O CRIME DO RESTAURANTE CHINÊS
É intrigante a forma como descobrimos apenas nas últimas páginas do livro lançado recentemente pela Cia. das Letras, O crime do restaurante chinês, a motivação de Boris Fausto para reviver um dos crimes sensacionais da história paulistana.
Criança ainda no carnaval de 1938, Boris Fausto faz um acerto de contas consigo mesmo e revive o verão em que ouvia os assustadores comentários da família sobre o cruel assassinato de quatro pessoas, na madrugada da quarta-feira de cinzas, no restaurante chinês da Rua Wenceslau Braz, naquele que seria o último dos carnavais de que sua família participaria: o pai de Fausto, “vestido de luto” pela morte da esposa em julho do mesmo ano, desistiria para sempre do corso paulistano.
Numa aproximação entre literatura e história, Boris Fausto reconstrói a trajetória do julgamento de Arias de Oliveira, trabalhador negro, fisicamente parecido com o herói da copa de 38, Leônidas da Silva, que acabou respondendo pela morte de seu antigo patrão, Hog-Fung, de sua esposa e de dois empregados brasileiros que dormiam sobre as mesas da cozinha do restaurante. A trama consiste em estabelecer conexões da vida cotidiana, emaranhando o crime ao futebol, ao carnaval e à dinâmica de uma cidade repleta de migrantes e de imigrantes que procuram se ajustar, como a própria família do autor, enquanto Arias de Oliveira aguarda o veredicto de dois julgamentos no Tribunal do Júri.
Se, de certa forma, o livro de Boris Fausto navega alheio às discussões da historiografia que abordam as relações entre polícia, psicanálise, direito, medicina, democracia e ditadura, a pesquisa do autor nos autos do processo e nos jornais sobre o crime de Oliveira, reproduzindo rico corpo de fotografias, faz da leitura um delicioso passeio de época. Traz à tona indícios de como a elite negra, representada pelo advogado de defesa de Oliveira, Paulo Lauro, se movimentava contra a discriminação, e nos brinda com a saudável disposição de um historiador em sua maturidade: a de se despir dos fantasmas, dando conta de sua dívida simbólica.


