A SITUAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA NA INGLATERRA

Há alguns motivos para ler, ou reler, com interesse e proveito, a obra de Friedrich Engels, embora ela tenha sido publicada em 1845 e escrita por um jovem de apenas 24 anos. O primeiro é que o autor demonstra que é possível escrever com simplicidade e paixão sem perder o rigor científico. A fluência quase jornalística e a qualidade literária de seu texto são preservadas na edição da Boitempo pela competente tradução de Bernhard A. Schumann, feita diretamente do alemão.
    O segundo é que Engels antecipa, em sua investigação, a ciência social unitária e dialética que ele e Marx iriam desenvolver nas décadas seguintes. Preocupado em iluminar as diferentes faces de seu objeto de estudo, Engels derruba as fronteiras artificiais das disciplinas acadêmicas. Atento à rea-
lidade contraditória e em movimento da sociedade inglesa, exercita aquela “ciência dialético-histórica da tendência”, como a chamaria o filósofo alemão Ernst Bloch, típica do marxismo.
    Descrevendo minuciosamente as condições de trabalho e de vida do proletariado inglês, relacionando sua emergência e expansão com as do capitalismo e da primeira Revolução Industrial, captando não apenas o lado sofredor da nova classe social, mas também seu potencial revolucionário, Engels realizou um trabalho pioneiro, que, apesar de pouco conhecido, foi crucial para sua transformação e de Marx em marxistas.
    Porém, a maleabilidade do capitalismo e a capacidade de concessão da burguesia, por um lado, e as dificuldades para a ruptura com o Estado burguês e para a construção da nova sociedade, por outro, se revelaram muito maiores do que imaginaram Engels e Marx. Uma investigação das mudanças tecnológicas e organizativas do capitalismo e das novas configurações da burguesia e do proletariado, assim como um exame mais acurado dos pressupostos requeridos para a formação da consciência crítica e para o desenvolvimento da organização democrática dos trabalhadores constituem, portanto, desafios para os socialistas e marxistas contemporâneos. Esse é mais um motivo pelo qual a obra de Engels precisa ser relida, sem negligenciar, no entanto, suas limitações históricas e teóricas.