RIO MARIA, CANTO DA TERRA

Retrospectivamente, a ordenação sacerdotal do autor em Conceição do Araguaia, em 1980, tem ares de consagração “martirial”. Ali estão vários dos que seriam assassinados nos anos seguintes: Paulo Fonteles, Belchior Martins, Gabriel Pimenta, João Canuto, Manoel Gago, Expedito Ribeiro e Dorothy Stang! Ao longo dos 28 meses do seu dantesco diário (1988-1991), Ricardo Rezende – então vigário de Rio Maria e membro da Comissão Pastoral da Terra – participa do cotidiano de brasileiros ignorados, que a mídia costuma desprezar, pisados sob a bota impiedosa do latifúndio triunfante. Esse portal da Amazônia avizinhado ao Bico do Papagaio é a então nova fronteira agrícola do Brasil. Ali, tudo é permitido: impulsionado pela “nova” velha República, alimentado por fartos subsídios, o progresso anda na pata do boi, mata e desmata, viola e queima, despeja e aterroriza qualquer veleidade de resistência, qualquer remanescente do “atraso”. Posseiros seguindo a bandeira verde, sindicalistas acreditando na bendita e prometida reforma agrária, peões aprisionados por promessas, cristãos devolvidos à era da catacumba.
Escrito no indicativo presente da urgência, do testemunho, da denúncia, da busca desesperada por manter viva a vida que sobrou, esse Canto da Terra bem poderia se chamar “Apocalipse da Terra”, ou melhor, “Salmo da Terra”. Ou ainda, “Paixão”. Entre mais de 300 personagens, a conta dos mortos matados desafia a razão, o medo torna-se intruso onipresente e a fé, a única forma de continuar existindo.
Mudaram os tempos, como quer acreditar o autor? Mortes matadas, escravos, despejos, sem terra e marcados para morrer: ainda há e mais da conta.  O agronegócio abriu novas frentes. No desencanto ambiente, há quem aposta ainda no poder do povo que resiste, luta, se organiza frente aos faraônicos projetos? Da faixa de Gaza deste sul do Pará, ainda ecoam, misturados aos do padre Ricardo, os versos de Expedito, de morte anunciada. A guerra do sem-fim não terminou. O que move essa gente?