A ESTÉTICA DO OPRIMIDO

Informando que este livro não é um testemunho de vida, mas a sua vida, Augusto Boal se expõe por inteiro como artista intelectual engajado: da discussão metafísica direta com Platão ou Baumgarten sobre conceitos inaugurais da estética às mais recentes descobertas no campo da neurologia, inúmeras teorias – científicas, psicanalíticas, linguísticas, sociológicas, políticas e filosóficas – são convocadas para fundamentar uma estética que tem por finalidade cultivar a sensibilidade e a disposição de luta dos oprimidos.
Boal sabe que seu programa de intervenção estético-política tem um dos primeiros formuladores em Walter Benjamin: em vez de abastecer o aparelho produtor de mercadorias culturais, é preciso formar outros artistas, democratizando o acesso aos meios de produção da arte. O Teatro do Oprimido estimula a cultura dos segmentos oprimidos de cada povo, promovendo a multiplicação dos artistas. Como este combate também se trava no âmbito teórico, a partir de proposição de Hegel – a palavra é a maior invenção humana –, Boal lembra que dogma é o suicídio da palavra, loucura do pensamento, destruição da lógica. Destruir os dogmas da arte e da cultura, mostrando que todos os seres humanos são artistas de todas as artes, é parte da luta do artista.
Resultado de cinquenta anos de militância na frente teatral, este livro visa a formação daqueles que lutam por criar as condições para que os oprimidos possam desenvolver sua capacidade de ver de modo distanciado e crítico a realidade na qual devem intervir. Para isso, é preciso entender também o modo criminoso como atua a indústria cultural, cujo lixo é produzido para cultivar o embotamento da sensibilidade, o medo e a apatia dos oprimidos.
 Os monopólios da comunicação expropriam a estética como os latifundiários expropriam a terra. Por isso, a estética do oprimido, pensada no enfrentamento com os efeitos da dominação de classe é, para Augusto Boal, um ensaio de revolução.