Chibata!
A história do Brasil não só é curta, como marcada por conflagrações breves que renderam mais anos de cadeia para seus sobreviventes do que dias de ação propriamente dita: o levante dos 18 do Forte de Copacabana, a Intentona Comunista, o Putsch Integralista de 1938… A Revolta da Chibata, em dezembro de 1910, foi um desses acontecimentos de curta duração e longo calvário para seu idealizador, o marujo João Cândido. A grande diferença é que terminou vitoriosa e suas conquistas perduraram.
Para quem pretende romancear os fatos, fica o problema da falta de mais lances dramáticos. O livro em quadrinhos enfrenta esse desafio com bons resultados. Idas e vindas no tempo, seguindo a trajetória pessoal de João Cândido, filho de negros alforriados, aumentam o suspense para relatar o motim contra os maus-tratos aos marinheiros, que ocorreu a bordo do navio Minas Gerais, e a movimentação do governo recém-empossado de Hermes da Fonseca para atender as reivindicações dos amotinados sem ferir o orgulho da Marinha. Depois do desenlace da revolta, o livro acompanha o périplo de João Cândido por casas de saúde e prisões, voltando aos eventos ocorridos no Minas Gerais por meio dos depoimentos do líder perseguido.
Embora use bastante os recursos que as graphic novels tomaram emprestado do cinema, como a fusão de cenas, Chibata! parece cortejar mais os interessados pela história do Brasil do que os aficionados por histórias em quadrinhos – se por um lado é bastante acurado na ambientação e narração dos fatos, o didatismo dos diálogos compromete a dicção natural dos personagens e a verossimilhança de suas reações. Os personagens bons na trama tendem a sorrir e os evidentemente maus, a fazer esgares, e o bom traço de Hemeterio, carregado de sombras, deixa mais forte esse contraste.
Mas nada que comprometa a tarefa a que se entregaram os autores: contar o que aconteceu e, aqui e ali, emocionar, como na cena final.


