Ouro vermelho: a conquista dos índios brasileiros

A mais importante história condensada dos primeiros habitantes do território brasileiro, indispensável para compreender o país e para os próprios índios, é publicada agora em português. O autor, historiador e grande estudioso, teve a experiência de deparar com índios isolados em 1961 e de conhecer muitos povos do Xingu e de outras regiões.
    Com o livro de John Hemming, o primeiro de uma trilogia, podemos seguir o destino dos índios desde a chegada dos europeus, em 1500, até a expulsão dos jesuítas em 1760. Os dois seguintes, ainda não traduzidos, acompanham os índios até nossos dias. Baseando-se num conjunto impressionante de obras de cronistas, viajantes, historiadores, documentos de arquivos e autores contemporâneos, Hemming compõe um enredo único no gênero, revirando a história brasileira pelo avesso – sob a ótica dos índios.
    Mais uma vez, algumas falsas idéias correntes caem por terra. Uma delas, a da ausência de escravidão indígena no país. Muitos capítulos, da conquista quinhentista ao nordeste holandês, das missões religiosas ou Antônio Vieira à Amazônia devassada, dão um quadro vergonhoso e cruento dos massacres e humilhação dos povos, de seus papéis como escravos, ouro rubro enriquecendo os colonos e europeus que se apossam das terras, gênese da estrutura de poder e propriedade do Brasil. Os confrontos inter-tribais e com os missionários, a opressão religiosa, epidemias e o uso da força bruta assolam os índios.
    Descarta-se outra idéia equivocada, a de ausência de movimentos indígenas de defesa. Nas páginas de Hemming, a resistência dos nossos povos é admirável, inúmeras as vitórias guerreiras, os heróis e heroínas inquebrantáveis. Rica é a multiplicidade de personagens históricos, exemplares ou monstruosos, índios e outros, com vidas extraordinárias e romanescas – material para escritores e cineastas. Citemos alguns, os mais e os menos conhecidos, como Anthony Knivet, Hans Staden, o Padre do Ouro, Sepé Tiaraju, Padre Fritz, Ajuricaba, Tatabarana e Bernard O´Brien.
    Vívida é a sociedade indígena que Hemming extrai dos cronistas e observadores coevos. Com Tupinambás, Guaicurus, Omáguas, Parecis, Paiaiás, Janduins penetramos em costumes e cenas paradisíacas, maravilhados por aldeias populosas, infelizmente há muito desaparecidas.
    O estilo é fluente e literário, com a excelente tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Não se assustem os leitores com o número de páginas – qualquer capítulo pode ser lido separadamente com proveito, um aprendizado da matriz de atitudes brasileiras relativas aos índios – felizmente não as únicas, como esse livro prova.