A doutrina do choque

O filósofo italiano Giorgio Agamben já demonstrou como a política trabalha secretamente na produção de emergências. Só que faltava um ponto de vista jornalístico, apurado e certeiro, sobre a natureza e as dimensões do fenômeno. Essa parece ser a proposta de Naomi Klein nesse livro. Logo no primeiro capítulo, ao entrevistar Gail Kastner, remanescente das experiências da CIA com eletrochoques nos anos 1950, Klein define a obra como “um livro sobre o choque”, ou, se preferirmos, sobre como o capitalismo lucra com a dor dos outros diante da desgraça.
O livro descreve inicialmente como os países ficam impactados por causa de guerras, ataques terroristas, golpes de Estado e desastres naturais, e, em seguida, são submetidos a novos choques políticos e econômicos, por meio de desregulamentações, privatizações e cortes dos programas sociais – doutrina neoliberal desenvolvida pelo economista Milton Friedman (1912-2006), professor da Escola de Economia de Chicago. E quem ousar resistir às medidas impostas corre o risco de ser torturado com novos choques (elétricos). Como disse Eduardo Galeano, muito citado no livro, “Friedman ganhou o Nobel e o Chile ganhou Pinochet”.
O complexo político-econômico gerado por esse estado de choque contínuo é o capitalismo de desastre, “incapaz de distinguir entre destruição e criação, entre ferir e curar”, conforme atestam os exemplos analisados no livro. Parte-se do mito do milagre chileno, a primeira aventura dos “Garotos de Chicago” nos anos 1970, passando pela terapia de choque em vários países da América Latina na década de 1980. Seguem-se crises na China, Polônia, África do Sul e Rússia; a “pilhagem” da Ásia nos anos 1990; a doutrina militar do “choque e pavor” no Iraque pós-11/9; o tsunami de 2004 no Oceano Índico e as privatizações que ocorreram no rastro do furacão Katrina, em 2005.
A doutrina do choque é altamente recomendável a todos que esbravejam contra os desmandos do regime chinês, sem se darem conta de que a Cisco, a General Electric, a Honeywell e o Google, entre outras empresas, vêm trabalhando de mãos dadas com os governos locais para permitir o monitoramento remoto da internet e fornecer a infra-estrutura para um dos maiores complexos policialescos do planeta.