EU VIVI POR UM SONHO

Março de 2009. No mês em que se comemora o dia internacional da mulher, defronto com a provocadora questão de um esperto menino de oito anos: É injusto! Por que não tem um dia dos homens também?
Como explicar o significado desse dia para aqueles que, frente à aparente igualdade entre os sexos, não conseguem perceber o sentido profundo do que, ainda hoje, implica pertencer a um sexo e não a outro? Foi em meio a estas reflexões que me entreguei ao romance histórico de Cutrufelli sobre os últimos dias de vida de Olympe De Gouges, condenada à morte por ser “mulher de imaginação exaltada [que] esqueceu as virtudes que convêm ao seu sexo e quis ser homem de Estado”. O livro retrata a revolucionária que, para além de lutar pelos direitos das mulheres, defendeu apaixonadamente os ideais de igualdade e liberdade transformados no terror do cadafalso e da guilhotina na França jacobina. Não se trata, contudo, de mais uma aborrecida história de uma heroína injustiçada. Fruto de uma intensa pesquisa histórica, revela os meandros da vida cotidiana pós-revolução, mas este é apenas o seu pano de fundo. A sua riqueza está justamente em instigar o pensar sobre o sentido mais profundo do que é a desigualdade de gênero, e o faz dando voz às mulheres, e só a elas. A narrativa se constitui por um mosaico polifônico de distintas perspectivas femininas cujo ponto de convergência é Olympe. No jogo de espelhos entre essas mulheres, diferentes em origem social, idade e visão de mundo, revelam-se a complexidade das convenções de gênero e a força do seu entranhamento. E é da voz da nossa heroína que vem a sua exata tradução: “É a imaginação que nos torna humanas, [que] nos presenteia o desejo” e que, acrescentaria, nos faz sujeitos. Justamente, é a capacidade de imaginar, interditada ao feminino, a matéria de que se constitui a liberdade para De Gouges: “Não renunciei a imaginar um mundo em que todos possam falar e ser ouvidos”. Excelente reflexão sobre gênero, igualdade e liberdade.