A FACE DA GUERRA

Martha Gellhorn é um pouco responsável pela imagem mítica do correspondente de guerra, até hoje alimentada, em parte, pela própria mídia, e pela imaginação romântica dos leitores e telespectadores. Nascida em St. Louis, Missouri, em 1908, embarcou para Paris em 1930. A viagem, de navio, foi gratuita; no bolso, levava US$ 75, mas tinha a certeza de que poderia ganhar a vida como correspondente internacional.
Estava certa. Ao longo de suas quase seis décadas de vida profissional (morreu em 1988), cobriu alguns dos principais conflitos do século passado, da guerra civil espanhola à invasão do Panamá, passando pelo Oriente Médio, China e Vietnã. A face da guerra retrata essa trajetória.
Feminista – não suportava que se referissem a ela como “(ex)namorada de Hemingway, por exemplo –, combativa e ousada, seu texto é marcado por fina ironia, pela indignação face à tragédia e por uma postura diante da guerra que, paradoxalmente, produz no leitor convicção pacifista sobre a inutilidade da destruição. E é pela voz das pessoas comuns, pelo testemunho anônimo da criança, do dono da loja da esquina, das mulheres divididas entre o combate nas barricadas e a proteção dos filhos, que tomamos conhecimento dos horrores.
Mas Martha Gellhorn também defendia com paixão seus pontos de vista, e isso pode ser fatal, mesmo para uma jornalista com o seu talento. Ela descreve a Guerra dos Seis Dias, entre Israel e os países árabes, como a de Davi contra Golias: Israel seria um Estado que procurava a paz e foi covardemente agredido pelos árabes malvados. Nada mais equivocado. Basta lembrar que o “pacífico” Davi já desenvolvia bombas nucleares em Dimona, além de ter participado do ataque ao Canal de Suez, em 1956, junto com Inglaterra e França (para não falar da guerra de 1947-48).
Mas isso não tira o brilho e o mérito de um livro que retrata uma vida fascinante e impõe-se como um testemunho, tanto do ponto de vista jornalístico quanto cultural e histórico propriamente dito.