias ganharam escala de Estado, fazendo da Amazônia um laboratório de experimentação autoritária. A flexibilização das normas ambientais, o enfraquecimento da fiscalização, os ataques aos direitos territoriais e a legitimação da violência em defesa da propriedade privada ampliaram as condições para a destruição. No período, o desmatamento acumulado na Amazônia Legal chegou a 45.612 km² segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Inpe (2022). A política agrária favoreceu a inserção de terras no mercado e processos de reconcentração fundiária, enquanto Funai, Ibama e ICMBio eram enfraquecidos e a agenda ambiental, militarizada. O garimpo ilegal avançou em territórios indígenas, articulado ao crime organizado e amparado pela tolerância estatal. A tragédia Yanomami sintetizou essa política: mais de 20 mil garimpeiros invadiram seu território, agravando a contaminação dos rios, as doenças, a fome e as mortes diante da omissão do governo.  

Na Amazônia, essa ofensiva articulou setores das oligarquias tradicionais a novos atores políticos vinculados às frentes econômicas predatórias, inclusive ilegais e ligadas ao crime organizado, que converteram interesses econômicos em força eleitoral sob a bandeira do bolsonarismo. O orçamento secreto fortaleceu grupos e lideranças locais, ampliando a capilaridade da extrema-direita pelo interior da região. Essa consolidação também se apoiou na violência política, nos ataques à imprensa e na intimidação de opositores, que restringiram o pensamento crítico e dificultaram a organização das forças de esquerda. A experiência amazônica revela, assim, como o projeto bolsonarista reconfigurou o patrimonialismo brasileiro, aproximou interesses privados de uma agenda autoritária e estreitou as condições de exercício da democracia. 

 

O governo Lula, a Amazônia e a persistência do bolsonarismo 

Lula venceu as eleições de 2022 por uma pequena margem. Seu governo reconstruiu instituições, retomou políticas públicas, recompôs capacidades estatais e recolocou a proteção da Amazônia na agenda federal. O Brasil também recuperou espaço no multilateralismo, buscou defender seus interesses diante de diferentes blocos, sem alinhamento a um único centro de poder, orientação relevante em um cenário internacional marcado por guerras e disputas geopolíticas. Na Amazônia, o desmatamento caiu de 9.064 km² em 2023 para 5.731 km² em 2025 (INPE/PRODES, 2025). A fiscalização ambiental foi retomada, operações de desintrusão enfrentaram invasões em terras indígenas e os direitos territoriais voltaram à agenda pública. Ibama, ICMBio e Funai também passaram por processos de recomposição institucional. Houve, portanto, um freio à destruição. 

Apesar dos avanços na proteção da Amazônia, o primeiro turno de 2026 evidencia a permanência da força eleitoral e territorial do bolsonarismo. Em 2018 e 2022, as áreas de expansão da soja, da agropecuária, da mineração e do desmatamento se sobrepuseram geograficamente às de maior votação de Jair Bolsonaro. Na Amazônia, em 2022, ele venceu em municípios que concentravam, juntos, 70% das áreas desflorestadas nas três décadas anteriores.1 Em 2026, estudos distintos voltaram a identificar as geografias do bolsonarismo. Marcela Vecchione e Rafaella Pinto2 relacionaram a concentração fundiária em imóveis acima de mil hectares à redução da votação de Lula em relação a 2022, sobretudo nas fronteiras de expansão da soja. Marco Antônio Faganello,3 por sua vez, observou perdas mais acentuadas de Lula em municípios menores, onde o agronegócio tem maior peso econômico. Em conjunto, esses estudos reforçam a compreensão do bolsonarismo como força eleitoral sustentada por uma racionalidade territorial que permanece ativa na sociedade brasileira. 

A recomposição das instituições e das políticas de proteção ambiental no governo Lula demonstrou que é possível frear a destruição da Amazônia. Mas esses avanços não dissolveram as bases territoriais que sustentam o bolsonarismo. As eleições de 2026 colocam o país diante de uma encruzilhada territorial, geopolítica e climática: o possível retorno de um projeto que fez da destruição da Amazônia uma forma de governo ameaça a existência da floresta e de seus povos, a soberania nacional diante dos riscos de subordinação aos Estados Unidos e o equilíbrio climático do planeta, para o qual a Amazônia contribui por meio da regulação de importantes ciclos biogeoquímicos. 

 

Resistir ao bolsonarismo e pensar desde a Amazônia 

A disputa eleitoral é decisiva para impedir que o bolsonarismo amplie seu controle sobre o Estado. As mobilizações recentes de estudantes e trabalhadores nas ruas e nas redes deram sinais de uma nova força política, que precisa sobreviver à urgência eleitoral e se constituir como força coletiva duradoura. Nos territórios amazônicos e nos demais biomas atravessados pela destruição ambiental, povos e comunidades enfrentam as forças territoriais que sustentam o bolsonarismo. É no encontro entre essas diferentes formas de mobilização que se pode fortalecer a resistência à extrema direita e enfrentar suas bases territoriais e subjetivas. 

O bolsonarismo instrumentalizou a destruição da Amazônia como forma de exercício do poder e de organização do Estado. Mas as lutas indígenas, quilombolas, camponesas, ribeirinhas e extrativistas, em diálogo com as mobilizações por direitos e democracia, afirmam outras formas de conceber o Estado, a política e nossa relação com o mundo. É pela experiência territorial dessas resistências que não apenas enfrentamos as geografias da morte que sustentam o bolsonarismo, mas também encontramos geografias capazes de projetar outros mundos e manter abertos os horizontes que ainda precisamos construir. 

 

Bruno Malheiro é geógrafo, doutor em Geografia e professor do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará. Um dos autores de Horizontes amazônicos, autor de Geografias do Bolsonarismo, corroteirista do documentário Pisar suavemente na terra e autor do álbum musical Segura o céu.

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